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GELO E SANGUE – Prólogo – O Vilarejo

A lua cheia estava dourada como açafrão. Ela deslizava preguiçosamente pelo firmamento ocidental e perscrutava o mundo gelado cá embaixo por entre nuvens cinzentas e carregadas. No outro extremo do céu, um fulgor pálido como aço se derramava por entre as nuvens.

Outro dia despontava.

Aninhado no coração da antiga floresta de pinheiros, o vilarejo estava silencioso como a morte sob um manto de neve. Uma brisa solitária pairou desolada através das ruas vazias, assoviando uma canção triste. Fez balançar a desfolhada olaia da praça da igreja e a placa de freixo da estalagem em frente. Um pingente de gelo destacou-se da cumeeira do estábulo e Wendler se sobressaltou com seu tilintar vítreo ao se estilhaçar num seixo no chão ao seu lado. Ele fitou os caibros do beiral e as afiadas presas de gelo que pendiam por sobre a sua cabeça e afastou-se de costas. Caminhou para a praça com passos trôpegos e assustados, olhando ao redor.

— Não há ninguém — balbuciou. — Todos se foram.

A brisa sussurrou ao seu ouvido como um espectro agourento e ele sentiu um arrepio frio percorrer sua espinha. Procurou à sua volta, mas não havia nada além das trevas gélidas da manhã. A brisa sussurrou às suas costas novamente e ele girou nos calcanhares, alarmado.

— T… Tem alguém aí? — perguntou com as mãos enluvadas tateando em busca duma faca que trazia à cintura. Sacou a arma e a brandiu desajeitadamente.

A brisa gargalhou num murmúrio zombeteiro.

Wendler estremeceu, engoliu seco e olhou à sua volta novamente. A silhueta da igreja se erguia à frente, negra contra o céu oriental que começara a desbotar com o dia que rebentava. Sem pensar duas vezes, ele disparou em direção ao templo. Seus pés afundavam na neve espessa e seu hálito quente e ofegante criava névoas brancas no ar. Uma traiçoeira camada de gelo havia se formado nos degraus de pedra da escadaria, sob a neve que se acumulava. Ele escorregou três vezes antes de chegar ao topo, devolveu a faca ao cinto, fechou as mãos ao redor das grandes aldravas de ferro e empurrou com força a porta dupla. Ela era habilmente esculpida em carvalho, reforçada com ferro, e rangeu pesadamente ao se abrir. O vento adentrou com avidez, como o sopro de um dragão branco, esparramando neve pelo assoalho de tábuas.

— A… Alguém? — sua voz ecoou pela penumbra cheia de ecos.

Na escuridão do altar, uma grande sombra se remexeu, murmurando agitada.

Wendler engoliu seco novamente e caminhou adiante com cautela. As solas de suas botas ressoavam solitárias pela igreja.

— C… Com licença — ele disse, e o vulto se contorceu em resposta. — Aonde foram todos?

Um par de brilhantes olhos vermelhos se ergueu para olhá-lo.

Wendler parou.

— O v… Vilarejo está… — sua voz ficou presa na garganta.

Então outros olhos também se ergueram curiosos, cintilando com um brilho sangrento. A grande sombra era agora um exame de pequenos vultos de olhos rubros, aninhada nas trevas do altar. Wendler deu um passo para trás, subitamente amedrontado com aquela aberração, e tropeçou num pedestal de ferro. O pedestal oscilou, dançou, balançou… Pelos deuses, não!… E então caiu. O ruído da queda trovejou ensurdecedor, e a grande sombra se agitou selvagemente, e se desfez numa revoada de asas negras e bicos aguçados, que voaram em sua direção.

— Aaahhh… — Wendler se encolheu assustado com os braços ao redor da cabeça.

Sentiu os vultos trombando contra seu corpo ao passarem voando, crocitando exasperados, rumo ao vilarejo gelado lá fora. Ele permaneceu encolhido até que não os ouvisse mais. Então se aprumou com medo, olhando em volta, trêmulo. Mesmo sob todas aquelas peles, sentia o coração bater frenético no peito, enquanto um calor molhado lhe escorria pela virilha. Fechou os olhos, envergonhado de si mesmo. Eram apenas corvos, afinal. Levantou a cabeça e fitou o altar sombrio no fundo da igreja com suspeição.

Outro vulto jazia caído atrás do púlpito.

Wendler olhou ao redor, mordeu o lábio inferior e inspirou profundamente.

— Está tudo bem?

Aguardou apreensivo por um instante, mas não ouviu resposta alguma. Então caminhou nervoso, hesitante. Aproximou-se do breve lance de degraus que subia até o altar, olhou por sobre o ombro e começou a subir cautelosamente. Atrás do púlpito, a figura estava imóvel. Wendler procurou novamente a faca que trazia a tiracolo.

— Pelos deuses!

O azedo da bile lhe subiu à garganta e ele se precipitou para frente, urgente para despejar o jantar da noite passada no chão, engasgando e tossindo. Pelos deuses! Pelos deuses!… O capelão! Wendler apressou-se para se erguer, aos tropeções, e se afastou do que sobrara do banquete dos corvos. Sentiu-se fraco, trêmulo, enjoado, desorientado. Cambaleou de volta à porta principal se escorando nos bancos, apoiou-se na porta, fechou os olhos e respirou profundamente o ar frio da manhã.

O que houve? Onde estou?

Tentou se lembrar do que acontecera na noite passada. Lembrava-se de vozes exaltadas, de uma discussão, de gargalhadas e de uma cicatriz. Uma cicatriz retorcida pulsando rubra na face de um guerreiro feroz. Ah! Sua cabeça então revolveu em vertigens. Levou a mão enluvada à têmpora enquanto a terra girava sob seus pés. Apoiou-se no batente da porta até a tontura se aplacar e respirou fundo. Tentou se lembrar de mais alguma coisa, mas… Nada. Lembrava-se apenas de ter acordado há pouco, amarrado a uma viga no estábulo, sentado, com a cabeça e os pulsos doloridos. A corda que o amarrava estava frouxa e, à sua frente, uma faca cravada no chão duro recoberto de palha reluzia a alvorada iminente.

Ouviu então um ruído na praça abaixo e abriu os olhos.

— Foi daqui que veio o grito — uma voz grave ressoou.

Corvos crocitaram do alto da torre do sino e Wendler se esgueirou apavorado de volta às sombras que descansavam no interior da igreja. Sob aquele manto de trevas, ele abaixou-se e se pôs a observar.

— Ah, Aeron, está ouvindo coisas — soou outra voz lá embaixo. — Não há ninguém na vila além de fantasmas. Vamos voltar.

— Enfrenta batalhas perdidas, intrépido como um javali — observou o tal Aeron com sua voz retumbante, — mas a escuridão insiste em lhe roubar a coragem. O que acontece, Agwulf?

— Enfrento homens em couro fervido e aço nas mãos. Homens como eu e você. Não há nada que eu possa fazer contra fantasmas, no entanto — uma brisa soprou e o homem prosseguiu: — E é na escuridão, Aeron — tinha voz carregada de um temor respeitoso agora, — é na escuridão que reina a morte — disse e cuspiu para afastar o mal.

— Eu mijo na cara da morte, Agwulf — Aeron rosnou. — Agora deixe de tolices! Tenho certeza que escutei alguém. E veio daqui.

Lá embaixo, sob as trevas da antemanhã, a olaia da praça era um espectro retorcido, com dedos esqueléticos roçagando o céu cinzento. Os edifícios ao redor, um amontoado de sombras severas se acotovelando curiosas. Por sobre eles, a lua cheia pairava esplêndida, dourada flutuando entre as nuvens funestas.

A silhueta de dois cavaleiros surgiu em meio às trevas. Cavalgavam dois corcéis austeros. Eram sombras cavalgando sombras.

— Veja — indicou Aeron. Ele apontava para um rastro de pegadas frescas por sobre a neve. Seguiam do estábulo até a igreja.

Wendler estremeceu.

— É um templo daquele deus pastor das terras quentes pra lá da Nandrûnia — observou Agwulf.

— Alguns senhores de Dulbärr adotaram essa religião — explicou brevemente o primeiro, com desprezo. — Vá por trás da igreja.

— É melhor não nos separarmos — Agwulf se apressou em opinar.

Mas, prontamente, Aeron o reprimiu:

— Poupe-me, Agwulf. É um homem ou um rato? — e não esperou a resposta. — Vá!

Apressadamente, Wendler tropeçou de volta às trevas que preenchiam o altar e seus arredores, escondeu-se atrás dos bancos da primeira fila e se pôs a espiar a porta de entrada. Flagrou-se empunhando a faca que trazia no cinto e sentiu-se ridículo. O que iria fazer? Vou desafiar um cavaleiro armado com uma espada portando uma faca? Assim pensou, mas não abandonou a arma. Brandiu-a firmemente, ao invés disso, e ficou à espreita até ouvir a aproximação dos passos vindos do lado externo da igreja. Então se abaixou, encolheu-se e fechou os olhos, segurando a faca contra o peito.

— Quem está aí? — a voz do cavaleiro ecoou retumbante pela igreja.

Wendler cerrou as pálpebras com força quando ouviu o sibilar de uma lâmina sendo arrastada para fora da bainha. Um silêncio pesado se prolongou, até que ouviu um passo… Depois outro… E mais outro. Lenta e cautelosamente, os passos se aproximavam. O baque surdo dos passos e o ruído suave do aço e do couro da armadura de Aeron se roçando preenchiam a escuridão.

E se são amigos? Wendler se perguntou. Não, descartou imediatamente. Se fossem, não estariam tão cautos. Se tivessem bons intuitos, teriam anunciado suas intenções. Wendler abriu os olhos, decidido, e espiou por sobre o banco. Esperava que as trevas o abrigassem. O cavaleiro era uma silhueta de sombras, alta e de peito e ombros largos, a meio caminho do altar e a meio caminho da porta. Wendler abaixou-se novamente. Talvez eu consiga me esgueirar por trás dos bancos, contorná-lo, correr até o cavalo e galopar para longe daqui, ele conjeturou. Espreitou novamente o cavaleiro. No entanto, estava nervoso demais, e desta vez fez um pequeno ruído ao apoiar os cotovelos no banco. No silêncio plácido da manhã, o pequeno ruído ressoou como um bumbo de guerra.

Os passos se contiveram imediatamente e a voz do cavaleiro trovejou:

— Apareça agora ou eu o enforcarei em suas próprias tripas!

Wendler enregelou-se. O coração repicava exacerbado no peito. Não há outra forma, Wendler. Mostre-se ou sua morte certamente será lenta. Sob seu corpo, suas pernas estavam fracas e tremiam incontrolavelmente.

Maldição!

Wendler então se levantou submisso.

— Senhor — balbuciou.

O cavaleiro brandia sua lâmina em riste.

— Solte já a adaga — exigiu após um tempo.

— Não pretendo criar probl…

— Solte-a — Aeron vociferou. — Já!

— Senhor…

Então o estrondo de uma porta irrompeu além do altar e Wendler se virou sobressaltado. Uma silhueta baixa, corpulenta e barbuda, feita em trevas, caminhou à vista, contornando o corpo caído no altar com desconfiança.

Agwulf, notou Wendler.

O outro cavaleiro deu um passo para trás, enojado.

— O que, pelos sete infernos, está havendo, Aeron? Há um homem morto aqui. Ou pelo menos o que sobrou dele — cuspiu.

— Foi você quem o matou, rapaz? — Aeron perguntou.

— Não, senhor. Quando cheguei, os corvos devoravam sua carne. Era o capelão do vilarejo — acrescentou cabisbaixo.

Aeron parecia desconfiado.

— Por que não deixou a vila com os outros?

— Fui deixado para trás, amarrado, senhor. Não sei o que está havendo. Não me lembro de nada.

Um lobo uivou ao longe enquanto Aeron estimava a veracidade daquelas palavras.

— Virá conosco — decidiu, enfim. — Não tente nenhuma tolice, rapaz. Agora solte a arma.

Wendler meneou a cabeça, concordando, e abaixou a faca. Tremia sob seus agasalhos. Um pouco, em função das calças molhadas; um tanto, em função do medo. Em sua mente, um turbilhão de perguntas rodopiava; no ventre, o estômago vazio se contorcia enjoado. Quem são estes homens? Farão de mim um prisioneiro? Aonde me levarão? A espada de Agwulf chiou ao deixar a bainha e Wendler se virou para o altar. A faca ainda estava em suas mãos. Por favor, senhores, Wendler pensou, mas antes que pudesse articular as palavras, viu a sombra que era Agwulf escorregar e cair ruidosamente, rolando pelas escadas do altar. Aeron se sobressaltou, Agwulf gemeu e Wendler agradeceu aos deuses por sua sorte —reencontrou as pernas sob seu corpo, rodeou rapidamente Agwulf, que estava esparramado aos pés da escadaria, praguejando, e disparou. Subiu os degraus do altar e correu para a porta nos fundos.

— Seu imbecil — ouviu Aeron vociferar às suas costas. — Levante-se!

Wendler atravessou o breu de dois pequenos aposentos ligeiro como um camundongo. Nos seus calcanhares, ouviu Aeron em seu encalço. A porta dos fundos dava para o patamar duma estrutura de madeira com um pequeno lance de degraus cobertos de neve. Na rua estreita, o cavalo de Agwulf aguardava amarrado a um carro de boi que jazia tombado, abandonado e encoberto com neve. Rápido! Rápido! Rápido! Wendler saltou os degraus e correu até o cavalo, um alazão-queimado, que trocou passos agitados com sua aproximação. Com a faca, ele cortou os arreios amarrados ao carro de boi e olhou por sobre o ombro no momento em que Aeron surgia na porta. Saltou para o dorso do animal, puxou as rédeas para fazê-lo girar nos cascos.

— Não conseguirá ir muito longe, seu tolo — bradou Aeron, colérico. — Pare já!

Wendler agarrou-se desajeitadamente ao musculoso pescoço do azalão quando ele começou a trotar. Então olhou para trás novamente, bem a tempo de ver Agwulf surgir à porta, furioso.

— Eu vou assá-lo num espeto, seu covarde! — tinha o rosto e a barba emporcalhados de vômito.

Wendler sorriu da situação, pois não havia tempo para se intimidar com ameaças. Contornou a igreja e encontrou o cavalo de Aeron aguardando junto à escadaria principal. Galopou até ele. Percebeu que era uma égua, na verdade, negra como a noite.

— Eu sinto muito, garota — sussurrou, sacando do cinto sua faca.

Num movimento fluido que quase o fez ir ao chão, Wendler enraizou a arma no pescoço do pobre animal. Alarmada, a égua disparou para longe, libertando a lâmina num solavanco, fazendo o sangue quente jorrar rubro na neve imaculada.

Wendler deu meia volta com sua montaria, agitada com o cheiro do sangue, no momento em que os dois cavaleiros se aproximavam correndo, afundando os pés na neve.

— Vou encontrá-lo, seu rato imundo — prometeu Aeron irado. — Mantenha sempre o olhar às suas costas! Vai se arrepender de ter sido um tolo! Eu prometo!

Wendler olhou por sobre o ombro pela última vez. Sentia-se tolo, de fato. Sentia-se um covarde também. Ao menos, sou um covarde vivo, tentou se convencer. Mas por quanto tempo viverei? Dispensou aqueles pensamentos abanando a cabeça. Atravessou as ruas vazias e desoladas, galopando por entre os edifícios de pedra negra e as cabanas de madeira, e se aproximou dos portões da paliçada de madeira. Além deles, a floresta aguardava envolta em sua capa de neve e trevas. A estrada era uma trilha pálida que invadia a escuridão.

— Que os deuses me ajudem — balbuciou e galopou adiante.

Uma coruja piou na escuridão da mata antiga, folhas secas flutuaram no ar e a brisa gargalhou à sua volta num murmúrio zombeteiro. Então as trevas o envolveram num abraço gélido como a morte.

Continua…

– Rafael Quadros

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