Capoeira como Cenário de RPG

Malandros de golpes rápidos, belas mulheres de vestidos brilhosos e lâminas ocultas entre os dedos, guerreiros elegantes atacando pontos vitais com bengalas, chefes de gangues e mestres de estilos específicos. Todos estes arquétipos, e muitos outros, podem derivar de um simples termo: capoeira.

Dando prosseguimento a minha linha de artigos na Rede RPG sobre a possibilidade de elementos brasileiros para cenários e personagens interessantes, abordo aqui a capoeira, que é algo muito além de “uma técnica de combate disfarçada de dança dos escravos brasileiros” como normalmente se falava nas escolas. Os múltiplos estilos de combate, os traços culturais, o envolvimento com a proteção aos pobres e, em alguns casos, com o crime e a boemia, tudo isso faz da capoeira nas primeiras cindo décadas de nossa história republicana um manancial maravilhoso de personagens e tramas.

Para ilustrar estas possibilidades, farei uma pequena introdução sobre este universo cultural, e depois relatarei uma das tramas que narrei para meu grupo sobre a temática.

Um cenário e tema de capoeira

Ao contrário do que a maioria das pessoas pensa, a capoeira não se resumia a uma roda na praia ao som do berimbau, nem à resistência dos negros durante o período colonial. Uma das facetas mais interessantes da capoeira é a formação das maltas e o envolvimento destes personagens com a boemia e o submundo das cidades brasileiras.capoeira-moves-normal

A capoeira subdivide-se em vários estilos de luta, de acordo com o mestre que ensinou a arte, sua filosofia e até mesmo lugar do Brasil onde se aprende. Além disso, os capoeiras que compartilham do mesmo estilo de luta ou filosofia de vida costumavam reunir-se em grupos chamados pejorativamente pelas elites de Maltas. Algumas delas eram tão somente  grupos proteção mutua e de encontro entre amigos e praticantes da arte, enquanto outras protegiam seu território de malfeitores, valentões e policiais desonestos, existindo também aquelas que dedicavam-se inteiramente ao crime.

Esta questão do crime e da marginalidade é marcante. Mesmo as Maltas benignas sofriam muito estigma, pelo menos até a década de 1930, quando Vargas insere a arte num projeto de cultura nacional. Isto porque era comum o envolvimento dos capoeiras na boemia e seus personagens: jogadores, dançarinas, malandros, prostitutas, cafetões, sambistas, entre outros. A questão se agrava porque algumas Maltas lucravam com cafetinagem e extorsão, o que colaborava mais ainda para a desconfiança da polícia. O Jogo do Bicho, maior rede de crime organizado do Brasil durante boa parte do século XX, também usava algumas maltas de capoeira como tropas particulares ou para serviço sujo nas ruas, como cobranças, extorsões, controle da prostituição e atémesmo eliminação de concorrentes por território. Além de temer os capoeiras pela letalidade da arte, a polícia também desconfiava deles pelo envolvimento de alguns (não todos) com estas atividades.

Cada Malta tinha seus próprios ritos de aceitação e normas, e costumavam ser caracterizadas por um santo e por uma ou duas cores, ostentadas nos trajes do capoeira através de lenços ou fitas. Aliás, engana-se quem pensa que os capoeiras dos quais falo aqui eram homens de corpos sarados com calças brancas e berimbau na mão: eles vestiam-se com o que havia de mais estiloso na boemia. Homens usavam camisas listradas verticais e calça, ou a típica vestimenta de malandro, às vezes com gravata, outras vezes com os botões do blusão aberto, ostentando vários cordões de ouro. As damas gostavam de saias de prega e salto alto, vestidos curtos brilhosos de lantejoulas coloridas ou versões femininas do terno do malandro, contrabalanceados com peças femininas. Em ambos os casos, o chapéu panamá era muito comum, e haviam os capoeiras que faziam combinações “retrôs” usando peças do século XIX. Além disso, muitos brancos e mulatos eram capoeiras, não somente negros.

A capoeira também não se restringia aos movimentos corporais. Adagas, navalhas, bastões, correntes e outras armas eram de uso de alguns dele, às vezes até mesmo em combinação com a arte. A mais clássica destas armas era a bengala, marca registradas dos capoeiras na Primeira República (1889-1930): leve e elegante, era letal nas mãos destes artistas marciais. Algumas delas tinham lâminas escondidas ou mesmo eram lâminas embainhadas dentro da bengala.

Por esta breve exposição, percebe-se que a capoeira permite uma série de personagens e histórias urbanas para RPG, com fundo totalmente nacional. São os guerreiros de nossa cultura. E estes guerreiros estão repletos de um estilo próprio, único e inexplorado até agora. A capoeira no Brasil Republicano permite tramas envolvendo a boemia, submundo, crime organizado e guerra de gangues (maltas) temperadas com treinamentos intensos, relações mestre/aprendiz, rinchas de clãs e duelos de lutadores, tudo isso dentro de um contexto totalmente nacional.

A seguir, farei uma amostra de como trabalhei este tema com meus jogadores no grupo em que jogamos. Todo este arco da trama já foi resolvido pelos meus jogadores, e recentemente iniciamos outra trama.

A Trama

A história, que se passa em 1932, começou com uma enfermeira trazendo duas crianças, Marta e Maria (de seis e quatro anos, respectivamente), protegidas sob sua capa da chuva que caía. A mãe delas, uma lavadeira portuguesa, teria morrido no hospital onde trabalhava a enfermeira que, compadecida, tomou as filhas da mulher. Ela procurou o zeloso Toinho, dono de um bar na rua onde ela morava, pedindo-lhe que acolhesse as meninas enquanto preparava um lugar para elas em sua casa.

Aquele era o lugar ideal para cuidar das meninas. Toinho era um capoeira muitíssimo respeitado por todos os praticantes da arte, e a Rua das Margaridas, onde eles viviam, um ponto neutro do Rio de Janeiro: era totalmente proibido qualquer conflito hostil naquela rua, também utilizada para acordos de paz que eventualmente surgiam entre as Maltas.

Entretanto, uma profecia teria se revelado a Maria enquanto ela dormia. A criança sonhou com uma ilha onde todos os capoeiras estavam aglomerados. O mar, revolto, iria engolir e afogá-los, somente salvando-se  aqueles que tomaram a mão de um homem vindo do sul sob um cavalo.

Este seria somente um sonho estranho e sem impacto algum de uma menininha órfã se algo curioso não tivesse ocorrido: naquela mesma noite, Noruh (santo ligado aos truques e à trapaça) revelou aos Edis (entidades ligadas à noite, boemia e aos sentimentos humanos) que a menininha sob a guarda de Toinho recebera um importante vaticínio sobre os capoeiras, mas sem contar qual era a profecia. Os Edis então revelaram o fato aos filhos de santo que regiam. E, como num efeito cascata, em menos de dois dias as Maltas de capoeiragem, cujos membros são adeptos ou mesmo sacerdotes de cultos afros, ficaram sabendo que uma criancinha teria o oráculo do futuro dos capoeiras.

Encontrá-la tornou-se imediatamente o objetivo de todas estas gangues.

Toinho, por sua vez, não estava disposto a entregar a criança. A maioria das Maltas era formada por gente suspeita ou mesmo criminosa, e ele não deixaria uma menininha nas mãos de gente assim. Também não adiantava ele contar o sonho, pois os outros iriam pensar estar sendo enganados (lembrando que falamos de um contexto de malandragem e boemia).

Em breve, a Rua das Margaridas deixaria de ser a rua mais pacífica do Rio de Janeiro.

Maltas

Algumas das Maltas que criei para nesta trama:

Pés de ouro: os Pés de Ouro dominam a região da Lapa, e compõem-se de músicos e sambistas. Eles não praticam extorsão nem cafetinagem, protegendo a região em troca de livre consumo nos botequins e confeitarias do bairro. Seu estilo de capoeira recebe o nome de cospe fogo, porque combina golpes elegantes com o uso de fogo através de bastões, isqueiros, cachaça e outros materiais inflamáveis. Suas cores são o dourado e o marrom.

Barbeiros: os Barbeiros são capoeiras honestos, todos eles trabalhadores (sem nenhuma surpresa, a maioria barbeiros), que protegem o bairro de São Cristovão da atuação de criminosos, valentões e capoeiras mal intencionados. Eles dominam o estilo das navalhas ocultas, que permite esconder lâminas pelo corpo e alternar ataques de contusão e corte com velocidade impressionante. Suas cores são o prateado (representado pelo cinza) e o vermelho.

Purificados: uma Malta pequena e misteriosa, cujos membros se dedicam fervorosamente aos Santos ligados à pureza. Dizem que eles detêm dons místicos poderosos, sendo capazes de perceber espíritos à sua volta e desferir golpes que ignoram a resistência dos oponentes. Em contrapartida, mantém uma rigorosa ascese, abstendo-se de carne vermelha, bebida alcoólica e sexo. São muito serenos e centrados, não se envolvendo com crime ou boemia. Sua cor é o branco.

Becas: são boêmios irresistivelmente belos e elegantes, embora muitos deles adotem um estilo “retrô” (datado do Segundo Reinado ou da República Velha) de se vestir. Apesar de toda a sua etiqueta, muitos deles se envolvem com extorsão e a prostituição, embora evitem a violência aberta e explícita. São muito luxuriosos. Seu estilo de capoeira é a ginga&elegância, cujos movimentos rápidos e belamente harmônicos confundem ao adversário e adaptam-se a qualquer terreno. Suas cores são o preto e o cinza.

Navalhadas: rivais ferrenhos dos Barbeiros, tanto por dominarem o mesmo estilo (navalhas ocultas) quanto pelo domínio de São Cristovão e adjacências. Cruéis, sanguinários e um tanto sádicos, praticam extorsão e cafetinagem. Sua cor é o vermelho.

Filhos de Alijenu: esta Malta é uma das mais temidas do Rio de Janeiro, com envolvimento direto em crimes de extorsão, domínio sobre a prostituição e Jogo do Bicho. Seus lutadores são violentos e poderosos, dominando o estilo do quebra-osso, onde os golpes são cirurgicamente direcionados para causar lesões graves e incapacitantes. Suas cores são o vermelho e o preto.

Anjos Negros: são capoeiras confessamente católicos (ao contrário das demais Maltas, normalmente seguidoras dos cultos afros), dedicados à caridade e à proteção do bairro onde vivem, a Penha. Dominam o estilo do Salto em Pé, sendo os mais ágeis e acrobáticos entre todos os capoeiras. Suas cores são o azul e o branco.

Birosqueiros: trapaceiros, cafetões, jogadores, embusteiros, golpistas e mentirosos fazem parte desta Maltas, especialista em manha e em golpes sujos e traiçoeiros. Nenhuma Malta confia neles, e trata-se muito mais de uma confraria de ladrões do que de um grupo organizado.

Obás: os mais antigos e veneráveis dentre todos, existentes mesmo antes do conceito de Malta se difundir. Suas origens remontam ao período colonial. São os guardiões das tradições da capoeira e, dizem, de alguns artefatos poderosos ligados a história dos negros e sua religião. Seu estilo de se vestir é único, uma mistura exótica da moda do fim do século XIX com as indumentárias dos reis e rainhas africanos, sendo é a única Malta que não aceita brancos nem índios em suas fileiras. Seu estilo de capoeira é o majestade, no qual o capoeira é levado ao extremo de sua técnica causando efeitos máximos no ataque, defesa ou no dano. Eles também são mestres no uso de armas ligadas à capoeira, como tridentes, bastões, correntes e makeleles. Os Obás não têm cores que os identificam: isto é considerado por eles uma marca grosseira das demais maltas (aliás, eles nem se consideram uma malta)

Personagens

Eis alguns dos personagens utilizados nesta trama, que servem como exemplo das múltiplas possibilidades da capoeira neste sentido. Aqueles marcados com um asterisco (*) são personagens de jogadores.

Toinho*: dono de um bar na rua das Margaridas, em São Cristovão, Toinho obteve grande respeito ao usar o prédio abandonado onde se localiza seu estabelecimento (a única parte ativa do imóvel) como esconderijo para qualquer capoeira fugitivo da polícia ou da opressão das autoridades. Sua capacidade diplomática e zelo em esconder companheiros de arte acabaram tornando a Rua das Margaridas um local neutro e pacífico para todas as Maltas, administrado por Toinho e endossado pelos Mestres de Capoeira. Toinho tem um estilo de se vestir semelhante ao do Papa Meia Noite, do filme Constantine, e luta no estilo cospe fogo.

Mãe Luwana d’Ezilily*: Luwana praticamente nasceu e se criou dentro de um Barracão (Casa de Santo, onde se praticam as religiões afro) sendo iniciada quando criança e consagrada sacerdotisa muito jovem, aos dezessete anos. Sua Santa protetora é Ezilily, patrona da noite, da sexualidade, dos encantamentos e da boêmia, o que contrasta muito com sua aparência e jeitinho inofensivo de menina: o impacto das duas maneiras de ser quando ela é “incorporada” pela entidade chega a assustar. A aparência angelical da menina esconde uma mulher sagaz, luxuriosa e capaz de vários engodos para conseguir o que quer. Luwana é uma feiticeira poderosa, sendo capaz de conjurar espíritos para auxiliá-la, realizar encantamentos e praticar adivinhações através de jogo de cartas e de búzios. Ela sempre se veste com vestido branco de rendas e anáguas completado com guias e chalés nas cores vermelha e preta, adornada com patuás, figas, talismãs, galhos de arruda medalhinhas. A jogadora que a criou gosta de ilustrar sua aparência pela atriz Sheron Menezes.

Micaela: abandonada quando recém nascida para morrer na rua, Micaela foi adotada pelos Navalhadas num dos poucos gestos de compaixão do Mestre Cicatriz. Ela cresceu em meio à gangue, tendo os demais como irmãos e Cicatriz como pai, aprendendo desde jovem a capoeira e o estilo das navalhas ocultas. Sua especialidade é arremessar lâminas, e luta com velocidade espantosa. Aos dezessete anos, parece a típica suburbana: morena jambo de cabelos longos, pele bronzeada, brinco de argola, pulseiras de ouro, shortinho, top, colete e óculos escuros.

Cicatriz: o Mestre de Micalea e de todos os Navalhadas. Sua aparência é terrível, com cicatrizes por todo o corpo como se ele tivesse sido totalmente costurado, e às vezes, sem razão aparente, emite um semblante terrível de dor. É um dos capoeiras mais poderosos que existe, e seus ataques são tão velozes que as luzes das lâminas que usa produzem feixes de luz em sua volta.

Murreba: é um dos capoeiras mais temidos da noite carioca pelos seus quase dois metros de músculos e por dominar o estilo quebra osso dos Filhos de Alijenu. Ele é muito feio: calvo, com barba longa, tem poucos dentes e estes são amarelados. Gosta de andar sem camisa, exibindo sua enorme força física, e seus golpes são capazes de gerar pequena sondas de choque, distribuindo o dano à sua frente.

Piscada*: vindo da Bahia, Piscada veio ao Rio desejoso de enfrentar os lendários mestres da Capital Federal. Este apelido vem de sua relação com Aziza, a entidade das matas, do clima e da caça: ao ser atingindo por um raio quando criança, o pai de Piscada fez um pacto com ela para que salvasse seu filho, entregando a vida dele em troca disto. Por conseqüência deste pacto, Piscada é capaz de mover-se a uma velocidade sobrenatural e canalizar descargas elétricas nas lâminas que usa para lutar, mas, como seqüela, perdeu a visão de um olho. É distraído, mas tem um coração muito bom.

Ivan e Ivana: um casal de irmãos capoeiras que freqüentam apenas os bares e casas noturnas mais finos, vestindo-se sempre em trajes de gala. São exímios lutadores e fazem parte da Malta dos Becas. Ambos loiros e muito belos, Ivan é um homem sedutor e meticuloso, enquanto Ivana uma bela mulher de sorriso dissimulador, que ri num tom baixo e intrigante enquanto luta com seu vestido e salto alto (obs: me inspirei na Mature, de The King of Fighters, para criar esta personagem).

Lecí de Noruh: a mais jovem Mestra e líder de Malta do Rio de Janeiro, Lecí de Noruh é uma linda morena de lábios avermelhados e cabelos negros que costuma sempre deixar soltos. É também uma sacerdotisa afro, cujo santo protetor é Noruh (patrono das trapaças e dos engodos). Por isso, além de exímia capoeira, domina perigosos poderes de ilusão. Normalmente ela se veste como uma sacerdotisa (vestido de rendas e anáguas, patuás, chalés e guias de variadas cores e turbante), mas, quando preparada para lutar, veste um terninho, chapéu panamá, salto alto e uma saia curta de pregas curtinha (com um short por baixo), todas as peças na cor vermelha.

Manoel Preto: um dos lendários mestres dos Barbeiros, que vive honestamente como músico. Manoel Preto é elegante, sedutor e polido, vestindo-se de forma impecável. Ele usa uma bengala com uma lâmina retrátil, arma típica dos capoeiras, e é letal no uso desta e outras lâminas em ataques seqüenciais devastadores. Apesar disto, é um homem amável e educado.

Márcio Majaliwa*: outrora um uma criança envolvida com pequenos crimes e capoeira, mudou de vida após a morte de uma menina que com ele andava. Acolhido por um Mestre de Capoeira, aprendeu a controlar seus ímpetos e, auxiliado por um benfeitor, teve a raríssima oportunidade de estudar e chegar até a faculdade de Direito. Como advogado, ele trabalha duro para defender os negros e os pobres. Majaliwa é um negro muito bonito e elegante, diplomático e de modos polidos, mas também um capoeira bem treinado no estilo ginga&elegância.

Mãe Tahula de Damballaeh: poderosa, sábia, caprichosa e geniosa, Mãe Tahula de Damballaeh é uma das mais respeitadas sacerdotisas do Brasil. É uma mulher branca de cabelos raspados e muitos brincos e piercings no rosto, sempre vestida como sacerdotisa (onde todas as peças e as guias são de um branco puríssimo). Seu gênio e aparente arrogância escondem uma mulher muito benigna e caridosa: ninguém passa fome ou fica sem ter o que vestir próximo de Tahula. Ela também é a mãe se santo de Luwana.

Francisco: um malandro safado e marmoteiro, sempre metido em encrencas. Ele teria sido amaldiçoado por Tahula, obrigando-o a proteger secretamente as crianças e vigiar os planos de Lecí de Noruh, mas também mantém algum tipo de acordo com o pai das crianças Marta e Maria, desconhecido dos demais personagens. Sua aparência idiota (cabelo castanho de topete, terno um tanto desarrumado e um sorriso bem imbecil) esconde alguém com muitos e imprevisíveis truques na manga!

Ana Maria Cecília: jovem enfermeira, mulher negra de beleza sutil. É uma mulher trabalhadora, honesta e caridosa, tomando Marta e Maria para criar após a morte da mãe delas. É também uma promissora curandeira, dominando o uso de vários remédios farmacêuticos ou naturais, além de saber manusear venenos (o que normalmente recusa-se a fazer).

Detetive Josefo: investigador ligado ao setor de controle a vadiagem e prostituição da Polícia Civil, Josefo aproxima-se de Luwana fingindo precisar dela para fazer um encantamento que trouxesse sua amada de volta. Entretanto, este é somente um engodo para manter a polícia informada acerca dos recentes acontecimentos envolvendo os capoeiras.

Mestre Batista: o líder dos Becas, homem negro sempre vestindo ternos caros desenhados exclusivamente para ele. Também gosta de anéis e jóias caras. Ama a luxúria e a boêmia, e embora não lhe agrade a idéia de ter que raptar as crianças Marta e Maria, fará todo o possível para obter o segredo da profecia.

Mestre Alambique: líder dos Pés de Ouro e mestre de Toinho, homem mulato de meia idade que passa todo o dia saboreando vários tipos de cachaça. Ama a boemia, mas não aceita o uso criminoso da capoeira. Como lutador, dizem que ele é capaz de gerar um inferno em chamas enquanto ataca seus inimigos com golpes precisos e letais.

Mestre Onofre: líder dos purificados, homem negro e gentil de idade avançada. Passa os dias diante de um cemitério sem portão nos cafundós de Nova Iguaçu, como se vigiasse algo lá dentro. Ele não se envolverá na guerra, nem sua malta, mas oferece conselhos úteis.

Conclusão

Não é possível tratar de um tema tão rico no espaço que disponho aqui. Além disso, neste artigo não consta nem metade das coisas relativas ao cenário que jogo com meu grupo. Apenas quis demonstrar, assim como nos artigos sobre o Barroco (https://www.rederpg.com.br/wp/2012/05/elementos-brasileiros-para-jogos-de-rpg-o-barroco/) e Todos Querem o Malandro (https://www.rederpg.com.br/wp/2011/10/e-possivel-elementos-brasileiros-para-jogos-de-rpg/) as possibilidades da temática para cenários e personagens de RPG. Há muito a se explorar, e a capoeira pode ser um manancial de idéias e pano de fundo para inúmeros personagens.

Por Silva Pacheco
Doutorando em História (PPGHC-UFRJ) e
pesquisador nas áreas de religião, história do Brasil, polícia e inteligência.

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3 Comments
  1. Caramba, excelente artigo. Parabéns.
    Gosto muito de mestrar em cenários nacionais, por já serem bem familiares aos jogadores e porque gosto de valorizar a cultura nacional.
    Novamente, meus parabéns! Excelente!

  2. Abrigado Andreoli. Eu também gosto muito de cenários nacionais, e invisto bastante neles.

    Espero que o pessoal goste.

  3. Muito interessante esse cenário! Algo nacional desse calibre é raro de ser ver.

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