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Arca: Contos : Almas Torturadas (cap XIV)
Enviado por RedeRPG em 13/02/2005 00:01:00 (1938 leituras) Notícias do mesmo autor
Arca: Contos

Por Newton "Nitro"
(Necropia / Grupo Sefirot )
Equipe REDERPG

A partida final do campeonato de Necrobol do Reino de Zohar está se aproximando! O que Verótika pretende ao forçar Sir Deiphobus a jogar em seu time? Vespa e Kasparov irão escapar do destino terrível que os aguarda, como a barreira humana dos Degoladores de Yzael, o time de Verótika? E Sardukar, o Mordenkai, será amigo ou inimigo? E o que aconteceu com Sati na prisão particular de Verótika? Veja isso e muito mais nesse novo episódio de Almas Torturadas, a série que narra o dia-a-dia de Necropia, a Terra dos Mortos, escrito por Newton “Nitro” (autor de "Mítica - Sombras no Oriente" e "Avatar – RPG de Super Heróis Espirituais").




Crônicas de Necropia:
"ALMAS TORTURADAS"
Cap.14 "Antes da Tempestade"

Escrito por Nitro (Newton Jr.)

Sati acordou em uma cama macia. Ela tentou se levantar mas seu ombro direito doía muito. Lençóis finos e estampados cobriam o seu corpo e ela notou que estava vestindo um vestido curto de panos negros e finos, que acariciavam sua pele a cada movimento. Massageando o ombro direito ela olhou em torno. Estava no quarto de Sir Deiphobus, mas não se lembrava de como tinha chegado lá. A última coisa que lhe vinha à mente era o rosto de Verótika do outro lado de uma grade, e de uma enorme dor que aconteceu em seguida. Havia também algo, algo terrível, porém, ao tentar se recordar, calafrios faziam seu corpo tremer.

__Está com frio, minha devarim? Eu posso mandar Odda trazer mais mantas para você. É que faz tanto tempo que não cuido de um Shem que não sei como devo proceder. Nors não sentem frio, menina.

Sati estava confusa. Algo tinha acontecido com ela, algo terrível, mas ela não se recordava de nada. Apenas a dor no seu ombro direito mostrava que algo não estava bem. Porém, apesar de uma pequena vermelhidão, não havia ferimentos.

__Nã-ão, eu estou bem...obrigada.

Deiphobus olhava para ela. Ele estava sem seu capacete de cavaleiro, e seus olhos negros de pupilas brancas brilhavam com uma emoção que a muito tempo ele não sentia pois sua devarim estava sã e salva. Seu rosto pálido, com várias cicatrizes, era forte, como se fosse talhado a golpes de machado. Ele usava o cabelo raspado bem rente, à moda militar de Yzael, e sua boca descarnada estava coberta por um lenço de seda negro estampado com desenhos tribais brancos dos selvagens de Guimel. Deiphobus costumava cobrir a sua boca descarnada na presença de shems, pois os escravos vivos não conseguiam parar de olhar para este detalhe de seu rosto. Sua linha de sangue era de um Descarnado, assim ele não podia evitar esses efeitos degenerativos em seu corpo. Sua irmã, Verótika, era uma Corpórea, e a sua linha de sangue fazia com que seu corpo ficasse preservado com o uso de Amratis Negras. Havia a possibilidade de implantes, metálicos ou orgânicos, mas Deiphobus tinha orgulho de ser um Descarnado, e abominava a vaidade e a prepotência dos Corpóreos. Era mais um motivo para a sua guerra particular com sua irmã.

__Você não deve sair pela cidade sem mim, Sati. É muito perigoso para um vivo andar em Yzael.

Sati sentiu um pouco de vergonha. O guerreiro nor tinha salvo a sua vida ao tirá-la da floresta e trazer para sua casa. Sim, ela era uma escrava, mas pelo menos estava viva. Ela sentia um estranho desconforto, um mal-estar, como se algo terrível tivesse acontecido com ela. Mas ela não conseguia se lembrar. Apenas a imagem de Verótika vinha a sua mente, rindo enquanto o medo consumia sua mente em trevas escuras. Ela apertou os olhos e sacudiu a cabeça, como se com esse movimento ela pudesse afastar essas imagens de sua mente. Seus olhos pousaram no pequeno vestido de seda negra que estava usando. Ele parecia ter sido feito exclusivamente para ela, caía em seu corpo de maneira delicada e perfeita. Tocando no tecido, Sati perguntou timidamente para Deiphobus:

__De quem...de quem era esse vestido?

O pano sobre a boca de Sir Deiphobus se contraiu, no momento em que o cavaleiro matadeus cerrava os dentes. Ele olhou para o lado e depois de uma pausa, falou:

__Era de Esther. __e depois de olhar para o rosto curioso de Sati, continuou com voz baixa__Esther era minha filha...há muito tempo atrás...

Sati olhou para Deiphobus.”Filhos? Os mortos podem ter filhos?”, pensou. Como se tivesse escutado, Deiphobus exclamou:

__Nós temos filhos, filhos gerados pelo nosso sangue negro, Sati, filhos gerados nas Necrocâmaras dos templos de Binah, a Grande Mãe Negra. Unimos nossos sangue com a parceira ou parceiro escolhido, e se os deuses assim desejam, um novo Nor é criado. São os Natimortos, que crescem até o momento em que tem sua Primeira Morte e se tornam Nors completos. As crianças Natimortas, ou Cherzias, só podem ter pais Nors, ou são vistas como abominações...Esther era uma abominação...

__Mas como...__disse Sati, deixando escapar as palavras contra sua própria vontade.

__Como um Nor e um Shem podem ter um filho? É simples, basta um Nor ser louco o bastante para levar um Shem até uma das Necrocâmeras, subornar os Sacerdotes de Binah para se fazer o ritual da Natimotividade, e, se os deuses assim desejar, nascerá um filho da mistura do sangue negro dos mortos e do sangue vermelho dos vivos. Mas o Nor tem que ser louco o suficiente para fazer algo como isso e sair impune.

E depois de uma pausa, continuou:

__Eu fui um desses loucos, Sati, e Esther foi uma dessas crianças.

__E o que aconteceu com ela?__ perguntou Sati instintivamente.

__Bem, ela...__porém, antes de completar, Deiphobus se levantou bruscamente e completou, com um tom de raiva em sua voz__ Não se importe com isso, minha Devarim. Descanse bem,eu voltarei mais tarde, tenho muitas coisas para fazer. E não saia da casa, de maneira nenhuma!

E virando-se para Neko, o cão necrophagi, completou, antes de sair do quarto:

__Fique de olho nela, Neko, ou vai ficar sem comida hoje!

Neko rosnou afirmativamente enquanto Sati via a enorme porta de metal do quarto se fechar.

* * *
Em algum lugar escuro e sombrio de Yzael, nos arredores dos bairros mais pobres da metrópole, duas figuras escondidas sob mantos entraram em um alçapão no chão imundo de um beco. A menor delas, usando uma máscara demoníaca, chegou até uma porta de ferro cheio de inscrições. Seu enorme companheiro a seguia de perto, e podia-se ver uma enorme espada surgindo por entre os tecidos do seu manto de couro negro. A figura mentor tocou em algumas das inscrições em uma ordem especial, ao mesmo tempo que murmurava palavras em uma língua que mais parecia um conjunto de rosnados e sons guturais. As runas que ela tocara começaram a brilhar com uma luz verde doentia, e a porta se abriu.

As duas figuras entraram em um corredor escuro, onde duas criaturas humanóides completamente cobertas com robes vermelhos aguardavam, carregando tochas. Assim que eles se aproximaram, as duas criaturas, murmuraram algo, e tentáculos cinza-avermelhados surgiam por entre as sombras de seus capuzes. Os dois visitantes acompanharam as criaturas pelos corredores escuros, descendo em uma escada enorme, com degraus esculpidos na pedra dura e fria do subsolo de Yzael. As duas figuras acompanhadas pelos dois monstros de robes vermelhos podiam escutar os gritos vindo da tortura que estava acontecendo no interior do templo subterrâneo.

A escada dava para um enorme salão de pedra, onde haviam várias mesas de ferro onde nors eram queimados lentamente com tochas feitas de ossos humanos. Muitos dos nors já não tinham mais rostos, porém seus corpos imortais se retorciam de dor no momento em que outras criaturas de robes vermelhos os queimavam com as tochas, ou os cortavam com facas cerimoniais. No fundo do enorme salão subterrâneo havia uma massiva estátua de pedra de mais de vinte metros de altura. A estátua, manchada com o sangue negro de nors sacrificados, tinha um corpo humanóide obeso sentado em uma espécie de trono feito de insetos e uma cabeça como de uma mosca gigantesca, com tentáculos saindo de suas presas. Seus oito braços possuíam enormes bocas com presas surgindo da palma de suas mãos. Aos seus pés, parecia haver uma espécie de lago feito óleo marrom escuro, que se mexia como se tivesse vida própria, subindo nas pernas da estátua. Porém, ao se aproximar, os dois visitantes viram que não era nenhum líquido e sim milhares de baratas que se digladiavam para chegar mais perto da estátua.

Um criatura surgiu por detrás da estátua. Ela parecia com as demais porém tinha robes negros e seus braços estavam repletos de insetos. Ele se aproximou dos dois visitantes e se curvou:

__ Espero que esteja tudo do seu agrado, senhora.

Retirando a máscara, Verótika sorri em resposta.

(Continua)

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