RPG & Religião

Desde sua concepção, com D&D – Dungeons & Dragons, em 1974, a Religião é elemento bem presente nos Cenários de RPG. Este elemento, visceral de nossa sociedade, foi encontrado de forma vívida nos demais livros deste gênero, como GURPS, Vampiro, Mago, Lobisomem e em todas as versões posteriores do já referido D&D.

Obviamente, um assunto tão delicado pode gerar duvidas para quem esta de fora ou começando agora. As religiões e credos no RPG são reais? Jogadores que interpretem personagens religiosos estão se convertendo a tais religiões? Estão abdicando de suas crenças do “mundo real” para, durante o jogo, prestar loas e servidão às entidades dos livros?

Este artigo procura elucidar tais questões, e demonstrar que a Religião no RPG, além de ser fragilmente reproduzida nos livros, não gera, no jogo, nenhuma forma de prática ritual ou de fé verdadeira. Em suma, jogar RPG não envolve, em hipótese alguma, práticas religiosas quaisquer.

 

Origens da Religião no RPG

Como já colocado, a Religião é elemento presente desde o nascimento do RPG, com a primeira edição de D&D, onde uma das opções para os jogadores era o Clérigo, um personagem com capacidades sobrenaturais de cura[1]. Já na versão ampliada deste jogo, chamada de AD&D, havia, além do Clérigo, o Paladino, guerreiro sagrado defensor da justiça[2].

A influência destas versões é, sem nenhuma surpresa, medieval. O Clérigo é relacionado aos santos cristãos apresentados pela literatura hagiográfica[3] que, através de seus milagres, protegiam e ajudavam aos necessitados na Idade Média. Já o Paladino remonta aos Cavaleiros da Igreja que lutam em nome da cruz de Cristo[4], numa visão romântica dos Cavaleiros Templários[5].

Observe-se, entretanto, que o cenário onde se passam as aventuras dos personagens de D&D (da primeira versão até a mais atual) não é a Idade Média “histórica” que nós conhecemos, mas um mundo fictício de fantasia inspirado nas obras de Tolken (RB). Ou seja, os primeiros autores desejaram juntar elementos medievais à fantasia dos elfos, anões dragões e magos. Certamente, um dos elementos mais marcantes da mentalidade medieval são suas manifestações sociais cristãs e estas, portanto, foram somadas à fantasia que me refiro[6].

Estes modelos (Clérigo e Paladino) acabaram por influenciar os demais jogos de RPG de temática Medieval, quase todos trazendo estas figuras como possíveis escolhas de personagens para os jogadores. De forma bem semelhante, elementos do catolicismo permearam a visão de religião contida nos livros deste gênero: o termo “igreja”, por exemplo, acaba por ser usado para referir-se tanto a organização administrativa e hierárquica dos cultos aos deuses dos cenários dos livros de RPG, sejam eles fictícios ou importados de mitologias do “mundo real”, como aos templos dedicados a estas entidades. Desta forma, os cleros de Zeus, Tenebra ou Corellon Larethian[7] são tratados de uma forma um tanto “romana”, com suas “igrejas” e “sacerdotes” específicos. Paralelamente, outros tipos de “sacerdotes” surgiram, como “Xamãs” e “Druidas”, invocando um aspecto mais “primitivo” da religiosidade, já que se tratam de místicos voltados para os espíritos da natureza e suas manifestações[8].

Mais tarde, alguns títulos de RPG tratarão a religião de uma forma um pouco mais específica e próxima da realidade. Por exemplo, no extinto Desafio dos Bandeirantes[9] existe o Sacerdote Negro, que invoca os poderes dos Orixás do Candomblé. Chama a atenção também o livro GURPS Religion, que fala sobre como usar as religiões em jogos de RPG e dando-lhes um tratamento mais autêntico e menos formatado.

Desta forma, observa-se que a Religião existe no RPG porque este busca na sociedade e na cultura a nossa volta elementos dramáticos para a construção de seus cenários virtuais, onde os personagens (igualmente virtuais e fictícios) viverão suas aventuras. Nenhum RPG prega uma religião especifica ou é contra as religiões de qualquer forma que seja, muito menos tenta incutir elementos de credos religiosos nos jogadores. Como uma forma de expressão cultural, ele absorve e transmite elementos da cultura a nossa volta, entre elas, elementos das mais diversas religiões.

 

Religiões no Cenário

No RPG, basicamente, a religião apresenta-se de forma maniqueísta: existem os cultos “benignos” e os cultos “malignos”[10]. Os cultos “benignos” geralmente são instituições patronas dos personagens jogadores e representantes das divindades que eles servem. Estes cultos propõem-se, dentro do cenário fictício, a fazer o bem, manter a ordem ou ambas as coisas. Se não, pelo menos representam aspectos importantes da vida diária (como a viagem, as artes, a beleza, ou mesmo a morte num sentido de ritos funerários, descanso dos mortos, etc) e não promovem nenhum tipo de destruição ou prejuízo. Já os cultos “malignos” são aqueles que acabam por representar o(s) antagonista(s) dos personagens, porque geram maldade ou desequilíbrio que precisam ser resolvidos pelos personagens jogadores.

Em alguns casos, entretanto, estas divisões inexistem, e o culto do personagem nada mais é que elemento dramático de interpretação de seus atos. Desta forma, dois personagens de uma mesma religião podem ser heróis ou vilões, sendo seus atos (e não seu clero) quem determina o papel desempenhado na história.

Quando falamos de RPG, os aspectos de culto são quase que totalmente desprezados. Tem-se muito pouco (às vezes, nada) sobre os rituais, cânticos, gestos, orações, cerimônias, vestimentas e oferendas acerca dos deuses nos cenários descritos nos livros, sejam estas divindades criadas pelos autores ou retiradas de religiões existentes. Quando muito, alega-se que “foi feita uma cerimônia que durou a noite toda” ou “a sacerdotisa entrega o sacrifício e entoa um cântico” mas raríssimas vezes algo mais além que isso.

O mesmo não ocorre com os tabus, mandamentos e dogmas religiosos. Os personagens mais ligados à religião no RPG são radicalmente cobrados quanto a observância destes elementos, como, por exemplo: celibato, não mentir, jamais enfrentar um inimigo mais fraco ou em desvantagem etc. Tais restrições variam de acordo com a divindade, e certos deuses impõem ao personagem algumas obrigações bem sinistras, como sacrifícios humanos. Estas divindades, contudo, estão sempre destinadas a vilões e anti-heróis.

 

Personagens Religiosos

Como já colocado, a opção de personagens religiosos é uma realidade sempre presente nos RPGs. Isto pode se dar de duas formas: personagens simplesmente devotos ou sacerdotes realmente iniciados nos carismas da divindade em questão.

No primeiro caso, o jogador define, ao criar seu personagem, que este segue a uma religião ou divindade específica. Por exemplo, um RPG baseado na Grécia Antiga, um jogador decide que seu personagem é devoto de Atena, enquanto que num RPG baseado na Idade Média um jogador decide que seu personagem é muçulmano. O mesmo vale para as divindades e cultos fictícios de outros cenários.

Normalmente, isto não implica em nenhuma restrição ao personagem, a não ser a maneira como ele será interpretado pelo jogador. No caso do exemplo do muçulmano, o jogador interpretaria que ele não consome carne de porco, realiza todas as orações diárias, não aceita adoração de imagens, etc. Alternativamente, ele poderá ser, também, um Muçulmano só de aparência, ou desleixado com sua fé.

Em alguns casos, contudo, o sistema de regras pode prever votos e obrigações para personagens assim e, caso o jogador assuma tais características para seu personagem, este será penalizado de alguma forma. Estas penalidades, geralmente penitências[11], perda dos poderes concedidos pela divindade ou redutores em rolamentos de dados[12] jamais, em hipótese alguma, aplicam-se ao jogador: como absolutamente tudo o que ocorre no RPG, o personagem fictício é transformado pelos acontecimentos igualmente fictícios do jogo. Se alguém tenta trazer para a realidade estas coisas, ele não está jogando RPG e indo contra todos os autores e livros do gênero, posto que está pervertendo a idéia do jogo que é pura e irrevogavelmente fictício.

Em outras palavras: ninguém sacrifica ou é sacrificado num jogo de RPG! Tudo que acontece ou deixa de acontecer, seja bom ou mau, acontece com o personagem e jamais com o jogador. Achar que um jogador sofre o sacrifício ou penitencia de um de seus personagens é tão absurdo e inverídico quanto considerar que um ator que faça o papel de um religioso sendo castigado sofre igualmente este castigo.

Isto nos leva ao segundo tipo de personagem religioso, que é aquele que realmente se iniciou nos ritos da divindade ou do culto e recebe dons especiais por isto, em forma de poderes mágicos diversos ligados a divindade. Ou seja, um Sacerdote do deus do trovão receberia poderes de cura e ligados aos raios, ao clima, etc. Para estes, a observância dos dogmas não é opcional: caso eles se desviem de sua fé, sofrerão as penalidades sobre as quais já foram faladas, e perderão seus poderes mágicos.

 

E quanto a vida real?

Agora entramos na questão central desta análise: um jogador que interpreta um personagem religioso no RPG está adorando e servindo à divindade em questão? Estará ele desviando-se de sua fé?

A resposta para a primeira pergunta é clara e retumbante: NÃO! No caso de divindades fictícias, criadas exclusivamente para os jogos de RPG, creio que isto é bem óbvio, já que explicitamente estamos falando de cultos e divindades que simplesmente não existem. Mas o mesmo se dá no caso de deidades e credos inspirados ou retirados do “mundo real” por um simples motivo: o personagem não é e nunca será o jogador. Em outras palavras, não é o jogador que está servindo, adorando e seguindo a divindade, é um personagem interpretado por ele. Da mesma forma que um jogador que interpreta um policial não é policial de verdade nem tem poderes legais para prender alguém, que outro jogador que interpreta um personagem rico provavelmente não terá nem sombra desta fortuna e que um terceiro jogador que interpreta o namorado da deslumbrante Megan Fox na vida real sequer chegou a 10 metros dela, um jogador que interpreta um Clérigo de Zeus não adora nem segue a esta divindade[13]!

Imagine o exemplo. Um grupo de jovens de uma igreja (qualquer inclinação doutrinária que seja) encena uma peça e uma das jovens fará o papel da sinistra Jezabel, fervorosa devota de Baal. Por acaso alguém cogita a hipótese de que a moça em questão deixou ou deixará de ser cristã e se converterá a este antigo deus cananeu? Não é obvio o fato de que ela está interpretando um papel? E por acaso o ator Sebastião Vasconsellos tornou-se muçulmano ao interpretar o radical Tio Abdul na novela “O Clone”?

E RPG é isto: um Jogo de Interpretação de Papéis.

No segundo caso, se um jogador que interpreta um personagem religioso desvia-se de sua fé, a resposta não está no RPG, mas especificamente em cada religião e, sobretudo, dentro da consciência da própria pessoa.

Opino, portanto, com relação ao cristianismo, já que esta é a fé que professo e procuro praticar. E minha visão gira em torno da idéia já discutida em outro trabalho meu: A Apologética do RPG, onde demonstro que a atividade de interpretar papéis era muito comum entre as criancinhas judaicas:

 

(…) “as crianças de Israel divertiam-se com toda sorte de jogos e brincadeiras, como amarelinha e pique. Mas entre estas brincadeiras, havia uma que interessa em especial ao analisar o RPG à luz da Bíblia. As crianças gostavam de representar tipos comuns da sociedade ou história judaica. Por exemplo, alguns meninos poderiam brincar de “Davi e seus soldados”, cada um representando um herói da história de Israel, e três crianças, dois meninos e uma menina, poderiam “brincar de casamento”: um representaria o sacerdote e os outros dois, o casal de noivos. Segundo GOWER (2003) este tipo de brincadeira de faz de conta era bem comum em Israel.”[14]

 

Tal brincadeira tão inocente e permitida naquele contexto que o próprio Jesus, ao referir-se a ela, não a recriminou e ainda proferiu uma parábola acerca disto, no Evangelho de Mateus (cap. 11:16-19). Como afirmo no artigo Apologética do RPG:

 

O versículo não fala diretamente sobre RPG, evidentemente. Mas observe que Jesus usa como exemplo a brincadeira de “representação de papéis” das criancinhas judaicas (GOWER 2003). Em sua colocação, Jesus compara a insatisfação dos religiosos da época para com ele e João Batista (o primeiro come e bebe, enquanto o segundo era mais recluso em suas relações sociais, mas os fariseus não aceitaram nenhum dos dois) com a insatisfação de algumas crianças que brincam de representar papéis: não querem cantar quando se representa músicos entoando louvores, nem querem chorar quando se representa profetas entoando lamentações.[15]

 

Desta forma, interpretar um personagem que serve a alguma divindade que não seja Deus não consiste numa “traição ao Senhor”, já que, além de nada disto ser real nem referente ao jogador, a prática de interpretar papéis não foi condenada por Jesus. Não há nada de pecaminoso nisto que tão somente é um passatempo onde nos colocamos no lugar de outra pessoa por algumas horas, num pequeno teatro de improviso.

Com relação as outras religiões, não me recordo de nenhuma que proíba a interpretação de papéis. Apesar de pesquisar muito o Judaísmo e o Candomblé, não ouso me pronunciar nem mesmo por estas duas religiões, que dirá pelas outras. Mas se mesmo com as explicações aqui apresentadas, um jogador sente que está cometendo algum erro interpretando um personagem religioso, então procure outros personagens para interpretar (e o RPG é flexível o suficiente para isto). Mesmo sendo um autor cristão, tenho certeza de que as palavras do apostolo Paulo serão, neste caso, de serventia para qualquer pessoa independente de sua inclinação religiosa:

 

“Eu sei, e estou certo no Senhor Jesus, que nenhuma coisa é de si mesma imunda, a não ser para aquele que a tem por imunda; para esse é imunda.” (Rm. 14:14).

 

Se, para você, é “impuro”, “errado” ou mesmo “desconfortável” interpretar um personagem assim, siga sua consciência e jogue com os muitos outros tipos de personagem que certamente estarão à sua disposição.

 

Conclusão

Observa-se, neste estudo, que as religiões existem no RPG a fim de reproduzir nos cenários fictícios traços culturais comuns a sociedade, como o Cristianismo da Idade Média. Não é objetivo do RPG apregoar ou combater nenhuma vertente religiosa, muito menos desvirtuar seus jogadores. A religião é, tão somente, mais um elemento em torno do qual giram histórias, tramas e personagens, de forma idêntica ao cinema, séries de televisão, peças de teatro e outras formas de expressão humana.

 

Silva Pacheco
Mestre em História Comparada (UFRJ),
Pesquisador do CEIG (Centro de Estudos sobre Inteligência Governamental)
e Professor de Sociologia e História de Israel
do Seminário Teológico Nova Filadélfia.

 

Notas


[1] GYGAX Gary e ARNESON Dave. Dungeons & Dragons. São Paulo: Grow, 1993.

[2] WINTER Steve, PICKENS Jonh. Livro do Jogador Advanced Dugeons & Dragons. São Paulo: Devir, 1999.

[3] Hagiografia são obras que se propõem a narrar a biografia de um individuo ou personagem tido como Santo, sendo considerada, pela Igreja Católica, como um ramo de estudo da História da Igreja.

[4] Santo Agostino já no século V exorta que o guerreiro que luta para proteger a cristandade agrada a Deus e faz Sua vontade. A literatura Romântica do século XIX trata os cavaleiros como heróis honrados e valorosos, prontos para defender os mais fracos, o cristianismo e seu rei.

[5] Ordem de Cavalaria criada para tomar e proteger Jerusalém durante as Cruzadas da Idade Média.

[6] FRANCO JÚNIOR, Hilário. A Idade Média: o Nascimento do Ocidente. São Paulo: brasiliense, 2001.

[7] Tenebra é a deusa da noite e da escuridão no Cenário de Tormenta. Corellon Larethian é o deus criador da raça dos elfos em um dos muitos Cenários de D&D. ambas são divindades fictícias.

[8] WINTER Steve, PICKENS Jonh. Livro do Jogador Advanced Dugeons & Dragons. São Paulo: Devir, 1999. Hoje se questiona a idéia de cultos “primitivos” como uma definição etnocêntrica acerca de alguns credos e povos.

[9] Desafio dos Bandeirantes. Rio de Janeiro: GSA, 1992.

[10] Por favor, não confundir minha classificação com as Tendências de D&D. Não estou falando dos alinhamentos bem, mal ou neutralidade nem dos alinhamentos ordem, caos ou neutralidade.

[11] Geralmente uma missão ou sacrifício a ser realizado, sempre dentro do cenário fictício. Ninguém sacrifica nada jogando RPG, tudo transcorre na imaginação, como se estivesse sendo montado, passo a passo, um roteiro de cinema.

[12] Redutores prejudicam a rolagem de dados do personagem, já que o aspecto jogo deste passatempo, na maioria dos RPGs, é medido através do uso de dados para saber e um personagem foi bem sucedido numa tarefa ou não (subir um muro, acertar um ataque, etc.) Muito semelhante a vários jogos de tabuleiro.

[13] A maioria esmagadora dos jogadores sequer acredita que estes deuses existam, sobretudo os deuses fictícios.

[14]PACHECO, Thiago da Silva. A Apologética do RPG. Disponível em: https://www.rederpg.com.br/wp/2010/10/a-apologetica-do-rpg-seriam-os-roleplaying-games-reprovaveis-a-luz-da-biblia/. Acesso em 24/07/2011.

[15] Idem, ibid.

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Written by Shophetim
Mestre em História Comparada pela UFRJ, pesquiso Serviço Secreto, Polícia Política, Espionagem e Repressão (Polícias Federal, Civil e Militar) no Brasil Contemporâneo. Autor de Agadá RPG. Professor de História dos Hebreus, Antigo Testamento e Angelologia.
4 Comments
  1. Errata:

    Amigos, me perdoem o erro, mas Santo Agostinho pregou e publicou suas idéias no século IV, não no século V. Desculpem ai a falha.

    Grande abraço.

  2. demonstrar que a Religião no RPG, além de ser fragilmente reproduzida nos livros, não gera, no jogo, nenhuma forma de prática ritual ou de fé verdadeira. Em suma, jogar RPG não envolve, em hipótese alguma, práticas religiosas quaisquer.

    EXATAMENTE!

  3. Realmente, se você tem consciência da linha entre o jogo e a realidade, não tem problema algum com a religião dentro dos jogos.
    Para mim a religião esta vinculada ao RPG quando se traz suas crenças pessoais para a mesa. por exemplo: intolerância desmedida por acreditar ou não em algo.
    Bom texto!

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