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Arca: Contos : Almas Torturadas (cap. XVII)
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| Enviado por RedeRPG em 10/04/2005 00:01:00 (1210 leituras) Notícias do mesmo autor |
 
No décimo sétimo episódio de Crônicas de Necropia: “Almas Torturadas”, temos Sir Deiphobus enfrenta seu pai, o terrível Barão Ferthus. Como o velho barão irá reagir com a presença de Sati na mansão dos Codorvero? E nesse episódio temos o início da final do campeonato nacional de Necrobol! Será que Vespa, Kasparov e Sardukar irão sobreviver ao jogo? E veja pela primeira vez a realeza de Yzael, a família real dos Mortos de Necropia! Tudo isso e muito mais nesse episódio da saga de Necropia, escrito por Newton “Nitro” do Grupo Sefirot (www.gruposefirot.blogger.com.br) especialmente para a RedeRPG!
Crônicas de Necropia: "ALMAS TORTURADAS" Cap.17 "Pais e Filhos"
Escrito por Nitro (Newton Jr.) __Vejo que você andou ocupado durante a minha viagem, meu filho.__ exclamou o barão olhando para Sati.
A jovem bárbara estava ao lado de Deiphobus e, quase inconscientemente, agarrou o braço musculoso do Cavaleiro Matadeus. O Barão Ferthus era uma figura ameaçadora. Ele era enorme, da mesma altura de Deiphobus. Ele estava vestindo uma armadura negra, com várias runas vermelhas desenhadas em meio a uma série de espetos e chifres que saiam dos seus ombros. Seu rosto pálido portava um cavanhaque branco como seus longos cabelos lisos. Porém o que mais impressionava em Ferthus era um terceiro olho demoníaco que ele tinha no meio da testa. O olho era vermelho, com uma pupila de cor negra, fendida como as dos demônios ou dos dragões. Seus olhos completamente negros lembravam os de Verótika. Eram malévolos, cheios de um ódio contido e um desprezo por todos. Ele estava sentado com uma taça de vinho sanguíneo em uma das mãos, enquanto tamborilava na mesa com as lâminas que saiam de seus dedos. Foi nesse momento que Sati percebeu algo terrível.
Aquilo não era uma armadura, era o corpo do barão! Ela via pequenas presilhas de metal prendendo a cabeça e o pescoço do pai de Deiphobus na armadura de metal. Porém a armadura tinha reentrâncias estranhas, que mostravam que não havia corpo algum por dentro dela. O corpo de metal parecia ser feito para ser rápido e mortífero, ágil no campo de batalha. Sati percebeu mais uma coisa: na placa peitoral ela podia ver, por entre as frestas da armadura negra, um leve pulsar de uma energia púrpura, como a energia que vira quando Deiphobus tinha usado a Amrati Negra para se curar na floresta. Havia uma Amrati Negra, os cristais negros mágicos dos mortos, dentro do peito do barão! Devia ser o coração do pai de Deiphobus, pensou Sati.
__Ela é minha...Devarim...__ murmurou Deiphobus.
__Devarim! DEVARIM! Essa pirralha salvou a sua vida? Eu sabia que você era um fraco, meu filho, mas jamais imaginava que o famoso “Estraçalhador de Primevos” de quem tanto ouço falar iria acabar sendo salvo por uma Shem miserável! Mais uma vez você joga a honra dos Codorveros no lixo!
Deiphobus fica em silêncio. Sati olha para o barão. Como ele parecia com Verótika! Era a mesma maldade, a mesma prepotência e arrogância. Odda colocava pão e um pouco de água no local onde Sati sempre sentava, mas a jovem bárbara tinha perdido o apetite para o jantar. Depois de alguns segundos, Deiphobus retrucou:
__Você devia estar mais preocupado com a sua filha. Você sabe que ela acabou com a reserva de escravos da nossa casa? Ela treinou usando os nossos escravos, muitos deles que estavam com a gente por vários anos! Eu tive que tentar repor as reservas e acabei sendo atacado por um primevo na Floresta da Névoa e...
__Primevos na Floresta da Névoa? Isso é impossível...__interrompeu o Barão.
__Impossível? Nos últimos dias, grande parte dos esquadrões de Cavaleiros Matadeus estão envolvidos com a caça de Vermes Kumarianos nos arredores de Yzael. Eles estão surgindo aos montes. O meu esquadrão matou mais de seis Vermes Kumarianos só essa semana. E estamos desconfiados que existem outras Crias de Primevos na região.
O Barão Ferthus colocou uma de suas garras metálicas em seu queixo. Depois de alguns momentos, ele falou, o olho demoníaco fixo em Deiphobus:
__Muito estranho, estamos muito longe das Terras de Fronteira com Kumar... Para primevos estarem tão dentro de nosso território é porque temos traidores em nosso reino. Vou conversar com o General Gamuz para instaurarmos uma investigação na nossa cidade. Onde está sua irmã, Deiphobus?
__Estou aqui, pai.
Verótika acabava de descer a enorme escadaria de mármore negro que dava para os andares superiores da mansão dos Codorveros. Ela estava vestida com seu uniforme de atacante dos degoladores, uma roupa de couro negra que mostrava grande parte do seu corpo perfeito. A roupa era como uma segunda pele, e tinha várias runas e pequenas lâminas de metal que compunham um desenho agressivo. Faixas de couro envolviam suas pernas, enquanto sua pele aparecia em algumas áreas determinadas. Haviam placas de metal nos ombros, nos cotovelos e nos joelhos, mas a proteção era fornecida mais pelas runas de sangue dos Hematomantes do que pelo desenho da vestimenta. Verótika tinha um belo corpo e gostava de mostrá-lo. Em compensação, Katsuchiyo, que estava ao seu lado, parecia um tanque de guerra, usando uma armadura negra de um desenho estranho, com enormes esporões de aço saindo dos ombros e dos cotovelos. Ele carregava um capacete que tinha uma aterradora caveira como máscara em seu braço direito. Duas enormes espadas podiam ser vistas nas costas do ex-samurai.
__Minha filha querida! Preparada para o jogo de hoje?__exclamou o Barão Ferthus, ao mesmo tempo em que se levantava.
Verótika sorriu para Deiphobus e abraçou seu pai, exclamando:
__Sim, papai. O nosso time está melhor do que nunca. Estamos com novos Shems para a nossa barreira e ainda temos uma surpresa para o jogo...Deiphobus irá jogar com a gente!
__O QUÊ?__ exclamou o Barão Ferthus, afastando Verótika.
Sati viu Deiphobus cerrando os punhos. Como ela queria estar longe dali naquele momento!
__Mas como? Como você conseguiu convencer ele depois que...
Verótika respondeu:
__ Digamos que eu sou muito persuasiva pai...E o meu irmãozinho ficou com pena de mim por eu ter perdido um jogador do meu time.
__Você perdeu um jogador?__ perguntou Ferthus.
__Ela matou um dos seus próprios jogadores...__ murmurou Deiphobus.
__Ele mereceu, pai! Era um traidor! Ele me TRAIU, papai!__ exclamou Verótika.
O Barão sentou-se novamente na mesa e disse, antes de tomar um gole do vinho sanguíneo:
__Se foi assim ele mereceu morrer. Traidores são a escória da nossa sociedade, são muito piores do que os Primevos...
__Mas o meu irmãozinho vai jogar no lugar dele, não é irmãozinho?
Deiphobus encarou Verótika. Ela iria ter uma péssima surpresa, pensou o Cavaleiro Matadeus. Ele iria “entregar a partida”, iria deixar o atacante dos Mutiladores de Messalina passar completamente livre. Ele iria fazer com que os Degoladores perdessem.
Verótika sorriu e olhou para Katsuchiyo dizendo:
__Temos que ir agora, papai. Temos ainda que nos preparar para o jogo. Irmãozinho, você vem com a gente.
__E Sati?__ perguntou Deiphobus.
__O seu bichinho de estimação vai ficar aqui em casa, irmãozinho. Você sabe que apenas os gentios podem assistir à partida de Necrobol. Mas se você quiser, eu posso dar um jeito dela assistir a partida. Você quer mesmo que ela o veja jogando para mim?
__Não...claro que não.__respondeu Deiphobus. E virando-se para Sati, o guerreiro continuou__ Fique aqui em casa com a Odda, Sati. E não saia daqui. Devo retornar de madrugada, após o final da partida. Neko irá te fazer companhia.
Sati agarrou o braço de Deiphobus. Ela sempre tinha medo de ficar longe dele no mundo dos mortos. Mas ela preferia ficar em um local que ela conhecia do que ir nesse tal de “Necrobol”.
__Não se preocupe comigo, Deiphobus, eu vou ficar bem.__ exclamou Sati.
__Atrevida essa Shem, não?__ falou o Barão. __No meu tempo, uma Shem que falasse assim com um Nor tinha os lábios cortados na mesma hora! Mas filha, eu vou com vocês também! Vim da minha missão diplomática apenas para ver esse jogo!
Verótika sorriu. Ela sabia que seu pai iria à partida mais para aparecer e fazer contatos com a elite de Yzael do que para o jogo. Política era tudo na vida do Barão. E uma final de Necrobol atraía toda a corte, os chefes das Guildas de Mercadores e outras personalidades da Necrópole. Além da presença do próprio Imperador Thaumiel, o Senhor dos Mortos. Sim, Verótika não tinha ilusões sobre seu pai. Mas era isso que ela gostava nele.
__Então vamos. A nossa carruagem já está pronta, nos esperando lá fora.
Deiphobus se virou para Sati e ajoelhou-se, segurando seus pequenos ombros com suas enormes mãos. Sati viu seu próprio reflexo nos olhos completamente negros do Cavaleiro Matadeus. Ele ainda tinha a parte inferior do seu rosto coberta com um pano negro com desenhos tribais. Depois de uma pausa, Deiphobus disse:
__Não se preocupe, minha devarim. Nada de ruim vai acontecer. Eu vou voltar. Lembre-se, eu vou sempre estar do seu lado...
Sati tentou murmurar algo, mas Deiphobus se levantou e colocou seu capacete esférico, prendendo-o com ganchos em seu próprio maxilar.
__Vamos logo, desgraçada!__ disse para Verótika.
A atacante dos Degoladores de Yzael retrucou, sorrindo:
__Hoje vai ser um dia muito interessante...
* * *
__Levantem-se, seus miseráveis!
O grito do digestori acordou Vespa. Ele ainda estava com o corpo doendo devido ao intenso treinamento dos dias anteriores. A semana tinha sido uma tortura, lutas constantes, treinamento com pesos e condicionamento físico. Os Carniçais treinadores do time dos Degoladores de Yzael estavam testando os limites dos escravos escolhidos para serem a barreira de Verótika. Mas eles exageravam. Apenas Sardukar, o shem-mordenkai parecia não sentir o rigor dos treinamentos. Tanto Vespa quanto Kasparov saíam completamente exaustos da arena de combate. Em um dos dias, Vespa foi até mesmo carregado para sua cela, devido à um golpe bem colocado por Sardukar.
O digestori, acompanhado de vários garphagis, jogou vários sacos de couro nos quinze escravos da jaula. Os sacos eram enormes, e pareciam conter tecido.
__Esses são seus uniformes para o jogo de hoje. Vistam-se e façam fila. O jogo começará daqui a pouco. Rápido, seus vermes!
Vespa abriu um dos sacos. Dentro havia um uniforme negro, com o símbolo dos degoladores, um desenho estilizado de uma cabeça decepada com uma espada na transversal, pintado nas costas. O uniforme era composto de uma camisa sem mangas. Não havia calças, eles usariam uma espécie de tanga, como os gladiadores. O tecido parecia resistente, mas nada perto de uma armadura corporal. Eles não teriam proteção nenhuma contra os atacantes do time adversário. Eles iriam morrer, para o delírio as multidões dos mortos.
Sardukar colocou seu uniforme, porém seus enormes músculos acabaram abrindo buracos na camisa em algumas partes. Kasparov vestiu o uniforme, expondo um par de pernas brancas como leite. Vespa sorriu enquanto Kasparov levantava o punho em sua direção, como se quisesse dizer “uma piadinha e você já era”! Vespa riu em silêncio. Mesmo naquela situação, seu velho amigo de malandragens conseguia leva tudo no bom humor.
Será que eles conseguiriam fugir?
Todo baijim aprende, desde a sua mais tenra infância, que o mais importante para sua sobrevivência é aproveitar as oportunidades. Em um mundo violento como o de Necropia, a inferioridade física dos baijim levaria a raça à extinção. Porém, isso não aconteceu. Os baijim proliferam nas Necrópoles, se organizando em tribos nos esgotos e nos submundos das cidades dos mortos, tudo devido ao fato de saberem aproveitar as oportunidades. É claro que sua agilidade, seu intelecto especializado na enganação e nos golpes criminosos, sem esquecer das garras afiadas e dos dentes metálicos, ajudaram na sua sobrevivência. Mas era a capacidade de reagir rapidamente frente a uma oportunidade que fazia a diferença entre os baijim e as demais raças do mundo dos mortos.
Assim que eles terminaram de vestir os uniformes, o digestori, junto com os garfagi, os levaram para dois vagões de metal interligados, puxados por um enorme domú, as tradicionais bestas de carga de Necropia. Os domús são criaturas enormes de seis patas, com o corpo coberto por placas ósseas e com um enorme chifre na ponta de seu focinho. Dizem que os domús não eram naturais de Ereth e que foram criados pelos Modeladores, para o transporte de cargas entre as necrópoles. Dizia-se que foram usados cadáveres de rinocerontes de Assiah na sua criação. Um domú é muito forte; ele pode puxar vários vagões cheios de passageiros ou carregar algumas toneladas de carga.
Os vagões de metal eram completamente fechados, apenas com uma pequena fresta gradeada na parte superior de uma das paredes. Já uniformizados, os escravos se amontoavam nos cantos. Estava chegando a hora, pensou Vespa. Em silêncio, o baijim murmurou uma prece para Netsach, o Sefira protetor dos ladrões.
* * *
Sati viu Deiphobus entrar na luxuosa carruagem do barão Ferthus junto com Verótika. Deiphobus virou-se em sua direção, no momento em que o cocheiro, um Servo-carniçal que Sati já havia visto andando na cozinha de Odda, chicoteou os dois cavalos zumbis que puxavam a carruagem, partindo em direção ao centro de Yzael. Ela fechou a porta da mansão e foi para o seu quarto. Ou melhor, para o quarto de Sir Deiphobus.
A mansão estava em completo silêncio. Sati escutava apenas o barulho de Odda na cozinha. Era noite, e apesar de já estar muito tarde, Sati não sentia nem um pouco de sono. Ela estava preocupada. Se algo acontecesse com Deiphobus hoje à noite, ela estaria morta. E se ela fugisse de novo? Não, não daria certo. Se bem que se ela encontrasse com aquela pequena criatura que a tinha ajudado no centro de Yzael. O tal do Vespa. O que será que aconteceu com ele? Ela não se lembrava muito bem do que tinha acontecido depois que Verótika os encontrou. Ele já deveria estar morto agora.
Seu ombro direito começou a doer novamente. Desde que ela tinha voltado para casa, uma estranha dor no seu ombro aparecia de tempos em tempos. Porém ela parecia mais forte. Sati olhou para o ombro. Ela estava vestida com um robe de seda que Deiphobus tinha lhe dado. Eram as roupas de sua filha Esther que ele tinha guardado. Ao levantar o tecido, ela viu que seu ombro estava muito vermelho, como no dia seguinte de que tinha sido capturada por Verótika. A dor parecia aumentar a cada momento.
Sati cobriu-se e foi para seu quarto. Ao abrir a porta, ela notou algo estranho. Havia uma névoa no lugar, uma estranha névoa branca que a impedia de enxergar. Próximo a sua cama ela podia ver a silhueta de Neko, o necrophagi. Porém a criatura não estava se movendo!
__ODDA! ODDA! ME AJUDE!__ gritou a jovem, virando-se para sair do quarto.
Tentáculos esverdeados se enroscaram em seus braços. Sati gritou e viu várias silhuetas com mantos escuros saindo do meio da névoa do quarto. Ela tentou se soltar dos tentáculos, porém, a cada movimento, eles pareciam apertar seus braços cada vez mais.
__Não grite, pequenina, você foi escolhida para uma missão sagrada... __ exclamou uma voz gutural vinda da figura que estava na sua frente. Os tentáculos que a agarravam saíam de onde seriam os braços da criatura. Sati gritou cada vez mais alto.
Do lado de fora do quarto, Odda escutou os gritos de Sati até o momento em que eles pararam. A velha serva-carniçal murmurou, com uma lágrima de sangue negro escorrendo dos seus olhos mortos:
__É, Dona Verótika, a senhora conseguiu o que queria...
* * *
Erynae, a Lua Falha, resplandecia nos céus junto com Ossiani, o seu fragmento. Ktonor, o gigantesco buraco negro, girava em uma espiral de energia negro-púpura na parte sul do firmamento. O som dos milhares de mortos que lotavam todas as arquibancadas do Necroseum de Kether, a arena de necrobol de Yzael era ensurdecedor. As arquibancadas do Necroseum estavam divididas em dois grandes grupos, com dois terços dos lugares ocupados pelas torcidas dos Degoladores de Yzael, o time da casa e atual campeão de Necrobol. Os lugares restantes estavam ocupados pelos torcedores dos Mutiladores de Messalina, que chegara à final do campeonato nacional de Necrobol pela segunda vez consecutiva.
As duas torcidas cantavam, gritavam e até mesmo se enfrentavam em combates mortais, que eram devidamente controlados pelos enormes Garphagis auxiliados pelos Soldados Ósseos que serviam de segurança para a partida. Por todos os lados, vendedores de pequenos animais vivos passavam por entre os mais variados tipos de carniçais, zumbis, mortos-vivos e Nors; satisfazendo a fome e a ansiedade que precedia a final do esporte favorito das necrópoles. Havia muitos gentios (vivos alforriados) entre o público, mas a grande maioria era composta de não-vivos.
Gigantescos cristais mágicos, amratis de cor amarela, iluminavam a arena. Do tamanho de vários elefantes, eles estavam colocados em onze enormes torres de pedra que circundavam todo o Necroseum. Cada uma das torres tinha um dos sagrados Sephiras esculpido, com o seu nome sagrado escrito em runas brilhantes flutuando em torno de suas cabeças.
Na área central das arquibancadas do Necroseum, em uma posição de destaque, havia uma construção feita de ouro e metal. A construção parecia ter sido inspirada pelo desenho de uma caixa torácica humana, e era impressionante pela sua beleza aterradora. Era a Tribuna Real. Nela podia-se ver toda a família real de Yzael. A principal figura era o Imperador dos Mortos, Lorde Thaumiel, que se destacava com seu porte e pelas enormes asas de metal e pele humana. Seu rosto coberto por uma máscara metálica, observava a multidão.
No seu lado direito estava a Imperatriz Kaseya, belíssima com seu traje de metal, ouro e couro vermelho, também portando as asas imperiais. No seu lado esquerdo estava a Princesa Imaculata, que parecia entusiasmada, gritando hinos junto com a torcida dos Degoladores de Yzael, o time de Verótika. Atrás do imperador estava a figura obscura de Helvétius, o Lorde da Irmandade dos Lichs e supremo Necroarcano Real. Ele estava acompanhado por mais dez lichs, que permaneciam impassíveis ao seu lado, completamente alheios à balbúrdia do Necroseum.
Em uma posição inferior, estavam os onze Magistratos, os juízes das leis das necrópoles. Cada um deles vestia um manto negro e portava a máscara sagrada dos mortos. Porém as máscaras eram diferentes, cada tinha um símbolo que representava um dos onze Sefiras, os deuses dos mortos: uma coroa com uma espada atravessada representado Kether (Sol e Ordem), uma adaga atravessando um olho representando Daath (Mal),um olho com uma lágrima caindo representando Binah (Bem e Cura), uma foice em meio a um círculo representando Chesed (Morte), um machado representando Geburah (Força e Guerra), uma árvore sem folhas representando Chockmah (Animais e Plantas), uma espiral representando Tiphareth ( Magia e Caos), um fogo representando Hod (Fogo e Destruição),ondas representando Yesod (Água e Ar e Sorte), uma moeda representando Netzach (Enganação) e um quadrado com um olho dentro representando Malkut (Terra e Conhecimento).
A arena já estava pronta. O campo para uma partida de Necropol possui cerca de 120 metros de comprimento e até 90 metros de largura. Essa tamanho pode variar um pouco de Necrópole para Necrópole, mas o Necroseum de Yzael era o padrão. Para uma partida de Necrobol os arquitetos das necrópoles constroem em sigilo um labirinto de formato retangular, com 40 metros nas laterais e 60 metros de comprimento. A construção desse labirinto se dá uma semana antes da partida, e ele é destruído completamente depois do final do jogo. O Labirinto da Agonia é uma das partes principais de uma partida de Necrobol. Além do labirinto, existe uma área de 30 metros dos dois lados do campo. No final do campo, em cada lado da arena, existe uma enorme caveira de metal de vinte metros de altura e dez metros de largura, com uma abertura circular de dois metros de diâmetro no meio da testa, também conhecido como a Porta do Além. É nessa abertura que os dois times tem que jogar a Bola de Espinhos, uma enorme bola de ferro de um metro e meio de diâmetro e pesando mais de oitenta quilos, que é colocada no centro do Labirinto da Agonia. A Bola de Espinhos possui uma alça na parte superior que a permite ser carregada.
As regras do Necrobol são simples: entre no Labirinto da Agonia, pegue a Bola de Espinhos e jogue na Porta do Além. O problema é que o time adversário também tem que fazer isso, se quiser vencer. O Labirinto da Agonia é um dos primeiros obstáculos a ser enfrentado em uma partida. Os labirintos são preparados por mestres na arte das armadilhas e na organização de calabouços. Assim, um jogador de Necrobol pode esperar encontrar monstros, armadilhas mágicas e mecânicas, entre outros desafios, até chegar ao centro e pegar a bola de espinhos.
Os labirintos do Necrobol são construídos sem teto, de modo que o público possa ver as batalhas que estão ocorrendo lá dentro. Porém os participantes não podem jamais tentar pular o labirinto escalando os muros, ou acabarão sendo atacados pelos Acrofagis (monstros mortos-vivos alados) que sobrevoam constantemente a partida, além de poderem perder a posse da bola de espinhos. No momento em que um time pega a bola de espinhos, ele deverá ir até o campo inimigo fazer o ponto. Nesse momento, eles fatalmente encontrão com o outro time, seja dentro da parte do labirinto no lado adversário, seja fora, entre o labirinto e a Porta do Além. Nessa hora vale tudo, todos os dois times podem atacar usando as armas ou a magia que lhes convierem. Normalmente magos não jogam necrobol; o tempo que gastam para conjurar uma magia é mais do que suficiente para serem degolados pelos atacantes, mas muitos jogadores aprendem a conjurar uma ou outra magia para ajudar no jogo.
Existe também outro problema para os jogadores. A bola de espinhos não pode ficar mais do que trinta segundos com uma única pessoa. Se uma pessoa segurar a bola por mais do que esse tempo, esporões afiados de metal com um metro de comprimento, saem de todos os lados da bola, empalando seu carregador. Assim em uma partida de necrobol, os jogadores têm que prestar atenção tanto nos inimigos quanto no tempo em que a bola fica com cada um.
A Barreira é sempre composta de um grupo de dez escravos vivos escolhidos para serem a última defesa antes do goleiro e da Porta do Além. Como sempre são mal equipados e sem nenhuma armadura, a Barreira serve apenas para entreter o público, devido aos espetaculares massacres causados pelos atacantes. Se um atacante conseguir, depois de passar pelo Labirinto, passar pelos guerreiros do time adversário, passar pela Barreira, driblar o goleiro (que normalmente é um Nor gigantesco) e jogar a Bola de Espinhos dentro do orifício na testa da caveira de metal (a Porta do Além) a partida termina com a vitória para seu time.
O barulho da multidão no Necroseum aumentou repentinamente. Todos olhavam para o centro da arena, onde os dois times começavam a entrar. A final do campeonato de Necrobol do ano de 1.165 D.K. estava para começar.
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| Xirica |
Publicado: 12/05/2005 11:45 Atualizado: 12/05/2005 11:45 |
Escudeiro   Usuário desde: 11/5/2004 Localidade: São Bernardo do Campo Mensagens: 6 |
 Re: Almas Torturadas (cap. XVII) Nitro,
Vc quer matar a gente do coração?! Eu sei que você anda muuuuuuuuito atarefado, mas precisamos de uma continuação!!!
Minha vida não tem sentido sem 'Almas Torturadas'.
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