Espionagem e Roleplay: Usando Serviços Secretos em Jogos de RPG

Se um soberano iluminado e seu comandante obtêm a vitória sempre que entram em combate e alcançam feitos extraordinários, é porque eles detêm o conhecimento prévio e podem antever o desenrolar de uma guerra. Este conhecimento prévio, no entanto, não pode ser obtido por meio de fantasmas e de espíritos, nem pode ser obtido com base em experiências análogas, muito menos ser deduzido com base em cálculos das posições do sol e da lua. Deve ser obtido das pessoas que, claramente, conhecem as situações do inimigo.

Sun Tzu, a Arte da Guerra.

Indubitavelmente, um dos elementos mais conjurados pelos games, filmes e séries é a guerra secreta entre as Agências de Inteligência das principais potências do século XX. O lendário James Bond resume uma série de clichês sobre o mundo da espionagem e do serviço secreto, seguido pelas belas Nikita, Velvet etc.

Tramas, roubos de informações, chantagens e morte premeditadas, levados a cabo por especialistas em alta tecnologia, infiltração, sedução e assassinato são uma constante tanto no mundo real da espionagem quanto no fictício. E são elementos e personagens excelentes para jogos de RPG! Neste artigo, procuro trazer mais dados históricos sobre a estrutura dos Serviços Secretos, aliando-os a dicas para incrementar personagens, tramas e campanhas.

1. O que são Agências de Inteligência e Contra-Inteligência

O que nos chamamos comumente de “Serviço Secreto” é, na verdade, parte de um sistema muito mais amplo e intrincado chamado de “Inteligência”. Numa definição grosseira, a Inteligência (neste caso específico) consiste na coleta e processamento de dados considerados importantes e pertinentes para uma determinada pessoa ou grupo. Desta forma, a Inteligência é a busca de informações sobre “algo” ou “alguém”, bem como a análise técnica das mesmas (apurar se são verdadeiras, entre outras coisas). A Contra-Inteligência, por sua vez, envolve proteger informações que seriam danosas se caíssem em mãos inimigas.

Esta coleta de informações se dá de várias formas diferentes, dentre elas, o uso de espiões. Estas maneiras de se coletar dados são chamadas de “Fontes” e formam o primeiro estágio do processo de Inteligência. A mais comum historicamente falando é a chamada Fonte Humana (ou HUMINT), ou seja, informações coletadas por pessoas. Obviamente, quase sempre se trata do espião infiltrado no meio inimigo, mas também pode ser conseguida através de patrulhas de soldados, informes de civis, denuncias etc.

Tal atividade de coleta está presente desde os tempos antigo (CEPIK, 2003). Passagem pouco comentada na Teologia, mas bem conhecida entre os especialistas em Inteligência, no Pentateuco vemos Moisés enviando 12 espiões a Canaã para que observassem não somente as cidades e os povos estrangeiros, mas as condições geográficas da região (Nm. cap. 13). Já no século XVII-XVIII estruturam-se na Europa sistemas de espionagem mais complexos, que evoluem em sofisticação pelo século XIX até o modelo que vemos no século XX. No Japão Feudal, temos a figura do Ninja que cumpria esta função, além dos “Olhos do Rei” na antiga Pérsia.

As outras Fontes são a SIGINT, que consiste na interceptação e interpretação de sinais de comunicação: grampeamento de telefones, detecção de transmissões de rádio, etc. Semelhantemente, as Fontes IMINT e MASINT envolvem alta tecnologia: a primeira está relacionada à captação de informações através de imagens captadas principalmente por satélite. A segunda envolve informações obtidas através da assinatura de sinais de alta tecnologia.

Por fim, temos as Fontes OSINT, também chamadas de “Abertas” e são as mais simples (mas não menos valiosas): trata-se de dados adquiridos lendo um jornal, revista especializada, sites, etc. Desta forma, situações políticas, flutuações econômicas e novas tecnologias podem ser facilmente acessadas simplesmente consultando um sítio eletrônico ou um vespertino, por exemplo.

Todavia, é um ledo engano julgar que a atividade de Inteligência encerra-se com a coleta de informações. Dados coletados podem muito bem estar imprecisos, incorretos, exagerados ou até mesmo terem sido inventados pela Contra-Inteligência adversária no objetivo de confundir. Após o estágio de coleta, os dados passam para uma outra fase, chamada de “Análise e Disseminação”, onde tais informações são estudadas e processadas para tornarem-se “produtos de inteligência”. Este trabalho envolve a averiguação do quão confiável é a fonte provedora das informações (o espião, o sinal detectado, o informe do jornal etc.), bem como da credibilidade da mesma. Depois, segue uma análise, onde se procura identificar fatos significantes ao contrastá-los com fatos existentes (inclusive informações coletadas por outros meios). O produto desta análise, por fim, é disseminado aos seus destinatários. Neste trabalho já não atuam espiões, técnicos, mercenários, hackers etc e, sim, especialistas em ciências sociais (sociologia, política, antropologia), ciências da informação (arquivologia, biblioteconomia) e idiomas. Que formam um quadro permanente de funcionários da agência

Paralelamente ocorre a chamada “Fase de alto nível de avaliação”, onde vários departamentos diferentes reúnem-se no objetivo de construir uma opinião sobre o assunto em particular, para o qual é necessário um consenso acerca das informações em questão. Esta opinião acompanha a análise feita dos dados, sendo, portanto, um serviço de consultoria que a Inteligência presta a um chefe de Estado ou ao Governo. Aqui atuam especialistas de altíssimo gabarito em trabalho de consultoria, além de chefes de departamento, da agência, todos estes “cobras criadas” e com larga experiência neste tipo de atividade (e, em alguns casos, um passado bem sujo!).

Uma coisa importante de salientar sobre este assunto é que, quando falamos em Serviço Secreto, as fronteiras caem totalmente por terra. O método mais comum de infiltração no estrangeiro é usar espiões disfarçados de funcionários de embaixadores e diplomatas, ocultando-os e protegendo-os, assim, sobre o manto da “imunidade diplomática”[1]. Outro método bem comum é disfarçar espiões de turistas, funcionários de multinacionais (cujo salário é pago pelo governo, mas fica bem disfarçado na folha de pagamento da empresa) ou membros de ONGs e organizações religiosas missionárias. Durante a Segunda Guerra Mundial, por exemplo, italianos e japoneses constituíam redes de agentes secretos (espiões e operadores de rádios) no Brasil através de suas embaixadas e sob o disfarce de empresários e funcionários de firmas estrangeiras. Os alemães também agiam desta forma, sendo vários de seus escritórios no Rio de Janeiro e em São Paulo fachadas para núcleos de espionagem (HILTON, 1983).

Também são ignorados acordos diplomáticos e econômicos e, sem duvida, as afinidades e barreiras culturais e filosóficas Países teoricamente aliados no campo político e/ou econômico provavelmente espionam-se sem saberem (e, muitas vezes, quando tem noção disto, fingem não saber”)[2].  Grupos ou países culturalmente distintos podem requerer treinamento intensivo por parte de espiões (e normalmente que eles façam parte da mesma etnia, filosofia ou religião do alvo a ser observado)[3], mas definitivamente não estão livres de serem espionados.

Por fim, é preciso chamar a atenção para o fato de que as Agências de Inteligência não se restringem, infelizmente, à coleta e análise de informações: assassinatos políticos, prisões arbitrárias e ilegais, quebras de privacidade e interferência noutros países (intervindo na economia, patrocinando golpes, de Estado, realizando assassinatos políticos, etc.) são comuns (corriqueiras, até) na história destas instituições. Não, as Agências não são a Liga da Justiça[4]. Quando falamos de Serviço Secreto, falamos dos porões dos Estados Contemporâneos e de seus aspectos mais questionáveis e sombrios, não de suas facetas mais nobres e humanitárias.

2. Usando Serviços Secretos no RPG

Existem três maneiras básicas de se usar os Serviços Secretos em Campanhas de RPG. A primeira delas é o gancho: a Agência não patrocina ou se opõe aos personagens dos jogadores, mas serve como explicação para trama em andamento e “chama” estes personagens para ela. Por exemplo, uma pasta com dados fundamentais da segurança de bases aéreas de um país desapareceu, transformando o espaço aéreo num caos e deixando a nação totalmente vulnerável. Os personagens, então, precisam lidar com a situação que envolve perigos em aeroportos e até mesmo combates em aeronaves, além de tentar descobrir quem roubou a pasta e onde ela se encontra. Neste caso, os personagens podem receber ajuda da Agência, tornarem-se peões de manobra ou até mesmo bodes expiatórios, ou talvez todas estas cosias juntas. Afinal, a reputação da Agência não pode sair arranhada.

A segunda maneira é usar a Agência como patrocinadora dos personagens. Foi ela quem os recrutou e, em alguns ou todos os casos, treinou os personagens. As tramas giram em torno desta instituição, que irá elencar as missões a serem cumpridas, tendo o Mestre um grande leque de opções para histórias, já que os personagens dos jogadores poderão viajar a qualquer parte do mundo e realizar missões das mais variadas, desde seduzir uma princesa da Europa Oriental para extrair dela informações até destruir uma bases Das FARC na fronteira com o Brasil.

Serviços Secretos podem ser patronos muito poderosos: até mesmo em países em desenvolvimento eles contam com tecnologia de ponta e podem municiar os jogadores com informações sobre praticamente qualquer pessoa ou local. Além disso, estes órgãos estão além da lei, por isso, se estiverem no país regulado pela Agência, os personagens terão acesso a locais restritos, além de documentos falsos para disfarces e até mesmo ajuda caso as “autoridades locais” de seu país os prendam ou detenham. Todavia, a vida do agente secreto não é um mar de rosas: as Agências não toleram erros nem incompetência, e se forem capturados em território inimigo, os jogadores deverão ter noção de que seus personagens sofrerão as piores torturas imagináveis sem esperança alguma de resgate, pois a Agência “negará qualquer envolvimento” com eles!

A outra alternativa é usar a Agência como antagonista. Em maior ou menor grau, personagens que são agentes secretos sempre terão outra Agência como inimiga. A trama pode envolver a descoberta de uma conspiração por parte do governo (no qual a Agência faz o trabalho sujo) ou a luta contra um Estado ditatorial e opressor, que usa o Serviço Secreto como principal instrumento de permanência do mesmo. Personagens em missões no estrangeiro certamente terão de enfrentar os órgãos de Contra-Inteligência locais, que tentarão neutralizá-los ou enganá-los com informações falsas.

As Agências são inimigos terríveis! Em primeiro lugar, todos os recursos do Estado podem virar-se contra os personagens: suas contas bancárias desaparecem, corta-se a luz e a água de suas casas, seus rostos aparecem na tv como criminosos perigosos, provas falsas são facilmente forjadas, a polícia é acionada etc. As Agências também não estão acima de usar chantagens através de segredos do passado ou a vida de familiares e pessoas queridas, sem falar nos seus agentes secretos, bem treinados, bem armados e (quase sempre) sem um pingo de escrúpulo ou piedade. Como se todas estas coisas não bastassem, não adianta sair do país, já que potencialmente qualquer Serviço Secreto pode agir em qualquer parte do mundo[5].

De qualquer forma, as Agências são excelentes inimigos para os personagens dos jogadores, já que não podem simplesmente ser vencidos pela força bruta e pela quantidade de dano a ser causada, mas, sim, por uma resistência sistemática, calculada e cansativa que visa derrubar o governo ou desacreditar a Agência e mudar sua chefia (ou seja, objetivos que precisam de uma campanha inteira para serem alcançados). Além disso, estas instituições também servem como excelente instrumento de estabilização do cenário, a fim de mostrar a jogadores que se tornem desmedidos e que extrapolam devido ao poder de seus personagens que o mundo não lhes pertence e é capaz de sobreviver e defender-se deles, sobretudo em jogos com temáticas de Super-Heróis[6]. Mesmo o mais poderoso personagem pode ser morto por uma bebida envenenada ou vitima de chantagem através de um podre do passado ou um ente querido capturado.

3. Personagens de Serviço Secreto

Obviamente, personagens agentes secretos são uma ótima pedida tanto para jogadores como para mestres. A melhor maneira de criar estes personagens é pensar na função que eles desempenham na agência. Burocratas, e especialistas em fontes abertas e assinaturas de alta tecnologia são melhores como NPCs, a não ser que se imagine uma maneira criativa de envolvê-los diretamente nas aventuras e não no trabalho de pesquisa ou administração. Já os especialistas em fontes SIGINT (de sinais) são bons personagens, já que eles devem instalar escutas e rádios secretos (operações que envolvem, por si, aventuras). Personagens assim precisam de uma inteligência e percepção altas, além de perícias[7] nas áreas de eletrônica, criptografia, computação, mecânica e engenharia, além de falar quantos idiomas forem possíveis. Eles costumam ser técnicos ou universitários concursados ou contratados pela Agência, fazendo parte de seu quadro de funcionários e tendo um plano de carreira dentro da mesma.

Todavia, o “crem de la crem” do Serviço Secreto será, é claro, os espiões! Estes personagens terão a missão de infiltrar-se num meio social, seja um sindicato, partido político, organização terrorista, empresa, governo etc. Eles devem fingir fazer parte da organização espionada, fazendo tudo para provar sua “lealdade” inclusive (se preciso for) lutar até mesmo contra o seu país ou grupo de origem! Missões de prazo mais curto envolvem a infiltração em festas, comitivas, shows, etc. Para realizar estas missões, é fundamental uma percepção em alto nível, além de perícias como ocultamento, detecção de mentiras, lábia, disfarce e dissimulação. Espiãs quase que obrigatoriamente também devem ser belas, e ter perícias como sedução, boêmia e etiqueta.

Obviamente, jogar com um personagem assim é um desafio e tanto, e, por outro lado, um NPC espião é sempre um antagonista muito perigoso.

Existem também as Divisões Secretas, ou seja, grupos específicos e especiais da Agência. Eles costumam ser coordenados e recrutados por um funcionário orgânico da instituição, muitas vezes de alto nível na hierarquia, e envolvem espiões, especialistas e mercenários. Sem nenhuma surpresa, este funcionário tem a ficha completa de todos os membros da equipe com seus podres, fraquezas e meios para chantageá-los. Os objetivos desta missão quase nunca são legais e limpos: envolvem a destruição de instalações inimigas, seqüestros, roubos de dados, articulações de golpes de estado, assassinatos[8], entre outras coisas. Estas Divisões precisarão de pelo menos um espião e um especialista em fontes SIGINT, podendo ser complementado com atiradores de elite, especialistas em segurança e armadilhas, explosivos, etc, e podem ser o gancho para a formação do grupo dos personagens jogadores.

Há uma ultima questão a ser abordada quanto aos personagens envolvidos neste meio. Ao contrário do que mostra os filmes do James Bond, discrição é a chave! Os personagens não devem sair por ai matando qualquer um e explodindo tudo: suas ações devem ser cirurgicamente calculadas e efetuadas, levantando-se o mínimo de suspeita e não deixando rastro algum que possa identificá-los e muito menos ligá-los a Agência.

4. Criando seu próprio Serviço Secreto

Um mestre pode desejar criar um Serviço Secreto próprio de sua imaginação. Se for este o caso, seguem-se algumas dicas. Em primeiro lugar, pense no Organograma da Agência, quem são seus chefes, em quais posições estão e (principalmente) suas inclinações políticas e sociais: são leais ao governo? Tem podres no passado? São pessoas de bem? Pense também nos demais técnicos e especialistas a serviço da Agência: economistas, lingüistas, antropólogos, arquivistas, etc.

Depois, pense nos recursos da Agência. Invariavelmente, eles serão bem grandes e ostensivos (incluindo acesso às Forças Armadas e Polícia)[9], tendo acesso a uma grande quantidade de dinheiro e de tecnologia. Todavia, países muito pobres podem se ver limitados a usar a força e o medo ao invés de dinheiro e tecnologia de ponta. Em alguns países, o acesso a mídia pode ser muito pequeno ou dependente de jornais e redes de televisão governamentais, em contrapartida a casos onde a Agência é quem realmente está por trás de mega-empresas de comunicações, que nada mais são do que fachadas para suas atividades.

As instalações da Agência variam. Certamente haverá um prédio central e administrativo na Capital do país em questão. Este prédio tem segurança de altíssimo nível, acesso restrito e seguranças extremamente bem treinados, sendo ocupado por arquivos e burocratas. Algumas Agências podem manter um ou mais campos de treinamento de agentes ou de processamento de dados, que podem ou não ser secretos, mas certamente bem vigiados e com sistemas de segurança invejáveis: apenas figurões da política e funcionários terão acesso a tais locais. Por fim, para operações secretas e clandestinas, edifícios abandonados podem ser usados, bem como navios, escritórios e lojas, entre outras coisas, que funcionam como fachada para “postos avançados” da Agência: eles também são facilmente “desmontáveis” em situação complexa e não abrigarão nenhum arquivo além das informações coletadas por esta equipe!

Por fim, é preciso estabelecer qual papel a Agência ocupada na sociedade. Qual a função no sistema de Segurança Nacional (ou, como o governo a enquadra junto à polícia, marinha, aeronáutica e exército?) Os civis confiam nela? Existem grupos políticos que são contra suas operações? Estes grupos estão no poder? Ela é o escudo protetor de um governo democrático? Ou o instrumento de dominação de um déspota? Fundamental é compreender como é a relação entre Inteligência e Contra-Inteligência: uma mesma Agência coordena as duas funções, como, por exemplo, durante todo o período Republicano brasileiro? Ou há duas Agências, uma para as atividades de Inteligência (normalmente no estrangeiro) e outra para as atividades de Contra-Inteligência (normalmente dentro do próprio país)? Esta segunda abordagem é mais comum e utilizada em países como Estados Unidos, Inglaterra e França, equilibra o poder monumental de tais instituições, mas gera uma verdadeira enorme rivalidade entre as duas (e, em alguns casos, confusões nas trocas de informações).

5. Serviços Secretos Famosos
MI-6

A Agência do James Bond. MI-6 burocraticamente tem o nome de Serviço Secreto de Inteligência (Secret Intelligence Service), e é responsável pelas atividades de espionagem, principalmente no exterior do Reino Unido. Sua maior atuação é nos países que são ex-colônias britânicas (incluindo os Estados Unidos). Este nome remonta a uma denominação antiga, Military Intelligence, section 6. É contrabalançado pelo MI-5, que coordena a contra-espionagem e é encarregado da proteção interna da Inglaterra. A espionagem britânica neste modelo é uma das mais antigas e bem sucedidas e, apesar do MI-6 não trabalhar com fontes SIGINT, ele dispõe de orçamento invejável, tecnologia avançadíssima e agentes extremamente bem treinados.

CIA

Talvez o mais famoso Serviço Secreto do mundo, a CIA (Central Intelligence of América) é o órgão do governo norte-americano responsável pela espionagem internacional sendo, teoricamente, um órgão que não deveria atuar em assuntos internos (regra mais conhecida pela violação que pelo respeito da mesma)[10]. Possui uma Divisão Secreta chamada “Divisão de Atividades Especiais”, que realiza serviços clandestinos ao redor do mundo. Seus agentes de campo e espiões normalmente constituem-se de mercenários e criminosos que recebem perdão do governo mediante cumprimento de missões específicos, não sendo raramente estrangeiros. Ela também investe em partidos políticos alinhados com os interesses dos EUA, além de utilizar empresas e grupos econômicos de fachada para influenciar situações econômicas contrárias aos interesses americanos. A história da CIA no século XX é repleta de escândalos, violações das leis americanas e situações comprometedoras, nas quais inclui-se, em alguns casos, o Governo Brasileiro…[11].

KGB

É difícil dizer se alguma Agência é mais ou menos “suja” que as outras, mas a KGB (Komitet gosudarstveno bezopasnosti – Comitê e Segurança do Estado) foi, sem duvida, o maior e mais poderoso destes monstros. Esta Agência era, na verdade, uma Polícia Política, ou seja, organismo de controle e repressão a opositores do governo da antiga União Soviética, ocupando-se tanto da espionagem quanto da contra-espionagem. Seu poder era imenso: ela estava acima do bem e do mal na URSS, tendo status de ministério e respondendo somente ao órgão central do Partido Comunista Russo. Seus recursos eram assombrosos: além da alta tecnologia, agentes secretos e especialistas em quaisquer ares de conhecimento, ela também contava com batalhões inteiros de soldados orgânicos da Agência, além de caças, tanques de guerra e embarcações a sua disposição. Possivelmente, nenhum outro órgão no século XX teve tanto poder assim.

Os agentes secretos da KGB eram utilizados através da “hibernação”, isto é, eram enviados a outros países como pessoas comuns, onde levavam suas vidas normalmente sem serem contatados nem cobrados de suas atividades por ela. Muitos deles, inclusive, achavam que tinham abandonado sua vida de espiões. Quando julgava conveniente, a Agência acionava tais agentes, “acordando-os” de sua “hibernação”. Havia muitos indivíduos idealistas e crentes da doutrina socialista, mas o governo soviético controlava seus agentes através de chantagens, como ameaçar entes queridos de serem enviados a campos de trabalhos forçados. Outro tipo de agente utilizado eram comunistas do mundo inteiro que se ofereciam para trabalhar para a URSS a fim de “fazer a revolução que mudaria o mundo”, o que garantia a KGB agentes de quaisquer culturas, etnias e nações.

Gestapo

A terrível Polícia Política da Alemanha Nazista. A Gestapo (Geheime Staatspolizei – Polícia Secreta do Estado) vigiava toda a Alemanha no sentido de eliminar opositores de Hitler, além de detectar comunistas e judeus em território alemão e em países ocupados. Era também função da Gestapo proteger o Reich de agentes secretos estrangeiros, efetuando também a contra-espionagem.  Estava subordinada a ao Serviço de Segurança (Sicherheitsdienst), órgão encarregado das atividades de Inteligência Alemãs. Contava com um bem treinado grupo de espiões (geralmente, orgânicos da instituição, mas haviam aqueles recrutados externamente), e seus agentes e policiais não tinham uniformes, podendo andar a paisana ou simplesmente adotar qualquer uniforme alemão que desejassem (para fins de disfarce). A Gestapo agia sem tribunais ou fiscalização, prendendo, torturando e condenando conforme seu desejo. Como se tudo isto não bastasse, a Gestapo também era subordinada a SS (Esquadrão de Proteção, tropa especial do Partido Nazista).

DOPS

O Departamento de Ordem Política e Social é tido como o grande repressor da história do Brasil mas, curiosamente, o período no qual foi mais poderoso nem sequer tinha este nome. Entre 1933 e 1944, seu nome era Delegacia Especial de Segurança Política e Social (DESPS). Apesar de ser, em teoria, uma Delegacia da Polícia Civil do Distrito Federal[12], constituía-se, na verdade, de um organismo independente que respondia diretamente ao Ministro e ao Presidente da República. As Polícias Civis de cada Estado da Federação tinham, também, suas Delegacias de Ordem Política e Social (daí o nome, DOPS ou DeOPS) e que estavam subordinadas, na verdade, a DESPS do Rio de Janeiro.

A DESPS (e suas versões estaduais, os DOPS) empreendia espionagem em todos os níveis: clubes, sindicatos, organizações beneficentes etc[13], e nem mesmo as Forças Armadas estavam fora de seu alcance. Seus espiões eram recrutados fora da polícia, provavelmente em embaixadas e outros meios da elite (os espiões S-1), ou nos sindicatos, meios trabalhistas e classes mais baixas (espiões S-2), mas havia também agentes que trabalhavam com infiltração (SR – Serviço Reservado). Ela também contava com razoável pessoal de apoio: papiloscopistas, fotógrafos, especialistas em química e explosivos, armeiros, entre outros. Seu Setor de Arquivos era bem extenso[14].

A DESPS reunia em si os piores vícios do Serviço Secreto (invasões de privacidade, prisões arbitrárias, tortura) e da polícia: (relatórios nebulosos, acusações forjadas, tortura de novo). A despeito disto, foi fundamental durante a Segunda Guerra Mundial, durante a qual ela espionou tanto os países do Eixo (Alemanha, Itália, Japão) quanto os aliados (EUA, Inglaterra e França) garantindo a chamada “política de Eqüidistância Pragmática”[15], adotada pelo Brasil até sua entrada na Guerra.

SNI

Em 1944, visando uma modernização dos sistemas de Inteligência que ocorriam também em outras partes do mundo, o Brasil criou um órgão especifico para tal atividade: o Serviço Federal de Informações e Contra Informações (SFICI). A DESPS então se tornou DPS (Departamento de Polícia Política e Social), sendo separada da Polícia Civil e subordinada ao SFICI. Em 1964, após o Golpe Militar, o SFICI (que vale lembrar, era coordenado por militares) foi considerado obsoleto, sendo extinto. O DPS retornou à Polícia Civil do então Estado da Guanabara e foi criado o SNI: Serviço Nacional de Informações, em moldes organizacionais bem semelhantes aos da CIA.

O SNI era um órgão tão poderoso politicamente quanto a própria KGB: tinha status de Ministério, orçamento gigantesco e praticamente liberdade total para realizar suas operações. Todavia, não dispunha de tantos recursos quanto a Agência Soviética, muito embora tivesse divisões treinadas de militares para missões “antiterrorismo”[16] além de um grupo de pára-quedistas. Além disso, nutria muitos e bem treinados espiões, treinados pela própria Agência além dos “voluntários” (os chamados “cachorros”).

O SNI também comandava uma imensa máquina repressora chamada SISSEGINT (Sistema de Segurança Interna), no qual podia acessar a Inteligências do Exército, da Marinha e da Aeronáutica (que tinham seus próprios espiões e agentes que atuavam a paisana). Os DOPS estaduais efetuavam, neste sistema, as operações de busca, apreensão, prisão e investigação (por se tratarem de organismos policiais habituados a isso). Como se tudo isto já não fosse poder demais, ainda havia os DOI-CODI, esquadrões especiais mistos de policiais do DOPS com militares do exército, que atuavam em operações de prisão e interrogatório.

O poder do SNI foi bem mitigado após a abertura democrática da década de 1980, sendo finalmente substituído em 1999 pela a ABIN (Agência Brasileira de Inteligência).

6. Para saber mais

Segue-se uma bibliografia para quem quiser incrementar suas Campanhas com o fascinante mundo do Serviço Secreto. Isto é apenas uma introdução: o tema é bem complexo e extenso.

ANTUNES, Priscila C. B. SNI&Abin: uma leitura dos serviços secretos brasileiros ao longo do século XX. Rio de Janeiro: FGV, 2002: Priscila Carlos Brandão traça a história da formação dos Serviços Secretos brasileiros e faz excelente introdução (bem fácil de se entender) acerca do que é Inteligência.

BILAC, Cláudio. O Lado Negro da CIA. São Paulo: Idea, 2010: Um dos meus prediletos. Fala sobre operações ilegais da CIA, que inclusive envolvem torturas e violações de leis americanas. Destaque para as articulações de assassinatos políticos e derrubada de governos democráticos na América Central e do Sul.

CEPIK, Marco A. C. Espionagem e democracia. Rio de Janeiro: FGV. 2003: Marcos Cepik aborda detalhadamente o que é Inteligência, embora de forma profundamente técnica (o que pode assustar um leigo, mas nada muito complicado). Ele também discute muito bem a problemática e contradições dos Serviços Secretos em Estados Democráticos.

FICO, Carlos. Como Eles Agiam – Os Subterrâneos da Ditadura Militar: Espionagem e Polícia Política. São Paulo: Record, 2001: Luis Carlos Fico descreve, de forma brilhante e fácil entendimento, como funcionava a intrincada engrenagem do sistema repressor da Ditadura Militar no Brasil, encabeçado pelo SNI, além de fazer excelente contextualização do período histórico em questão.

HILTON, Stanley. A Guerra Secreta de Hitler no Brasil. São Paulo: Alfarrabista Corsarium, 1983: Outro dos meus favoritos. Stanley Hilton (historiador norte-americano) trás relatos interessantíssimos da espionagem alemã no Brasil. Destaque, também, para a descrição detalhada de como funcionava a espionagem alemã no exterior, bem como de seus personagens mais proeminentes.

PACHECO, Thiago da Silva. A contra Espionagem Brasileira na Segunda Guerra Mundial. In: Francisco Carlos Teixeira da Silva; Karl Schurster; Igor Lapsky; Ricardo Cabral & Jorge Ferre.. (Org.). O Brasil e a Segunda Guerra Mundial. Rio de Janeiro: Multifoco/TEMPO, 2010, v. I, p. 01-976 A.: Na Parte V da obra, explico a construção do sistema de Contra-Espionagem que a DESPS efetuou contra o Eixo e até com relação aos Aliados durante a II Guerra Mundial, a fim de proteger os interesses brasileiros neste momento crítico da História Mundial.

PACHECO, Thiago da Silva. As Espiãs de Vargas: A Polícia Política e a inserção de mulheres como agentes secretos. Disponível em <www.tempo.tempopresente.org> Acesso em: [09/15/2011] B: Neste trabalho, demonstro a inserção das mulheres no Serviço Secreto brasileiro, além de discutir a dialética de seu papel social como espiãs dentro de uma sociedade particularmente conservadora.

PACHECO, Thiago da Silva. A Metodologia da DESPS: As Operações da Polícia Política no Estado Novo. Disponível em <www.tempo.tempopresente.org> Acesso em: [09/15/2011] C: outro artigo de minha autoria, onde descrevo as estruturas internas e organizacionais da DESPS e como ela atuava no combate aos opositores do Estado Novo Varguista.

A Arte da Guerra – Sun Tzu. São Paulo: Editora Ciranda Cultural: Um clássico! Seu capítulo sobre espionagem, cuja introdução é citada no inicio deste artigo, é simplesmente obrigatório para a compreensão da espionagem e sua importância.

Notas

[1] Este é um método clássico da espionagem, e era utilizado desde a Antiguidade. Como exemplo, Davi (rei de Israel), envia embaixadores à Síria procurando aproximação pacífica, mas os conselheiros do rei em Damasco desconfiam de que, na verdade, se tratam de espiões disfarçados de comitiva diplomática (II Sm 10).

[2] Em minhas pesquisas, factualmente o Brasil espionou a Argentina durante todo o século XX (PACHECO, 2010 A). Também sabe-se que o Brasil interferiu diretamente no Paraguai e Uruguai durante Ditadura Militar (BILAC, 2010). Não pesquisei muito sobre a espionagem Argentina para fazer afirmações definitivas, mas duvido ferrenhamente que eles não fizeram o mesmo conosco.

[3] Este é um dos maiores desafios de se infiltrar espiões na China, por exemplo.

[4] Aliais, o próprio desenho da Liga da Justiça mostra isto. Observem até onde o CADMUS está disposto a ir para cumprir seus objetivos.

[5] Por exemplo, a Operação Cólera de Deus, no qual o Mossad (Serviço Secreto de Israel) caçou, mesmo fora de seu país, os terroristas que mataram onze atletas israelenses nas Olimpíadas de 1972 (o chamado “Massacre de Munique”). O mesmo Mossad realizou algumas operações de captura e assassinato a ex-lideres nazistas após a Segunda Guerra Mundial escondidos em várias partes do mundo, incluindo Brasil e Argentina.

[6] Novamente cito o CADMUS no desenho da Liga da Justiça e a SHIELD, do universo Marvel.

[7] Estou nomeando as perícias pelo GURPS, por ser este um Sistema Genérico e o artigo não se destinar a um RPG específico. Não creio existir qualquer dificuldade com relação a tais características já que elas existem em quase todos os RPGs, apenas com nomes diferentes ou tendo um conceito diferente mas resultando na mesma função, como Sentir Motivação (Detecção de Mentiras) e Blefar (Lábia).

[8] O que pode gerar um excelente conflito moral para os personagens jogadores, se o grupo gostar deste tipo de abordagem em seus jogos.

[9] Neste caso, a Agência não controla tais instituições, mas o governo, convencido pelos informes da Agência, irá acioná-los imediatamente.

[10] Antes da Criação da CIA (após a II Guerra Mundial) as atividades de Inteligência americanas eram efetuadas pelo Escritório de Assuntos Estratégicos. Já o FBI era responsável pela Contra-Inteligência.

[11] Sobretudo, mas decerto não somente, durante o Regime Militar, mais precisamente entre 1964 e 1979. (BILAC, 2010).

[12] Na época, o Rio de Janeiro.

[13] Sua maior preocupação era com os comunistas, sobretudo no setor operário, mas também vigiou ferrenhamente o Movimento Integralista (a despeito do apoio que eles deram a Getúlio até 1937).

[14] Estes arquivos são compostos de dossiês e prontuários sobre “suspeitos políticos”, além de relatórios administrativos e operacionais, sendo muitos disponíveis até hoje em no Arquivo do Estado do Rio de Janeiro (APERJ).

[15] O período de 1936 a 1939 é marcado por maior autonomia, margem de manobra e poder de negociação da parte do Brasil. Isto ocorre basicamente na razão da rivalidade entre os sistemas de poder alemão e norte-americano na conquista do mercado brasileiro. Essa rivalidade permite, de acordo com o Historiador Gerson Moura, “equidistância pragmática” por parte do Brasil, que obtém benefícios ao manter, na medida do possível, relações comerciais com ambos.

[16] Leia-se: guerrilha de grupos comunistas e opositores do governo.

Por Thiago Pacheco

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Written by Shophetim
Mestre em História Comparada pela UFRJ, pesquiso Serviço Secreto, Polícia Política, Espionagem e Repressão (Polícias Federal, Civil e Militar) no Brasil Contemporâneo. Autor de Agadá RPG. Professor de História dos Hebreus, Antigo Testamento e Angelologia.
6 Comments
  1. Errata

    Senhores, um erro tolo de minha parte. CIA significa “Central Intelligence Agency”, e não “Central Intelligence of America”.

  2. Erro corrigido a tempo… De qualquer forma, excelente post!

  3. Obrigado Rodrigo.

    Grande abraço.

  4. Poderia figurar no artigo os serviços de inteligência da ficção, como MIB, Illuminati, O Arcano, A Wyrm, etc. Seria uma ideia legal para outros artigos

  5. ERRATA

    Gente, a DESPs nãos e subordinava diretamente ao SFICI, mas indiretamente. E a data correta da criação deste é 1946, não 1944.

    Desculpem ai a falha.

  6. De qualquer forma o trabalho esta ótimo.
    Parabéns!

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