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UED – Você é a resistência (resenha)

“Não acaba enquanto não termina”. Uma frase extremamente clichê, mas uma boa referência ao que significa teimosia, persistência, e espírito de batalha.

Para ser um personagem de UED – Você é a Resistência, você vai precisar de tudo isso… aliado a uma boa dose de sorte… e muito, muito bom senso ao administrar seus recursos.

Pois UED, mais do que muitos RPGs, é isso: um jogo de administração de recursos e pensamento estratégico.

O JOGO

“Pode ter certeza que estou mentindo para mim mesmo. Eu minto para mim mesmo todo dia, às vezes a cada hora de cada dia. E às vezes não é o bastante, porque se as pessoas acharem que não existe esperança, então é melhor para elas acreditarem que eu acho que existe.”
– Tom Mason, Falling Skies

UED – Você é a Resistência é um RPG brasileiro lançado pela Editora Unza e foi escrito por Fabiano Saccol e Julio Matos. Ele se passa em um cenário pós-apocalíptico do melhor estilo: TUDO deu errado. Uma invasão alienígena destruiu virtualmente toda a tecnologia na Terra; em meio à batalha desesperada pela sobrevivência, uma nova Era Glacial atingiu o planeta, tornando o desesperador em impossível. Sem tecnologia, regredindo quase a uma idade da pedra, a Humanidade, porém, persevera… e se adapta.

Aglomerados (como são chamados os grupos de humanos que conseguiram se juntar para sobreviver) dependem de tecnologia alienígena roubada, e da genialidade dos poucos técnicos e cientistas que restaram, além da bravura de um grupo de elite conhecido como Runners: pioneiros em exploração e saque. Isolados, com poucos recursos, precisando lutar a cada dia simplesmente para conseguir se aquecer, os Aglomerados buscam desesperadamente adquirir comida, energia, água, roupas… e armas. Afinal, não estamos sozinhos… e temos inimigos tão terríveis quanto os alienígenas nos grupos de Saqueadores humanos que reverteram à barbárie e ao canibalismo, preferindo tomar do que criar.

Em tal situação, cada bala conta, cada uniforme, cada reparo, cada pessoa, tem um valor insubstituível. Nada pode ser desperdiçado. Ninguém pode ficar para trás. Uma vida é a diferença.

O SISTEMA

“Isso é guerra. Não podemos pensar com o coração, temos que pensar com a cabeça.”

O sistema é baseado em uma série de valores numéricos baseados em tipos de dado (que refletem a qualidade) e um número associado a esse dado (refletindo quanto disponível há daquele recurso). Por exemplo, um Gerador de Energia d12 é melhor que um d8, enquanto 2d10 de munição para rifle reflete dois usos daquele tipo de munição.

Os Recursos existem como um valor absoluto do Aglomerado, e valores individuais dos Runners (os Personagens de Jogadores); quão bem sucedidos os Runners são define quanto de Recursos eles conseguem gerar ou poupar para o Aglomerado, assim como sua Glória pessoal é definida pela sabedoria em administrar os Recursos utilizados e a obtenção de mais.

O Sistema reforça bastante o desespero da situação humana, já que o Aglomerado depende de Recursos que são consumidos automaticamente com o tempo (Geradores de Energia não podem ser mantidos indefinidamente, comida, água e roupas escasseiam com o uso pelas pessoas, e munição e armas são utilizados tanto na obtenção de recursos como na defesa do Aglomerado, mesmo quando os Runners dos PJs não estão em missão).

Um fator interessante é que armas e veículos, por exemplo, geram valores diferentes. Uma pistola, por exemplo, com valor de dano d6, consome menos de sua munição (digamos que um ponto de Recursos/Munição para pistola permita ao personagem dar até 6 tiros), enquanto um rifle de caça sniper com valor de dano d10 consumiria muito mais (cada ponto de recurso daria o direito a um único disparo), refletindo a dificuldade crescente de produzir e manter itens de qualidade superior. Uma série de eventos aleatórios, como ataques de animais selvagens, pilhagem de outros grupos humanos, descoberta por um grupo de extermínio alienígena são apenas exemplos de como tornar uma situação muito ruim, em algo quase insuportável.

O sistema, desenhado da forma como foi reflete perfeitamente a tensão de se ter que fazer escolhas que pode custar vidas… e de ter pouco tempo para se arrepender delas.

O LIVRO

O livro em si lembra um pouco o que ele se propõe; pequeno, capa mole, econômico. A linguagem dele é simples e direta, com ilustrações igualmente minimalistas e eficientes. Se por um lado, o fator “role” parece ficar em segundo plano diante da enormidade de explicações técnicas (ocupando praticamente todo o livro), ele está muito presente nos minicontos de abertura dos capítulos, nas divisões de ranks das diferentes profissões, e em um detalhe importantíssimo: em épocas como essa, onde o desespero é a regra, o herói é literalmente a última esperança… e mesmo no fracasso um personagem pode gerar algo.

Por Rafael Ramos Blanco
Equipe REDE
RPG

NOTAS (de 1 a 6)
Layout/Arte:
4 (Não é o fator mais relevante do jogo, sendo prático e minimalista, mas satisfaz, ficando longe de ser feio ou desnecessário. A escolha de cores – preto, branco, cinza e um ocasional azulado – cria um certo tom “invernal” que casa bem com a ideia do jogo.)
Texto: 4 (Bom em suas descrições, muito bom na exemplificação de clima do jogo, mas um pouco confuso no tocante ao sistema. A tradução dos títulos de músicas também deixa algo a desejar, podendo ter uma nota de editor/tradutor para quem quiser saber quais músicas são as originais, e de quem.)
Conteúdo: 5 (Com certeza o melhor aspecto do jogo. Personagens que são naturalmente trágicos em um cenário virtualmente sem esperança, ironicamente, criam um forte senso de grupo, e viram um meta exemplo sensacional do que um pequeno bando de pessoas pode conseguir.)
NOTA FINAL: 4

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Como assim um RPG que não usa dados?!

Sim, a Devir ainda publica RPG, mas quem se importa com isso?