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Arca: Contos : Hagia Sophia
Enviado por Cortimiglia em 16/02/2004 00:10:00 (2857 leituras) Notícias do mesmo autor
Arca: Contos

Autor: Phil Masters

Tradução: Marcelo Cortimiglia
Cedido à RedeRPG

Phil Masters, autor britânico de suplementos como GURPS Atlantis, GURPS Arabian Nights, e do aguardado GURPS Dragons, presenteia os leitores da REDERPG com um conto de ficção histórica ambientado em Constantinopla, após a tomada pelos Otomanos.

A versão original do conto, em inglês, pode ser encontrada aqui.

Hagia Sophia

Por Phil Masters

“Porque Deus há de trazer a juízo toda a obra,
e até tudo o que está encoberto,
quer seja bom, quer seja mau.”

Eclesiastes, 12:14



A vida abundava nas ruas de Istambul enquanto o Padre Simão Bellari percorria seu trajeto através do calor de outono. Poucos dos transeuntes davam qualquer atenção ao padre; os conquistadores turcos desfilavam com orgulho e dignidade, conscientes de sua própria importância, e tomavam o manto liso por apenas mais um estilo de vestimenta dos cristãos, cujo significado não era nem compreensível nem importante para um bom Muçulmano, enquanto os conquistados gregos eram cuidadosos para não tomar parte em nada mais do que o necessário, especialmente nada que envolvesse estrangeiros. Os turcos certamente sabiam que padres cristãos dificilmente carregavam armas e, por isso, não viam necessidade de preocupar-se com esta possibilidade. Os gregos, percebendo que o manto do Padre Bellari não era como o dos seus próprios sacerdotes, ponderavam os problemas e perigos que qualquer envolvimento com seitas estrangeiras os traria.

Desta forma, Padre Bellari, mantendo-se ignorado, parou e examinou atentamente a parede de pedra da abastada casa. O muro era marcado por uma tênue e desbotada nódoa escura a altura da rua, e Padre Bellari murmurou silenciosa oração enquanto estendia a mão para tocar na mancha.

Em seguida, afastou a mão, fez o sinal da cruz e sussurrou uma segunda oração. A primeira havia sido um humilde pedido de orientação; esta, por sua vez, era uma oração para a salvação das almas dos homens. Como ele havia suspeitado, a mancha era de sangue, e não era necessária inspiração divina para adivinhar que tinha mais de três anos de idade. Desde então, a cidade havia caído, suas ruas tingidas de vermelho e seus defensores – incluindo o último dos Imperadores romanos –, exterminados por espadas turcas.

E, ainda assim, a cidade ostenta as marcas do massacre.

Padre Bellari balançou levemente a cabeça. As almas daqueles defensores haviam passado desta realidade para uma melhor – ou, talvez, para uma pior, embora a morte em batalha contra os pagãos certamente fosse uma fonte de santidade. Na melhor das hipóteses, as orações poderiam dar um pouco de ajuda a alguns deles no Purgatório. No momento, ele tinha outras preocupações.

Três ruas mais adiante, encontrou a casa que procurava e, em seguida, a pequena porta lateral pela qual poderia ser admitido despercebidamente. Foi recebido por um porteiro, homem alto, escuro e impassível com uma longa adaga curva em seu cinto e roupas que indicavam a prosperidade de seus empregadores. Padre Bellari disse umas poucas palavras em grego e o porteiro, silenciosamente, o conduziu para uma sala interna, na qual se encontrava o senhor da casa assentado em um divã baixo.

“Sente-se, meu amigo, e seja bem vindo.” O anfitrião era escuro como seu porteiro, seguro de si e dono de um olhar penetrante e incisivo. Sua conduta era a de alguém acostumado a negociações e cortesias, o que fazia Padre Bellari sentir-se avaliado e memorizado.

O padre colocou-se cuidadosamente em outro divã. Não era um estilo de sentar-se ao qual ele estivesse acostumado mas, para alguém treinado por dez anos em um monastério, tais inquietações não eram importantes. A um gesto do anfitrião, um silencioso servo colocou em suas mãos um cálice. Padre Bellari, lembrando as regras de hospitalidade de sua terra, aceitou a bebida oferecida. Era água fresca, perfeitamente límpida e, até onde pudesse julgar, extraordinariamente pura.

“Minha gratidão, Sarraceno.” A resposta veio com um olhar fixo tão intenso quanto o que seu anfitrião lançava sobre ele.

“Por favor. Esta é a palavra da sua gente. Eu entendo que ela significa turco ou algo parecido, mas não sou um daqueles que hoje são senhores desta cidade. Da mesma forma, não sou um dos árabes, que é a outra coisa que vocês da Europa usualmente assumem, embora não considere um insulto ser confundido com alguém da nação do Profeta. Você deve saber o que eu sou.”

“Minhas desculpas, Persa.” Padre Bellari falava cuidadosamente enquanto contemplava o sujeito. Ocorreu a ele que uma nação que havia enfrentado Alexandre o Grande e cujo imperador, Ciro, honrava a Bíblia, talvez pudesse ter um senso próprio de dignidade. “Eu sei que você veio a esta cidade como um embaixador, e compreendo que é algo mais do que isso.”

O Persa não disse nada por um instante, dando ao Padre Bellari tempo para uma rápida observação da sala enquanto bebericava a água. O lugar era tão ricamente mobiliado quanto qualquer europeu poderia esperar de um lorde do Leste, com tapetes, sedas e lamparinas de bronze dourado. A parede atrás do senhor da casa tinha a forma de um intricado biombo entalhado, e Padre Bellari ficara ansioso por descobrir se havia mais espaço além – espaço que permitiria ao proprietário, quem sabe, observar visitantes na sala enquanto se mantivesse fora de suas vistas.

“Tudo isso é verdade.” A voz do Persa era firme e precisa; seu grego era perfeito. “Eu vim aqui para observar o que os turcos podem fazer com sua nova conquista, além de buscar conhecimento. Mas parece que um certo conhecimento não mais pode ser encontrado aqui.”

“E você, então, pede ajuda.”

“Tem sido dito que um certo conhecimento foi levado para o oeste. Um certo conhecimento sobre a Sabedoria Divina.” As palavras gregas eram precisas e familiares para ambos: Hagia Sophia.

“É verdade.” Padre Bellari contemplou seu cálice por um momento. “Mesmo dez ou vinte anos atrás, não eram necessárias profecias para perceber que esta cidade estava condenada a cair. Os turcos ficavam mais fortes a cada ano que passava e os príncipes do Cristianismo, briguentos e irascíveis como sempre, mostravam-se relutantes em ajudar. Roma não demonstrava qualquer simpatia por quem promoveu a cisma, e os patriarcas da igreja oriental pareciam mais dispostos a pagar taxas ao Sultão do que tornar a unir-se ao Trono de Pedro.” Padre Bellari parou novamente. “Não vou julga-los por isso. Não é minha atribuição. Mas era claro que livros que tinham sido mantidos nesta cidade por milhares de anos não mais estavam a salvo aqui.”

“Assim foi julgado. E assim eles foram levados para a segurança de sua terra.”

O sacerdote cristão concordou. “Embaixadas foram enviadas naqueles dias – últimos esforços para encontrar alguma unidade entre as duas igrejas. Muitos eruditos vieram para a Itália. Tudo foi arranjado com facilidade.”

“E você estudou estes textos. Tem sido dito, por alguns, que você sabe mais do que qualquer erudito grego.”

“Não”. A resposta do padre foi reflexiva, involuntária. Ele respirou fundo antes de continuar. “Não é que eu seja mais sábio do que os gregos. O fato é que o monastério onde iniciei meus estudos mantinha outros textos – alguns capturados de idólatras e hereges, alguns preservados dos dias de Roma. Eu tive permissão para estuda-los, com alguma cautela e prudência.”

O Persa aquiesceu. “E você tem uma certa sensibilidade, talvez. Assim me foi dito.”

“Talvez”.

“Então os fragmentos fundiram-se, e a unidade disso era uma compreensão da Sabedoria Divina.” Ele sorriu levemente, pela primeira vez desde que Padre Bellari entrara na sala. “Então me diga o que você sabe desta grande igreja que os turcos tomaram em nome do Profeta.”

“Isto levaria muito tempo. Ela está em pé por quase mil anos – e havia outra igreja naquele local desde antes de Justiniano.”

“O Imperador que a construiu. Ah, sim, eu li o que seu secretário escreveu sobre ele. Tanto em público quanto em privado.”

“Assim como eu. Não passam de mentiras e calúnias, penso,” Padre Bellari disse, “mas há mais segredos e histórias daquela época do que eu ou você possamos um dia saber, Persa. E agora, a grande obra de Justiniano está sendo dilacerada.”

“Meramente transformada para o uso daqueles que veneram Deus de outro modo. Ele tem muitos aspectos.”

“É certo que Deus é infinito e incognoscível. Mas aquela igreja foi construída em nome das verdades antigas, não de seu Profeta.”

Os olhares dos dois homens se encontraram, e ambos viram uma fé inquebrantável brilhando nos olhos um do outro. Depois de um instante, o Persa falou novamente. “Temo que estas sejam disputas para outro momento. O que é certo agora é que os Turcos não estão, talvez, agindo com total sabedoria.”

“O que você sugeriu em suas cartas pode ser uma fonte de perigo. Tal trabalho não pode ser interrompido?”

O Persa suspirou. “Não por ninguém que possamos persuadir. Lembre-se, nossa aliança secreta existe tão somente porque nem a Pérsia nem Roma estão certas de poder conter os bárbaros das grandes estepes. E os Sultões ainda são, em seu íntimo, conquistadores das altas planícies.”

O sacerdote aquiesceu. A aliança, iniciada nos dias em que os emissários de Roma haviam viajado para o oriente em busca do mítico Padre João, sobrevivera durante séculos porque várias facções, da Andaluzia a Déli, reconheciam uma necessidade eventual mas, durante todo este tempo, ela nunca obteve muito poder. Era uma sociedade de eruditos e sábios escritores de cartas, pouco mais do que isso.

“Eu preciso examinar esta transformação com meus próprios olhos,” declarou Padre Bellari.

“As minhas cartas e os relatos de meus agentes não são suficientes?”

“Não é uma crítica. Mas, em algumas questões, a palavra não é o bastante. A experiência direta pode ser o único caminho para a verdade completa.”

O Persa reclinou-se, aparentemente confuso pela súbita impetuosidade do Padre Bellari. Mas então, após um instante de meditação, ele concordou. “Que seja! Nossa influência se estende até lá, pelo menos. Você pode examinar o lugar ao escurecer, quando os trabalhos do dia estiverem concluídos.”

A conversa continuou por alguns minutos mais, enquanto combinavam-se os detalhes, e então o sacerdote partiu. Depois que ele saiu, o Persa permaneceu sentado por um momento imerso em pensamentos e, então, falou em sua própria língua.

“É coragem ou vaidade o que vemos neste Cristão?”

“É fé.” A resposta veio em uma voz feminina, de trás do biombo entalhado às suas costas. “A fé é poderosa e, às vezes, perigosa – para alguns.”

“Mas será suficiente?”

“Lembre-se que muitos santos cristãos também foram mártires.” A voz da mulher soava quase distraída. “O que não diminui sua santidade nem um pouco.”




Na noite do dia seguinte à sua conversa com o Persa, Padre Bellari mais uma vez moveu-se furtivamente pelas ruas da cidade. Chegando a uma pequena porta nos fundos da grande Igreja da Sabedoria Divina, ele olhou em volta e, então, descobriu que, conforme prometido, a porta estava desaferrolhada. Após entrar e trancar a porta atrás de si ele hesitou, inicialmente sacando uma pequena lamparina de dentro de seu manto e, em seguida, murmurando uma breve oração em busca de orientação.

Ele então continuou, notando a ausência de vigias ou guardas mas perguntando-se, por um momento, como isso fora conseguido. O poder secular, ele bem sabia, podia remover obstáculos seculares. Ao adentrar o espaço central da edificação, parou subitamente e se descobriu recitando em voz alta um verso dos Salmos.

“Coisas gloriosas são ditas de vós, ó Cidade de Deus.”

Quase mil anos atrás, os arquitetos de Justiniano haviam levantado este magnífico domo em poucos anos. Era impressionante quando visto do lado de fora mas, de lá, podia-se ver o volume crescente de paredes que o suportavam; o domo era simplesmente o ponto mais alto de uma sólida estrutura. De dentro, entretanto, mesmo iluminado somente por uma irrisória lamparina e um pouco de luar que entrava pelas altas janelas, era um espaço altaneiro, impressionante a ponto de perder o fôlego. Os turcos, impulsionados por um desdém a qualquer alusão à idolatria, haviam trabalhado de forma a cobrir tudo o que restava dos antigos mosaicos, removendo todos os ícones mas, mesmo com esta desolada e danificada aparência, a beleza e vigor do projeto eram inequívocos.

E, para a treinada percepção de Padre Bellari, estimulada por uma noite e um dia de meditação, jejum e oração, era algo mais.

Ele avançou em direção ao centro do espaço, sem ao menos olhar em volta enquanto caminhava por entre os andaimes dos trabalhadores. Sua voz se elevou em uma oração de exorcismo que transformou-se num cântico – um cântico que ecoava dentro do espaço abobadado, mas que dava a impressão de ser abafado pelos indistintos e indefiníveis sons que erguiam-se em resposta.

O luar que vinha através das altas janelas parecia tremular e Padre Bellari, parando, levantou sua lamparina.

“Mesmo agora, este lugar é a casa de Deus. Nada impuro pode residir aqui.”

Não houve resposta audível para ouvidos humanos mas, mesmo assim, Padre Bellari reagiu após alguns momentos como se em resposta a um interlocutor.

“Não importa o que se erguia neste lugar antes que houvesse uma igreja, ou mesmo antes que houvessem santos cristãos e reis para erguer igrejas. Pois Deus existia antes de todas as coisas, e nenhum poder é maior que o poder de Deus.”

Novamente, não houve resposta audível; ainda assim havia, ao que parecia, uma resposta. O frio luar prateado que jorrava através das altas janelas tornou-se imensamente mais forte. Padre Bellari estendeu seus braços para os lados, arremessando longe a lamparina, que se despedaçou no solo; o estilhaçar soou abafado, e o seu apagar não fez diferença para a luz que inundava a sala abobadada. Padre Bellari firmou o olhar no luar anormal, e repetiu suas palavras.

“Nenhum poder é maior do que o poder de Deus. Por mais antigo, por mais venerado, nada que não seja de Deus pode residir aqui.”

Naquele instante, um som se tornou audível. Para o Padre Bellari, parecia ser o resumo de todos os cânticos e canções que preencheram aquele espaço por um milhar de anos, harmonioso e cacofônico ao mesmo tempo. Ele supôs ter ouvido palavras em grego, mas também em outras línguas de naturezas estranhas e arcaicas. Proferindo uma oração de exorcismo em latim, o padre elevou sua própria voz na tentativa de medir forças com o som; ainda que não pudesse suprimi-lo, achava que poderia sobrepuja-lo. Ainda assim, sua reza se perdeu no meio do formidável som.

Finalmente, ocorreu ao sacerdote que Deus realmente possui uma infinidade de aspectos. O conhecimento de alguns deles era incomensuravelmente antigo, e poucos eram seguros para o homem. Interrompendo seu exorcismo, ele iniciou em seu lugar uma oração pedindo misericórdia, não para si mesmo, mas para esta época do mundo, na qual muito havia se perdido.

O luar prateado, então, se tornou mais do que a antiga igreja podia conter, irrompendo através das janelas e mesmo através das portas aferrolhadas da grande igreja em uma silenciosa detonação. Vigias a duas ruas de distância perceberam, gritaram aterrorizados e caíram de joelhos. Soldados da guarda de janissários no palácio do Sultão vislumbraram algo, e estacaram em momentânea confusão antes que sua disciplina se afirmasse, e uma força foi rapidamente despachada para determinar o que sucedera.

Mas, quando os janissários romperam na igreja transformada em mesquita, Padre Bellari já havia partido, seu corpo claudicante carregado pelo embaixador Persa e seu porteiro.

Eles deslizaram pelas ruas sem serem notados, chegando até a casa alugada do embaixador em poucos minutos. Lá, deitaram o corpo do sacerdote cristão em um divã e mais um de seu grupo, uma mulher velada, pôs-se a trabalhar com habituada competência médica.

“Ele irá sobreviver?” O embaixador indagou calmamente.

“Ele vive e respira, e não há razão porque haveria de cessar” a mulher respondeu. “Mas como ele irá viver, e sobre o estado de sua alma – sobre isso, eu não sei. A mim, ele parece cegado e emudecido por algum tipo de poder superior.”

“Profetas afligidos desta maneira recuperam sua vista e fala com o tempo”, disse o embaixador.

“Sim – Deus é o Compassivo, o Misericordioso. Ele não testa os homens além do que são capazes de agüentar. Mas eu temo que este aqui testou a si mesmo.” Ela hesitou. “Ou, talvez, nós não possamos compreender todos os testes com que Deus pode confrontar os homens.” Ela encolheu os ombros, inquieta; dificilmente este tipo de pensamento passaria por teologia convencional.

“Faremos o possível por este aqui, tudo o que for necessário, mesmo que tome tempo.” O embaixador assumiu um tom de negócios, como se tratasse de assuntos de sua compreensão. “Mas e a respeito da edificação? O que devemos fazer agora?”

“Este assunto está encerrado,” a mulher declarou de modo imperioso. “Você deve ter visto e sentido o fato por si mesmo, tenho certeza. Não sei se este cristão expulsou o problema, se o purificou com suas orações, ou se o arrebatou para dentro de si mesmo, mas mesmo a esta distância as coisas estão claras. Deixe os Otomanos terminarem seus trabalhos; eles farão uma bela mesquita.”

“Louvado seja Deus”, disse o embaixador.

“Louvado seja Deus” ecoou a mulher, enquanto esfregava a fronte do sacerdote cristão, fixando o olhar em seus olhos arregalados.

-- FIM --

Copyright (C) Phil Masters, 2002. Todos os direitos reservados.

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