Religião na mesa de Jogo: problemas e reflexões (Parte I de II)

Não adianta. Religião sempre será um assunto delicado. E é delicado porque mexe com as convicções, com o sagrado, com o que o ser humano guarda, em seu juízo de valor, como mais precioso.

De forma alguma seria diferente com quem joga RPG.

Longe de ser um guia definitivo para lidar com o problema aqui proposto, este artigo se destina a discutir como o tema da religião pode ser recebido pelos jogadores ao ser usado nos jogos de RPG e quais problemas isto pode acarretar. Desta forma, esta análise pode ser útil para evitar equívocos e situações desagradáveis.

Observe que a análise que se segue é sobre a receptividade dos jogadores de RPG acerca do tema da Religião e os problemas decorrentes disto. Certamente o uso da Religião como elemento literário para histórias e cenários de RPG seria algo muito interessante para dissertar, mas não é sobre isso que falaremos a seguir.

1 – Constituição do Grupo

            O meu grupo tem uma formação bem heterogênea. Tenho atualmente sete jogadores, dentre estes, três evangélicos (sendo um deles mulher e outro um “desviado”[i]), dois agnósticos, (um por decisão própria o outro por indefinição acerca da religiosidade), um católico praticante e um candomblecista. Embora primeira vista esta seja uma combinação explosiva, é preciso salientar uma coisa: já discutimos por inúmeros motivos e assuntos, desde mentalidade feminina[ii] passando por política e sociedade[iii] até casos de “roubos” através de alterações na ficha, alegações de ações que o personagem não fez ou juras de que foram tomadas certas ações que “eu não teria escutado”.

Mas nunca, jamais discutimos por causa de religião.

No Brasil, a maioria dos grupos de RPG possivelmente terá formação igualmente heterogênea, onde pessoas de vários credos e filosofias de vida reúnem-se para se divertir e encontrar os amigos. A configuração exposta acima corresponde à constituição do meu grupo, e o caminho para lidar com o tema é saber quem são seus jogadores e quais suas inclinações e opiniões sobre religião (se é que tem). Noutras palavras, o ideal é o Mestre/Narrador conhecer seus jogadores no tocante às suas crenças.

Todavia, não basta apenas rotulá-los. Dois católicos podem ser radicalmente diferentes em suas convicções pessoais, comportamento e visão religiosa. Perceber seu grupo como “composto por um evangélico, um candomblecista e um judeu” pode parecer uma classificação exata num olhar de senso comum, mas tanto no sentido psicológico como sociológico, na prática representa muito pouco. Isto ocorre também pelo fato de que tais religiões (como todas, na prática) apresentam subdivisões dentro de si com diferenças doutrinárias marcantes[iv], mas, sobretudo porque o fenômeno da religiosidade pode ser experimentado e vivenciado por cada pessoa das maneiras mais diversas[v].

A resposta deve ser encontrada no seu jogador enquanto ser humano, não num rótulo religioso a ele atribuído. Conhecer os jogadores é fundamental especialmente neste caso, mas também para o ofício de narrador/mestre.

2 – Usar ou não a Religião? Quais usar?

Dentro disso, caberia a pergunta se a religião pode ou deve ser usada e quais religiões podem ser trazidas ao jogo e quais não podem.

De uma forma geral, os RPGs tratam do tema religião quase sempre de forma superficial e, na maioria dos casos, através de credos fictícios acerca de deuses que não são os da “realidade”[vi]. Ela acaba sendo tratada de forma um tanto mecanicista: personagens devotos podem receber poderes mágicos das entidades, prestar votos e obrigações ou ambas as coisas, mas raramente aprofunda-se a questão.

Quando se trata de religiões fictícias como a crença em “Tenebra” ou em ”Pelor”, não costuma haver problema algum. Jogadores que querem interpretar religiosos observam nas regras quais os bônus e penalidades que seus personagens recebem e o jogo segue sem maiores problemas: os demais participantes, sensíveis ou não ao tema, simplesmente não se sentem incomodados já que falamos de um credo fictício. Pelo mesmo motivo, vilões que sejam sacerdotes de alguma divindade não costumam ser ofensivos a ninguém, já que tais entidades costumam ser malignas[vii] e, mesmo se não fossem, são reconhecidamente criações literárias.

Entretanto, ainda pode haver problemas. Um jogador debochado, que tenha uma visão extremamente pejorativa ou crítica com relação à religião pode escolher um personagem religioso tão somente para expor nele suas opiniões, ou um mestre/narrador pode construir NPCs com estes mesmos objetivos de chocarrice a temática. Desnecessário dizer que qualquer jogador que é religioso (independente de qual vertente seja seguidor) poderá se sentir extremamente incomodado (se não ofendido) com a visão de religião ali exposta.

Mas os maiores problemas ocorrem quando religiões que realmente existem são trazidas à mesa de jogo. Ai não é só o pensamento religioso generalizado que é afetado, mas sim uma religião específica. Logicamente, um membro desta confissão pode ficar muito ofendido dependendo da maneira como ela é tratada na mesa de jogo, e quando isto ocorre, ele está repleto de razão na medida em que coisas que lhe são caras são expostas de forma desagradáveis numa situação que deveria tão somente ser de diversão e socialização.

E há outro lado na questão: pessoas que não gostam do tema da religião e/ou não querem falar nem interagir com ele. Neste caso, o potencial ofensivo está de outro lado: de jogadores e mestres/narradores que desejam colocar a religião em papel de destaque nos seus jogos, enquanto um participante sente-se desconfortável com este assunto.

Observe que a questão, portanto, não é usar ou não usar a religião, muito menos quais religiões podem ser usadas e quais não podem. A resposta está nos participantes. Por exemplo, três jogadores católicos podem ter posturas bem diferentes: um pode até ajudar a criticar sua religião, o outro pode odiar que se fale mal dela e um terceiro estar realmente indiferente a qualquer coisa, já que ele “só quer jogar com seu guerreiro”. Dois ateus podem reagir de forma bem diferente, um experimentando personagens religiosos justamente por considerar que isso “não existe de verdade” e outro nutrir verdadeira ojeriza pela temática e evitá-la a todo custo.

Ou seja, dependendo do grupo no qual se joga RPG, qualquer religião pode ser assunto totalmente liberado, restrito com relação às críticas ou terminantemente proibido, conforme o grupo se sinta melhor e se divirta sem ter suas convicções pessoais feridas. A resposta está no que faz bem a seu grupo, em consenso.

Em todos os casos a chave é a compreensão. Ninguém é obrigado a aceitar a temática da religião tratada de forma polêmica ou aprofundada, pois o RPG é uma diversão em grupo e, como tal, deve ser prazeroso a todos os participantes. Imposição de pregações religiosas ou anti-religiosas usando-o como pretexto é inadmissível e de extremo mau gosto (para não usar o termo fanatismo).

Compreendido que as questões de usar ou não a religião e, em caso afirmativo, quais usar depende inteiramente da disposição e receptividade dos jogadores para com o tema, na próxima parte deste artigo será analisado as complicações que podem ocorrer acerca do como se usa esta temática.

 

Silva Pacheco

Doutorando do Programa de Pós Graduação em História Comparada (PPGHC – UFRJ),
pesquisador do CEIG (Centro de Estudos de Inteligência Governamental)
e professor de História de Israel, Sociologia e Filosofia da Religião.



[i] “Desviado” é o termo usado para o evangélico que não freqüenta mais a igreja.

[ii] A única mulher do grupo, psicóloga pós graduada, fica horrorizada opiniões de alguns “sabichões” da mesa. Às vezes ela não acredita que está ouvindo certas coisas…

[iii] Eu fico mais horrorizado ainda com as opiniões de alguns “sabichões” do grupo. Às vezes eu não acredito que estou ouvindo certas coisas…

[iv] As igrejas evangélicas se pulverizam institucionalmente em inúmeras “denominações” enquanto os mitos dos Orixás e suas múltiplas representações arquetípicas (chamada de “qualidades”) podem variar de acordo com a “Nação” africana da qual se originam, e o judaísmo subdivide-se em vários ramos como o ortodoxo, o reformista e o conservador. Isto só para ficar em alguns exemplos.

[v] VALLE, Edênio. Psicologia e experiência religiosa. São Paulo: Edições Loyola, 2008.

[vii] O já referido maniqueísmo presente nos cenários de RPG com relação à religião. https://www.rederpg.com.br/wp/2011/07/rpg-religiao/, acesso em 19/04/2012.

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7 Comments
  1. É sempre uma questão de maturidade. Quando os jogadores se dispõem a deixar diferenças ideológicas ou religiosas de lado, o jogo flui bem. Por que RPG é simplesmente isso: um jogo.

    É só não levar as diferenças da mesa para o “mundo real”.

    As religiões de RPG, por exemplo, não abrem espaço para “dúvidas”. Não existe ateísmo em D&D por exemplo… ;)

    E, no fim, no RPG frequentemente temos a situação ideal para a religião: não há muitos tons de cinza, existe quase que claramente, nos cenários “clássicos” uma diferenciação clara entre “bem” e “mal”.

    Não vejo conflitos inerentes no RPG, apenas se o Mestre ou os Jogadores carregarem essas questões para a mesa.

  2. Existem cenários, como Yrth do GURPS que colocam as religiões que conhecemos hoje dentro de um cénário fantástico, com catolicismo, islamismo (com xiitas e sunitas) convivendo com as crenças elficas e anãs.

    Para um grupo maduro, como disse o Lauro, isso pode ser uma fonte enorme de ganchos para representação, tramas e backgrounds de personagens.

    O mais importante, como indicado pelo artigo do Pacheco, é o grupo estar de acordo com o uso da tematica.

    E um ponto de sugestão…. o artigo aparece enviado pelo Cristiano e somente ao terminar de ler percebi que era do Silva Pacheco. Tem como indicar o autor diretamente na tela inicial, algo como enviado por XXXX em nome de YYYY?

  3. Salve Guzzon,

    Para que o post entre com o nome do autor ele deve lançar post no portal e eu devo somente aprovar. O que ocorre é que muitos autores enviam os seus posts para mim por e-mail, então eu mesmo o posto e acaba saindo meu nome lá em cima (que é somente uma referência do sistema).

    Abraço.

  4. Imaginei que fosse algum limitador do sistema mesmo. Obrigado pela resposta.

  5. Meu antigo grupo era bem heterogêneo também, quando formei um novo percebo que religião seria um tema meio delicado … então decidi nunca utiliza-lo.

  6. Já fiz parte deste grupo ai em cima…
    Tenho a sorte de dizer que todos os grupos com os quais eu joguei, nunca tiveram problemas com religião… Até porque se isso fosse um problema para os jogadores para os quais eu costumo narrar, seria muito ruim, pq sempre tem pelo menos uma pitada do assunto, nem que seja de plano de fundo…

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