A Rede RPG e seus dez anos

A Rede RPG e seus dez anos

A Rede RPG completa neste mês dez anos de existência. Durante esta longa e frutífera jornada, foram apresentados sistemas, divulgadas notícias, discutidas ideias e até mesmo defendido nosso passatempo diante de esdrúxulas e infundadas acusações. Mas qual seria o maior legado da Rede? Neste mar de realizações importantes, o que teria ela feito de mais importante para o RPG no Brasil?

As respostas certamente serão variadas e poderão ocorrer discordâncias quanto a elas. Desta forma, o máximo que posso fazer é expressar aqui minha opinião quanto a este legado. E é justamente isto que fez diferença na Rede: a abertura de opiniões.

De fato, discutir ideias pode gerar explosões, e frequentemente o faz. Muitos artigos e postagens da Rede foram polêmicos, gerando embates fervorosos como, por exemplo, a resenha sobre Tormenta RPG publicada em janeiro de 2011[i]. Espaços de manifestação de opiniões serão também não raro espaços de debates. Mas qual a importância disto?

A década de 1990 foi o grande momento do RPG no Brasil[ii]. O hobby tornou-se conhecido, lançamentos importantes ganharam versões em língua portuguesa e se deu um crescimento sem precedentes no numero de mestres e jogadores. Todavia, esta explosão rpgística não foi acompanhada de forma proporcional pelos meios de comunicação, sendo a Dragão Brasil praticamente o único veiculo que trabalhava nesta área.

Não tenho aqui nenhum interesse em demonizar a extinta Dragão Brasil em exaltação a Rede RPG, até porque a Rede definitivamente não precisa disto. É tão somente uma questão mecânica: nos anos 1990 a internet era lenta e rara, e uma revista tem óbvias limitações de interatividade, tempo de resposta e espaço de debate. Alguns (eu inclusive) podem até questionar a maneira como se dava a seleção e resposta de leitores na sessão de cartas do referido periódico, mas o fato é que a limitação de velocidade, interatividade e manifestação de opinião em uma revista mensal é obviamente superior a de um site com aberturas para comentários e postagens. A Dragão Brasil era limitada neste aspecto pelos mecanismos que dispunha na época[iii].

A internet e sua popularização abriu uma série de possibilidades para a troca de ideias. A Rede, se não foi o primeiro portal a fazê-lo, foi decerto um dos pioneiros a abrir seus ensaios, artigos e noticias à opinião dos leitores. Isto é fundamental em qualquer sociedade democrática e mais ainda quando falamos de RPG, campo variado, complexo e cujos pontos de vista em muitos casos (talvez a grande maioria) sejam mera questão de gosto.

Mas há outros pontos neste legado. A Rede não impõe uma doutrina homogênea muito, menos homogeneizante. Os colaboradores não têm nenhuma cartilha de expressão ou visão institucional ao emitir suas opiniões. Inclusive, nós discordamos em alguns casos! Os colaboradores da Rede atuam em áreas distintas, mas nossas opiniões são plurais e não estão ligadas a um arcabouço ideológico a favor ou contra de um sistema ou maneira de se jogar RPG. Há uma pluralidade de pensamento na Rede que faz girar em torno dela múltiplas formas de se conceber o RPG, tanto quanto isto realmente é possível[iv].

Por fim, a Rede é mais um dentre outros instrumentos de luta contra o preconceito que alguns nutrem contra nosso hobby[v]. Vários artigos esclarecendo o que são os jogos de interpretação de papéis, os projetos de pesquisa nas áreas de educação e as refutações a acusações absurdas foram transmitidos por este portal que, gozando de uma enorme visibilidade, acaba sendo um valioso veiculo de comunicação sobre o RPG. Temos na Rede um portal estruturado que apresenta uma defesa sólida ao nosso passatempo, vez por outra atacado de forma infame por quem simplesmente o desconhece[vi].

Em resumo, há muito que dizer de bom e de ruim (como acerca de qualquer assunto) sobre a Rede RPG. Seria possível escrever uma monografia sobre a Rede e seu impacto no meio rpgistico, mas como colaborador a dois anos deste portal, é isto o que tenho a ressaltar: a pluralidade e abertura de pensamento na Rede, que se torna ao mesmo tempo veiculo de informação e espaço de debate sobre RPG e assuntos afins.

Que nos próximos dez anos a rede continue a nos trazer informações, dicas, artigos, sistemas, cenários e resenhas como tem feito na ultima década. E que jamais esmoreça quando for necessário esclarecer à sociedade o que realmente é RPG: um jogo de faz de conta, de amigos que se reúnem para imaginar (e nada mais que imaginar) histórias. Um jogo para tão somente… se divertir!

 

Silva Pacheco
Doutorado em História Comparada (UFRJ),
membro do CEIG (Centro de Estudos de Inteligência Governamental)
e professor de História e Ciências da Religião.


[i] [i] Disponível em http://www.rederpg.com.br/wp/2011/01/tormenta-rpg-e-valkaria-como-fragmentar-um-sistema-fragmentado/, acesso em 07/09/2012, 9:57. Infelizmente, a discussão não está mais disponível devido às transformações do design do site, que afetou todas as postagens, não somente esta resenha.

[ii] Eu sempre realço o boom de 1995. Vivi esta época: livros que jamais imaginamos existir em língua portuguesa foram lançados a partir deste ano e as opções eram inúmeras. Hoje isto pode parecer pouco, mas até cerca de 1994 obras de peso só existiam em inglês e não havia nenhuma perspectiva de mudança.

[iii] É bem verdade que outras revistas foram lançadas no período, mas não conseguiram se firmar no mercado. Não se tratava desta forma de um monopólio pernicioso da Dragão Brasil, mas tão somente da conjuntura dos anos 1990: se por um lado enorme parte do publico rpgista criticava veementemente a Dragão Brasil, por outro grande parte deste mesmo público consumia o produto e, de uma forma geral, a maioria esmagadora dos adeptos deste hobby rejeitou outras propostas de revista que vieram a surgir.

[iv] Por exemplo, sistemas outrora esquecidos e/ou injustiçados receberam uma nova visibilidade na Rede, inclusive com seus autores podendo defender suas idéias e pontos de vista acerca das obras que produziram. Relembro aqui dois artigos meus: Tagmar e seus 20 anos (http://www.rederpg.com.br/wp/2011/12/tagmar-e-seus-20-anos/, acesso em 07/09/2012, 10:42) e Desafio dos Bandeirantes: o Resgate do RPG brasileiro (http://www.rederpg.com.br/wp/2011/09/desafio-dos-bandeirantes-o-resgate-do-rpg-brasileiro/, acesso em 07/09/2012, 10:44)

[v] Mas que aqui se faça justiça: a Rede não é o único nem o primeiro destes instrumentos de luta.

[vi] Reforço aqui a denuncia feita pela Rede RPG no mês passado, sobre a maneira como a novela Rebeldes tratou o assunto do RPG. (http://www.rederpg.com.br/wp/2012/08/peticao-publica-contra-a-distorcao-do-rpg-na-tv/, acesso em 07/09/2012, 10:44)

 

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