Religião na mesa de Jogo: problemas e reflexões (Parte II de II)

Continuemos a análise iniciada na primeira parte do artigo sobre a Religião nos jogos de RPG, a fim de compreender suas complicações e dificuldades decorrentes.

3 – Usando aspectos da Religião nos jogos de RPG

Em meus jogos, a religião é tema explorado sem nenhum limite. Conceitos e reflexões filosóficas de qualquer credo são expostos e até podem ser a chave para solucionar um dilema, as orações, rituais e sacrifícios são descritos com riqueza de detalhes e as teofanias e êxtases, narradas com profundidade levando o jogador ter uma noção daquilo que o personagem está vivenciando. Enquanto instituição, as mais diferentes religiões mostram-se com jogos de poder internos e interesses sociais claros, às vezes nobres, às vezes reprováveis.

Todavia, tudo isso se dá de acordo com a minha visão sobre o tema, a qual meus jogadores não somente apreciam como elemento literário como aprovam que seja trazida à mesa de jogo. De forma alguma posso dizer que trato a religião como ela é (embora de fato tente aproximá-la da realidade) já que isso é claramente subjetivo. De forma semelhante, a maneira como meus jogadores a percebem depende deles e, neste caso, não se incomodam com isso.

Ou seja, não se pode dizer que este é o jeito certo de suar religião no RPG. Este é o jeito que eu aprecio e que meus jogadores aprovam. Cada grupo de RPG pode reagir de formas diferentes a abordagens e visões diferentes propostas pelo mestre/narrador.

Creio que o mais complicado de tudo é introduzir mensagens e conceitos religiosos nas histórias do jogo, pois as tais visam edificar e construir um sentimento e atitude, mas também dogmatizar. Estes dogmas, por sua vez, podem gerar incômodo naqueles que não seguem a referida religião ou, pior, uma reação negativa. Por exemplo, os discursos doutrinários cristãos de condenação às práticas mágicas podem incomodar profundamente um umbandista ou wiccano, enquanto um cristão pode ficar horrorizado o que alguns judeus dizem sobre Jesus[i]. Mas, por outro lado, justamente um seguidor da religião pode não gostar de ver o que lhe é sagrado num ambiente de diversão e descontração como, por exemplo, um evangélico que julga blasfêmia citações bíblicas no jogo ou um candomblecista que imagina os Orixás se ofendendo por terem seus nomes citados neste momento.

Em todos estes casos, o participante está no seu direito. RPG é diversão e, no seu momento de diversão, ser incomodado ou ofendido é estar na contramão do objetivo do jogo. E, mesmo que nenhum participante se importe com isso, convém que mestre/narrador ou o jogador que deseja invocar tais elementos tenha um bom conhecimento de tais elementos e os apresente de forma coerente, responsável e respeitosa, afinal, estamos falando de doutrinas religiosas. De forma semelhante, se a crítica se desloca a uma religião específica ou as religiões como um todo (dizer que cerceiam liberdade, que são meras superstições, que são entraves a ciência, etc.) é necessário estar embasado nos argumentos ateístas sobre o tema e, novamente, estar certo de que ninguém no grupo se sentirá ofendido por isso.

Desta forma, se o grupo não se sente incomodado e se estes elementos são trazidos nestas condições, os participantes terão uma excelente oportunidade para expandir seus conhecimentos e entender melhor seus semelhantes que professam determinado credo (ou suas críticas aos mesmos).

RPG pode ser espaço de reflexão, mas nunca de imposição. Seu objetivo é divertir, não formatar, condicionar.

Descrever com detalhes os as orações, rituais e sacrifícios também pode ser problemático (se não, traumático). Numa aventura que conduzi em Agadá RPG[ii] os personagens dos jogadores precisavam se purificar[iii] antes de partir em sua próxima jornada. Descrevi detalhadamente o sacerdote levita e seus trajes suntuosos da cor branca com detalhes azuis que, enquanto uma bela jovem levita entoava um cântico ao Senhor, cortava a garganta de um cordeiro e aspergia o sangue sobre o altar. Meus jogadores gostaram bastante. Descrições detalhadas de ritos afro em meus jogos num cenário sobre Brasil nos anos 40 também são comuns. Todavia, alguns leitores deste artigo e jogadores de outros grupos de RPG poderiam ficar enojados com a cena, seja pelo sangue, seja pelo sacrifício do animal. Outros podem achar uma superstição tola e não aceitarem este tipo de coisa.

Enfim, as possíveis reações são muitas. E, tais quais às reações às mensagens e doutrinas religiosas, descrever orações, ritos e procedimentos religiosos pode ser igualmente chocante para quem é daquele credo. De forma semelhante, um participante pode não gostar da descrição detalhada de certos ritos mesmo não sendo seguidor daquela religião: sacrifícios e rituais podem ser bem chocantes até mesmo (e talvez por isto mesmo) para quem não crê neles.

O mesmo ocorre com as teofanias e os êxtases. Contatos com deuses, emissários divinos, espíritos e outras entidades sobrenaturais são muito comuns nas narrativas de RPG e elementos cruciais nos mesmos. Todavia, quase sempre se trata de entidades fictícias criadas exclusivamente para o jogo: quando tais entidades são baseadas em deuses, anjos e espíritos de credos reais, a coisa pode mudar e muito de figura!

Uma coisa é descrever como um personagem transcende sua consciência ao estar em comunhão com o poder solar de Pelor ou recebe uma mensagem de um emissário de Wynna. Outra, bem diferente, é descrever como um pai de santo incorpora Ogum ou um beato recebe a visita do Anjo Gabriel. Os fictícios não chocam nem um pouco. Os “reais” podem escandalizar alguém e até gerar uma discussão desagradável.

Por fim, temos o tratamento das religiões enquanto instituições, focando seus jogos de poder internos e interesses sociais. Aqui fica muito óbvio o problema: membros de um determinado credo podem não aceitar que sua religião seja mostrada como um elemento social (ou mesmo político) que atua em prol de interesses particulares, ainda que ele reconheça que isto ocorra e pior ainda se ele julga que isso jamais aconteceria! Um jogador católico pode não ver problema numa abordagem sócio política da inquisição no sentido de eliminar concorrência religiosa na Europa, mas outro jogador que professa a mesma fé pode ficar revoltado. Mesmo que interesses nobres sejam realçados, se eles forem “desespiritualizados” alguns jogadores podem não gostar. Isto precisa ser, portanto, avaliado com calma e compreensão.

Ainda que os participantes não vejam problema no exemplo acima, ainda assim julgo de bom tom e até interessante demonstrar os diferentes tipos de pessoas dentro da mesma vertente religiosa. Um exemplo disto é a abordagem que usei na proposta de Aventura Pronta “Todos Querem o Malandro”[iv], na qual havia uma Sacerdotisa Afro maligna, Elza d’Ezilily, que usaria seus poderes sinistros contra os personagens, mas também a doce Nanara de Damballaeh, que ofereceria a eles um patuá para defender-se daquela conjuração. Ou seja, se há o “padre pervertido e pedófilo”, é interessante o “padre atencioso e cordial”. Isso não resolve todos os problemas, mas demonstra que em qualquer segmento social temos pessoas tanto de bom como de mau caráter.

Conclusão

Estes são apenas alguns exemplos da maneira como eu enxergo religião e como meus jogadores apreciam que eu trabalhe. Não existe uma receita de bolo para tratar de tão delicado problema, mas há algo que certamente sempre trará bons resultados: respeito e entendimento. A resposta sobre como a religião será trazida para os jogos de RPG não está em doutrinas religiosas ou em manuais de “como se mestra”, mas no próprio grupo: o que diverte, não ofende e é respeitoso será válido.

Caso não seja possível, deixe o tema de lado ou mude a maneira como ele é trazido ao jogo. RPG é vasto e flexível, e pode passar muito bem sem este tema ou riqueza de detalhes sobre o mesmo.

O objetivo do RPG divertir, sempre. E, sabemos bem, conflitos religiosos em quaisquer níveis não são nada divertidos. Muito pelo contrário.

 Silva Pacheco

Doutorando do Programa de Pós Graduação em História Comparada (PPGHC – UFRJ),
pesquisador do CEIG (Centro de Estudos de Inteligência Governamental) e
professor de História de Israel, Sociologia e Filosofia da Religião.

Notas



[i] Para alguns judeus, Jesus era um manzer (“meio judeu”) filho de uma relação adultera entre Maria e um soldado romano. Praticante das artes mágicas egípcias, foi vencido em embates sobrenaturais por rabinos judeus e, por fim, morreu enforcado. Aparentemente, tais histórias visavam impedir a conversão de judeus durante a Idade Média. UNTERMAN, Alan. Dicionário judaico de lendas e tradições. Rio de Janeiro: Zahar, 1992.

[ii] RPG sobre a Mitologia Judaica. <https://www.rederpg.com.br/wp/2010/10/agada-rpg/>, acesso em 18/04/2012.

[iii] Em Agadá RPG, quando os personagens “pecam” recebem Pontos de Contaminação que podem se tornar Maldições ou Desvantagens mais tarde, se muitos pontos forem acumulados. Isto serve para emular a mentalidade hebraica da Antiguidade. <http://agadarpg.blogspot.com.br/2010/03/o-que-vem-ser-agada-rpg.html>, acesso em 18/04/2012.

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