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mar
05
2011

Busca Final (resenha)

777 leitura(s)

Busca Final é o mais recente lançamento da Secular Games. Também é provavelmente o RPG brasileiro de tendência indy mais forte que já li. E como rótulos são sempre perigosos é melhor eu me explicar: por RPG indy (de independente) entendo não somente aquele jogo cuja autoria pertence diretamente ao seu criador, mas também sistemas que aproximam de forma diferente a dinâmica jogador-mestre-história, comum a todo RPG.

A citação à obra de Joseph Campbell logo na abertura de Busca Final não poderia ser mais propícia. Este é, literalmente, um RPG feito para representar a mitológica jornada do herói. Os jogadores aqui interpretam “guerreiros errantes”, que vagam em grupos pelo mundo de Othora tentando solucionar o maior enigma de todos: por que a magia desapareceu? Para onde ela foi? Algum dia foi realmente real? É difícil ser mais quintessencial ou arquetípico no tema do que isto.

A primeira parte de Busca Final lida com a gênese dos heróis e da própria estrutura narrativa da história. O jogo se preocupa em destacar o aspecto cooperativo, não somente na criação de cada guerreiro errante, mas também na do grupo e durante a campanha. O processo de criação envolve o uso de cartas de baralho e dá as primeiras pistas do sistema, cuja natureza fortemente abstrata pode espantar jogadores que nunca leram um jogo indy , como Polaris,  Dogs in the Vineyard ou Houses of the Blooded.

Tópicos mais avançados (como a criação do passado do herói ao longo do jogo) e regras variantes de construção são abordados. É também elucidado o processo de criação do líder (ou Dûk) do grupo, algo tão importante quando cada guerreiro errante. É de responsabilidade do Dûk ser o alma da companhia e guiá-la na jornada pela magia perdida. Busca Final recomenda que o papel de interpretar o Dûk seja rotativo (na verdade vai além, sugerindo o mesmo entre os demais guerreiros errantes e entre jogadores e Narrador).

Finalmente, chegamos ao passo onde se cria a própria companhia – o grupo de guerreiros errantes. E aqui está, a meu ver, a melhor sacada de Busca Final : o jogo não só se propõe a recriar a jornada mítica do herói, como fornece mecânicas específicas para cada nível de jogo: guerreiro errante, líder e a companhia. É como se o próprio grupo de aventureiros tivesse uma ficha de personagem – uma idéia genial que até hoje só me lembro de ter visto em Warhammer 3rd.

A segunda parte cuida de prelúdios e históricos, nos apresentando o mundo de Othora. É importante lembrar que se trata apenas da sugestão de um cenário, um molde sobre o qual Narrador e jogadores devem trabalhar. Ironicamente, acho que aqui se encontra uma das potenciais falhas do jogo. Com uma proposta tão rica como a de Busca Final penso que teria sido mais interessante não ligar o jogo a um cenário fixo (e à sua nomenclatura, como o termo Dûk), mas sim oferecer uma gama de propostas ou resumos de cenários aqui, talvez com variações no tema na busca.

A parte três lida com conflitos e, portanto, o sistema. Como dito, Busca Final usa um baralho comum para resolver situações dramáticas (e apenas estas; nada de fazer testes desimportantes de escalar, amar cordas e afins) – chamado de Baralho do Destino. Obtêm-se sucesso quando a somatória da carta com o atributo do guerreiro errante atinge 9 ou mais. As cartas podem ser sacadas do Baralho do Destino ou da Mão da Fortuna de cada jogador. Pequenas variações, como o naipe e origem da carta, fornecem variedade e uma tensão maior ao jogo. O sistema parece sólido e mais do que suficiente para a forte estrutura narrativa de Busca Final , lembrando em certos momentos Castelo Falkenstein. O destaque são as regras de combate, cuja estranha mistura de letalidade e escolha narrativa deixa claro que Busca Final não é um jogo de lutas levianas. A postura do RPG inclusive deixa claro que não se trata de um jogo para iniciantes – o destino do seu personagem será uma questão de consenso narrativo e não o resultado de um encontro aleatório (coisa inexistente neste tipo de história).

A parte quatro lida com o fim do jogo. Sim, Busca Final é um RPG com um final fixo, feito para campanhas curtas com estágios definidos – de outra forma não refletiria bem a “jornada do herói”, tão magistralmente descrita por Campbell. Aqui também se nota a forte influência indy . E percebam que por “final” não quer se dizer necessariamente um final feliz, muito menos a volta da magia para Othora – de fato, o capítulo abrange vários destinos bem mais sombrios para os bravos heróis.

Busca Final possui uma belíssima capa colorida. O livro tem 96 páginas – incluindo referências bibliográficas, um índice remissivo e fichas para os heróis, o líder e a companhia. A arte interna é encontrada apenas nas entradas dos capítulos – toda preta e branca.

Uma vez lido fica-se com a impressão de que o livro poderia ter sido menos extenso. O charme de Busca Final é afinal o binômio formado por seu tema e sistema simples – algo que poderia ter sido feito de forma mais clara, com menos páginas. Contudo, isso não diminui o potencial do jogo. Trata-se de uma excelente opção, principalmente para quem quer abrir a cabeça para novas maneiras de se jogar RPG. Enfim, é gratificante ver um jogo com esta mentalidade finalmente feito por autores brasileiros.

 

Notas (de 1 a 6)
Texto:
5 (Poderia ser mais sucinto.)
Conteúdo: 5 (Sistema e dicas de narração excelentes limitados a apenas um cenário.)
Arte/layout: 4 (Layout maravilhoso com arte que falha em evocar o mistério do jogo.)
Nota Final: 5

Resenha por José Luiz Tzimisce

***

 

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4 comentários

2 menções

  1. 1
    rederpg disse:

    [Novo Post] Busca Final (resenha) – http://www.rederpg.com.br/wp/2011/03/bus

    1. 1.1
      LR_Fernandes disse:

      RT @rederpg: [Novo Post] Busca Final (resenha) – http://www.rederpg.com.br/wp/2011/03/bus

  2. 2
    Patesi disse:

    Sinceramente, não esperava tanto do joguinho. Boa surpresa!

  3. 3
    GilsonRocha13 disse:

    Bastante interessante mesmo.

    Gilson

  1. 4
    Resultado da Pré-venda e Atualização sobre o Busca Final- Secular Games disse:

    [...] de apoio em nosso twitter, o Busca Final recebeu duas resenhas bem interessantes, uma do Ooze e outra do Tzimisce, e um episódio sensacional do Planetcast sobre o jogo. A todos vocês que apoiaram a idéia e [...]

  2. 5
    Busca Final- Secular Games disse:

    [...] Resenha na Rede RPG [...]

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