in ,

Crônicas de Aurínea: Aurora

– Este mundo está podre! – Disse Dária enquanto observava o sangue desaparecer por entre as frestas do assoalho de madeira antiga – Este mundo está podre!

***

[E]ra o fim da tarde e Úster, o grande sol escarlate, caminhava vagarosamente rumo ao horizonte anunciando que em breve a noite e as estrelas tomariam o mundo. Era o último dia de Ásturas, o dia dedicado a lua, e como de costume as portas do aposento se abriram pouco antes do grande sol tocar o horizonte com as serviçais trazendo água quente para encher a grande tina de madeira assim como toalhas e perfumes. Dária não se virou, preferiu vislumbrar o fim daquele dia através da janela, seu único meio de acompanhar as mudanças do mundo. Seu coração estava pesado, muito mais pesado do que costumava ficar. Uma parte dela já havia se acostumado com as provações que se seguiriam naquela noite, mas outra sempre se sentia inquieta como se fosse da primeira vez.

– Vamos embora! Saia logo daí!

O corpo de Dária se retesou com a voz trovejante. Era Ald, a mais antiga das serviçais da academia e também a responsável por manter tudo em pela ordem. Ela era uma mulher rude, de poucos modos e que nutria um estranho prazer em gritar e perseguir aqueles ao qual odiava. Todos na academia temiam-na e ninguém em sã consciência ousava desafiá-la. Sua palavra, na ausência do mestre, era lei e dentro daquelas muralhas Ald frequentemente mostrava-se uma déspota.

– Está surda ou está ficando idiota? – Repetiu novamente com seu costumeiro tom rude.

Dária deu um longo suspiro e se despediu do sol. Os últimos feixes de luz tremeluziam por sobre os altos muros que circundavam o pátio como grandes braços acenando em um sinal de adeus. Talvez seja a última vez que sinto o calor do dia, pensou consigo. Ela se distanciou da janela e caminhou pelo quarto em direção a Ald. Era clara a impaciência da velha em seu semblante enrugado.

– Está ficando idiota? Preciso bater um pouco nessa sua cabeça para fazê-la funcionar?

Muitas coisas passaram pela mente de Dária. Ela pensou em tantas respostas que poderia proferir que sentia ser um desperdício não pode usar todas naquele momento, mas o que Ald tinha de ranzinza tinha o dobro em esperteza e aquilo era sem dúvidas um dos seus joguinhos. A velha sempre buscava por um motivo para dar uma surra em Dária quando possível. Às vezes por causa de um risinho, outras por causa de uma resposta atravessada. Ald não tratava muito diferente as demais mulheres da academia fossem elas livres ou não, mas a governanta nutria um ódio especial por Dária que por sua vez fazia questão de sempre irritá-la sempre que possível.

– Por que você não respondeu quando lhe chamei?

– Não me lembro de ser obrigada a lhe responder – disse me Dária em irônico.

– Você é muito mal-educada mesmo! Não sei porque o mestre não lhe vendeu ainda!

– Deve ser porque eu valho muito para ele, ao contrário de você.

Ald deu um longo suspiro enquanto mordia seu lábio inferior. As criadas que estavam preparando o banho ficaram paralisadas com a dúvida se deveriam intervir ou não.

– Você é uma ingrata! Ele lhe tirou de uma vida de miséria, deu lhe um teto e tudo para que? Para você não obedecer a ordens? Para você tentar fugir toda vez que ele lhe dá liberdade? – Ald estava possessa, seus lábios tremiam de raiva enquanto falava.

– O que é isto que você chama de liberdade? Ficar confinada neste quarto e ter que me prostituir? Se você acha tão bom assim vá em frente! Tome meu lugar e viva está maravilhosa vida!

– Eu devia lhe ensinar uns bons modos garota! Eu deveria te amarrar no centro da praça e mandar o capataz te chicotear até não sair mais sangue das suas costas.

– E porque você não faz isto? – Disse Dária em tom de deboche – Ah! Me esqueci! Você é uma escrava! Tão escrava quanto eu!

Ald levantou a sua mão e Dária sentiu seu corpo gelar. Ela sabia que a velha não ousaria lhe bater naquele momento. Um simples hematoma por mais insignificante que fosse poderia deixar um dos clientes do mestre insatisfeitos e não havia nada que irritasse mais ao mestre do que as reclamações de um cliente, mas ao ver a governanta com o punho levantado tão próximo do seu rosto, Dária teve medo de que Ald tivesse esquecido disto. A governanta urrou para aliviar sua frustração e baixou sua mão.

– Saiam todas logo daqui! – Ald gritou para serviçais que prontamente trataram de fugir do alcance da sua ira – E você, sua ingrata, coma o quando puder hoje, pois assim que retornar para cá, farei questão para que ninguém lhe traga nem um grão de areia sequer durante a próxima semana.

A porta de fechou com a mesma violência de um coice de mula. Se fosse outro dia Dária poderia até ficar com medo das palavras de Ald, pois sabia que aquilo que a tirana dizia nunca eram falsas ameaças, mas naquele dia Dária não pretendia voltar. Ela esperou alguns segundos até que o som dos passos de Ald desapareceu e sentou-se na cama tomando um longo suspiro. Tentou controlar a ansiedade que lhe corroía por dentro, mas estava sentindo dificuldade em manter-se calma diante das notícias que havia recebido. Talvez houvesse finalmente uma forma de ser livre mais uma vez, entretanto teria muito o que arriscar naquela noite. Estava insegura. Olhou para seus tornozelos e viu as cicatrizes dos grilhões que nunca desapareceram, mesmo após tantos anos sem usá-los.

A escravidão era um dos pilares da sociedade barense assim como o luxo. Dentro das fronteiras do Baronato de Baren os escravos eram a principal força de trabalho da sociedade, os responsáveis por manter tudo funcionando para que seus mestres pudessem ter uma vida de prazeres, abundância e regalias. Dária era uma escrava, assim como todas as demais mulheres que serviam a academia, mas seu ofício era diferente. Ela não era uma escrava para cozinhar, arrumar e limpar como as outras. Ela era uma escrava sexual, uma escrava dedicada para dar prazer a quem pagasse. E ela odiava isto.

– Você não deveria deixar Ald com tanta raiva – disse Tondas enquanto entrava.

Tondas era o mais próximo que Dária poderia chamar de uma amiga. Ela tinha idade para ser sua mãe, mas parecia que o tempo havia sido generoso dando lhe nada mais do que apenas algumas poucas mechas brancas em meio aos seus revoltos cabelos castanhos escuros. Desde que havia chegado a academia há quase cinco anos atrás, Tondas foi a única pessoa com o qual Dária conseguiu se dar bem, talvez por sua incrível paciência para com todos, talvez por seu jeito naturalmente tranquilizador. A verdade é que Tondas era um oásis de felicidade em meio a todo aquele deserto de sofrimento e Dária se sentia grata aos Ancestrais por isto.

– Não faço por mal – mentiu Dária.

– Eu sei que não. Quer que eu lhe ajude?

Por mais que Dária estivesse acostumada a tirar suas roupas diante de Tondas, sempre lhe parecia estranho deixar que ela o fizesse. Tirou suas roupas sem grandes cerimônias começando pelo vestido e depois pelas roupas que trazia por baixo. Desfez a trança que mantinha seus cabelos domados e com a ajuda de Tondas entrou na tina.

A água estava mais quente do que o habitual.

Em geral o banho era um momento quieto. Dária não gostava muito de conversar porque normalmente estava nervosa e Tondas sabendo disto respeitava os desejos de sua amiga, mas naquela noite Dária estava visivelmente inquieta e Tondas achou que seria bom quebrar esta regra .

– O que lhe aflige, minha menina?

Dária ficou em silêncio por alguns segundos. Pensou se valia a pena contar a sua amiga seu plano, sabia que Tondas não contaria a ninguém, mas não queria deixá-la preocupada.

– Eu sei que tem algo errado com você. Você não quer me contar?

– Você já imaginou sua vida fora daqui? – Indagou Dária.

Tondas parou de esfregar as costas da Dária e olhou-a atentamente. Dária não podia vê-la, mas imaginava que ela estava pensando nas suas próximas palavras.

– Mas eu tenho uma vida fora daqui.

Não era uma mentira, apesar de todas as serviçais do mestre serem escravas a maioria tinha permissão para andarem pela cidade desde que retornassem a academia para dormir. A única que não tinha permissão era Dária que por ser considerada muito valiosa e também por suas várias tentativas de fuga. A ela raramente era dada permissão para sair do quarto e quanto lhe era permitido mal podia ir até a arena ver os cães de guerra serem treinados.

– Que vida? – indagou Dária em tom irônico.

– Oras…. Eu visito o templo dos Ancestrais nos fins da semana. Vou ao mercado quase todos os dias e as vezes vou até o rio Crosa quando o dia está muito quente.

– E você fica feliz com isto?

– É a vida que os Ancestrais me deram. Tenho comida, roupas, tenho até um teto e um cobertor para me cobrir nas noites frias. O que mais posso querer?

– Ser livre?

– Você não está pensando em fugir de novo, está? – Retrucou Tondas – Eu não sei o que o mestre fará se pegar você tentando fugir novamente.

– Você nunca pensou em sumir daqui? Desaparecer? Ir para um lugar onde ninguém irá se julgar seu dono? Nunca pensou nisso?

Tondas mergulhou Dária na tina e continuou esfregando seus braços.

– Um dia quando eu era criança eu encontrei um pássaro machucado. Era um filhote de sangue vermelho que tinha caído do ninho e piava desesperadamente no sopé da árvore. Eu na minha inocência levei o bicho para casa, minha mãe me disse “Tondas leve esse bicho e deixe onde o encontrou”, mas eu era criança e queria muito cuidar dele. Fiz uma gaiola para protegê-lo, ele poderia ter fugido enquanto era pequeno, pois os gravetos eram largos, mas com o tempo ele foi crescendo e as barras ficaram estreitas para seu corpo. Um dia por descuido deixei a gaiola aberta e quando voltei a tarde para alimentá-lo ele havia sumido. Fiquei muito triste, acho que chorei a noite toda naquele dia, mas quando foi pela manhã ele estava de novo na gaiola.

– E o que aconteceu? – Disse Dária intrigada.

– Depois daquele dia deixei a gaiola aberta e ele sempre retornou. Talvez ele gostasse dali ou talvez aquilo fosse tudo o que ele conhecia e o mundo que havia muito longe dali não lhe importava. A verdade é que eu nunca vou conseguir saber o que o meu pequeno sangue vermelho pensava, mas eu sei como eu me sinto e meu mundo é este. A academia, o mercado e o templo.

– Não acredito ser justo alguém se achar dono de outro. Não sou uma propriedade, não sou uma coisa que pode ser trocada, vendida ou dada. Eu tenho minhas vontades, meus desejos e já estou farta de ficar presa neste quarto durante o mês inteiro.

– Eu não disse que é justo! Eu imagino que deve ser difícil para você que não nasceu escrava ter que obedecer ordens sem questionar sob o risco de ser açoitado, mas eu não conheço outro mundo que não este. Você está pensando em fugir de novo, não é?

– Não – Dária mentiu novamente. Ela queria abandonar aquela vida que lhe fora imposta, mas não queria repetir seu erro fugindo como sempre fez. Iria negociar como sua mãe havia lhe ensinado e apenas caso tudo falhasse tentaria fugir.

Tondas segurou o rosto de Dária e olhou fundo em seus olhos. Parecia estar procurando algo dentro dela, como se pudesse ler sua mente através dos seus olhos castanhos.

– Jure que não irá fugir. Não faça algo do qual pode se arrepender.

– Eu não quero mais isto para mim! – Uma lágrima correu pelo rosto de Dária – Esta não é a vida que eu quis! Não é a vida que meus pais e os pais dos meus pais queriam para mim! Eu não quero ter que me deitar com um homem por moedas! Não quero ter que aguentá-lo sobre mim apenas por que ele quer! Eu não quero andar pelas ruas e as pessoas se distanciarem de mim por que sabem o que eu faço a noite! Eu não quero esta vida mim, não quero esta vida para você! Não quero esta vida para nenhuma de nós! Nem a Ald que tanto me odeia desejo uma vida assim. Será que sou tão estranha por querer algo melhor para mim?

Tondas abraçou-a. Foi um abraço estranho, não porque Dária estava nua, mas porque parecia carregar consigo o peso de toda uma vida.

– Sabe – disse Tondas com a voz emborcada – eu tenho você como uma filha. A filha que meu ventre não pode me dar. Sei que você está pensando que tipo de mãe iria querer uma vida destas para sua filha, mas eu quero acima de tudo o seu bem. Não me julgues mal, mas você tem muito mais do que qualquer uma de nós tivemos. Não sei quem é este homem com o qual você se encontra, mas eu vejo os presentes que ele lhe envia. Um dia ele se cansará de você e quando isto acontecer você poderá vender tudo isto e comprar a sua liberdade.

Dentre os amantes que Dária possuía um se destacava por sempre requisitá-la no dia da lua. Ela mal o conhecia, apesar de se encontrarem a quase dois anos recorrentemente, mas imaginava que fosse rico, pois sempre se preocupava em enviar algum presente quando algum encontro estava marcado. Certa vez ele lhe enviou um lindo um cordão de prata com uma pedra vermelha que tinha o tamanho do seu polegar. Dária não entendia nada de pedras preciosas, mas uma das serviçais levou até o joalheiro da cidade e este lhe disse que se tratava de um rubi. Ela achava estranho a obsessão do seu misterioso amante, mas também sabia que os homens eram dados a coisas que lhe fugiam a lógica.

Ambas foram trazidas a realidade pelo punho pesado de Ald batendo na porta.

Este era um sinal de que elas deveriam se apressar, mas Tondas pareceu não se importar. Preferiu terminar seu serviço com a calma e apreço que só ela possuía. Se havia algo que Dária poderia considerar de bom naquele dia era que ela se sentia limpa, o que era um luxo naquelas terras quentes do centro-oeste de Karnarkk. Dária cobriu sua nudez com um manto ao sair da tina e Tondas abriu a porta onde Ald e Javid estavam esperando.

– Vocês não me ouviram bater? – Ralhou imediatamente Ald.

– Só se eu estivesse surda para não lhe escutar esmurrando a porta! Acho que toda a cidade deve ter escutado você bater – retrucou Tondas com uma falsa tranquilidade.

– E porque não me atendeu?

– Queria que eu parasse só para abrir a porta para você? Ela está pronta, não está?

Ald bufou como um touro.

– Vá! Suma da minha frente! As cozinheiras devem estar precisando de ajuda para alimentar os Cães.

Se havia alguém que Ald tinha cuidado em enfrentar era Tondas, ninguém sabia o motivo, mas as rusgas entre as duas terminavam em apenas poucas palavras. Tondas saiu do quarto, mas não antes de se despedir com um leve aceno. Foi uma despedida simples, porém triste, pois no fundo Dária sabia que jamais voltaria a ver sua amiga e Tondas também sabia que nunca mais voltaria a ver Dária.

Javid trouxe o último presente que Dária havia recebido do seu amante, um vestido belo vestido em tons verdes que de tão leve que parecia flutuar acompanhando a brisa da noite que entrava pela janela. Ald estava nitidamente nervosa, batendo o pé repetidamente contra o assoalho de madeira em um ritmo que lembrava o marchar de soldados. Dária pensou se tudo aquilo era por sua causa ou talvez a breve discussão com Tondas. Não era a primeira vez que discutia com a governanta, mas era a primeira na qual ela ficava tão nervosa por tanto tempo. Sem cerimônias Ald saiu do quarto batendo a porta novamente com violência.

– O que aconteceu com ela? – Questionou Dária.

– Não faço ideia – respondeu Javid – um mensageiro chegou no meio da tarde e depois disto ela ficou assim. Nunca vi algo tão bonito quanto isto! – Disse se referindo ao vestido – Do que ele é feito?

– Chama-se seda. Minha mãe era uma comerciante e certa vez comprou um tecido deste. Meu pai ficou louco quando sobe o quanto ela havia pago e ainda me lembro como se fosse hoje dele resmungando pela casa durante dias por causa disto. Só sei que é produzido pelo povo que vive nas florestas do sul e que é muito difícil de ser fabricado.

– Tão brilhante e tão macio, deve ser muito caro.

E era. Dária não queria transparecer, mas estava tão impressionada quando Javid com o presente. Seda era um artigo raro, tão raro que frequentemente era dado a reis e rainhas como presentes. Não era a primeira vez que seu amante lhe enviava um presente caro, mas tão raro quanto isto era a primeira vez.

– Você acha que ele a ama, Dária?

– E pode haver amor entre um homem e uma prostituta?

Javid deu de ombros.

– Já ouvi histórias de homens que se apaixonaram por mulheres como nós. Porque ele não poderia se apaixonar por você.

Dária não queria conversar sobre isto, pois sabia que seu amante poderia sentir qualquer coisa por ela, menos amor. Ele não era de falar muito, gostava de admirá-la por alguns minutos enquanto tomava seu vinho antes de receber por aquilo que havia pago. Em geral a noite não demorava muito, mas havia vezes que ele bebia mais do que devia e quanto isto acontecia ele se transformava. O homem calado dava lugar a um violento e quando isto aconteciam estas eram noite longas. Da última vez que ele havia perdido o controle bateu em Dária com tanta força que a deixou desacordada. Ela soube que assim que seu mestre tomou conhecimento do ocorrido reuniu um bando de Cães e foi tirar satisfações. Por alguns dias Dária se sentiu feliz, imaginando que aquele monstro nunca mais tocaria em seu corpo, mas o tempo passou, as feridas cicatrizaram, os hematomas desaparecerem e ele retornou. De fato, ele nunca mais agrediu Dária como daquela vez, mas isto não quer significava que ele não tinha voltado a ser violento com ela. Os presentes eram uma forma de medir o humor seu humor, em geral uma espécie de pedido de desculpas. As vezes pelo que ele tinha feito, as vezes pelo que ele ia fazer.

– Não seja tola Javid – disse Dária em tom irônico – pare de ouvir estas histórias que os bardos contam e termine logo o seu serviço.

– Elas são reais e não foram os bardos que me contaram isto – retrucou Javid enquanto penteava os cabelos – Elantra mesmo me disse que um dos amantes dela irá comprar sua liberdade.

– E ela acreditou nisto?

– E porque não? Ele disse, não disse? – Retrucou Javid como se a palavra de um homem fosse sempre verdade.

– Elantra deveria deixar de ser tola, assim como você também deveria.

Na visão da Dária, Javid tinha uma visão romântica do mundo em que vivia. Ela era jovem, talvez a mais jovem das serviçais que o mestre possuía e apesar de não ser mais uma criança, também não era uma mulher até onde Dária sabia. Dária sentia um pouco de saudade desta inocência que havia perdido há anos atrás. Os horrores da guerra haviam arrancado quaisquer resquícios da sua inocência que havia em seu coração, a escravidão apenas criou um muro em volta dele.

Javid era muito habilidosa nas artes ditas femininas, o que para Dária era um alívio. Sua infância havia sido entre seus irmãos perseguindo gatos pelas ruas de Saburdia de modo que nunca havia se interessado por coisas como aprender a se pentear, se arrumar ou se comportar. Sua tia até havia tentado lhe ensinar uma coisa ou duas quanto seu corpo havia começado a se transformar, mas Dária sempre preferiu se arrumar da maneira mais prática possível o que normalmente significava cabelos presos e roupas comodas. Quando chegou a academia Tondas se encarregou de ajudá-la e nos últimos anos Javid tinha se mostrado uma ótima companhia. A garota fez a típica trança dos barenses, perfumou Dária com essência de joule e escolheu um par de brincos de lápis-lazúli com um cordão de prata que considerava combinar com o tom verde do vestido. Ao terminar se despediu, mas antes que pudesse sair do quarto Dária a chamou.

Dária se assegurou que não havia ninguém por perto e foi até seu porta joias. Separou as em três pequenas bolsas do qual uma escondeu dentro do seu vestido.

– Preciso que você me faça um favor. Amanhã eu preciso que você pegue isto – disse Dária enquanto escondia duas das bolsinhas sob o colchão – esta você deve levar até a cidade, vender pelo que puder e repartir tudo o que conseguir com as serviçais, menos Ald. Esta – disse mostrando uma que tinha uma pequena tira vermelha – você deve entregar a Tondas.

– Mas isto são suas joias! – Exclamou Javid perplexa.

– Sim, são minhas joias. Lembre-se Ald não pode saber disto, caso contrário ela vai castigar todas vocês. Você entendeu o que eu disse?

– Entendi. – Disse Javid em tom sério – Você vai fugir de novo, não é?

– Quanto você menos souber melhor será para você.

Dária não queria envolver Javid nesta história, mas ela era uma das poucas pessoas na qual confiava e em seu coração achava que seria um desperdício deixar suas joias para que seu mestre se apoderasse delas caso conquistasse sua liberdade. Se alguém deve ficar com elas que sejam as demais escravas, pensou. Para Tondas ela separou algo especial. Dária esperava que ela entendesse e esperava que fizesse bom proveito daquilo, pois se o joalheiro realmente havia dito a verdade, aquela pequena pedra valia o suficiente para comprar a liberdade de qualquer escravo barense e não havia ninguém em Ravir que merecia a liberdade mais que Tondas.

Normalmente Dária aguardaria em seu quarto até Ald lhe chamasse, mas a velha estava tão impaciente naquele dia que suspeitou que seria melhor descer e procurá-la. Pegou a outra parte das joias que havia separado e escondeu sob o vestido. Saiu do quarto, atravessando o corredor e descendo as escadas que levavam a sala principal. Não foi necessário procurar muito por Ald, a governanta estava próximo a porta conversando com Barn, o cocheiro da academia.

– Finalmente você fez algo de útil hoje. Vão logo e não demorem! – Ralhou Ald.

– Não se preocupe Ald! Eu a levarei e a trarei em segurança.

Barn era uma boa pessoa, sempre com um sorriso no rosto e sempre disposto a ajudar quem precisasse. Era um homem discreto, simples e de poucas ambições. Era sem dúvidas o tipo de pessoa que o mestre gostava de ter a seus serviços, pois sua simplicidade era incapaz de levantar quaisquer suspeitas quanto a real natureza do seu ofício. Dária costumava conversar com ele por muitas horas, mas isto era antes de ter tentado fugir e passar a viver enclausurada em seu quarto. Ele estendeu sua mão em direção a Dária para ajudá-la a subir na carruagem.

E a viagem começou.

Cada encontro era um mistério. Os homens que procuravam os serviços de seu mestre sempre iam em busca de discrição, um serviço caro que ele mantinha com um imenso zelo. Dária não conhecia muito sobre seu mestre, havia visto seu rosto poucas vezes e nunca soube seu nome, mas por tudo que já havia visto e escutado supunha que ele devia ser dono de uma considerável fortuna. Sua principal atividade era o comércio de cães de guerra, mercenários em sua maioria escravos, treinados para travar as batalhas em nome de qualquer um disposto a pagar, mas todos dentro da academia sabiam que ele possuía outras atividades que poderia eram consideradas ilegais aos olhos dos barenses como a prostituição e pelos rumores que circulavam pela cozinha até assassinatos. Ele era sem dúvidas um homem perigoso e todos o temiam por motivos óbvios.

A carruagem continuou sua viagem percorrendo o centro da cidade e depois de alguns minutos de solavancos virou à direita em direção ao portão sul. As ruas de Ravir eram precariamente calçadas, tornando qualquer viagem um verdadeiro martírio. Pedras eram um recurso escasso nas terras sulistas e algumas precisavam viajar por semanas vindas das pedreiras localizadas no noroeste do baronato. Uma boa pedra pode valer seu peso em ouro em Ravir, costumava exagerar Tondas, o que não era de todo uma mentira.

Dária aproveitou o tempo que tinha para repensar em seu plano. Não há espaço para falhas hoje, refletiu. Ela já havia desistido de tentar fugir depois que seu mestre lhe disse que um castigo pior que o confinamento lhe aguardava caso tentasse escapar novamente, mas as notícias de que sua terra natal havia se livrado do domínio argoniano encheram seu coração com esperança de que pudesse enfim retornar ao seu lar e retomar a sua vida. O som dos cascos sobre a terra fofa anunciou que a carroça havia deixado a proteção das muralhas da cidade para trás. Dária olhou pela pequena janela lateral e pode observar a carroça se dirigir a floresta de Crosa. Estamos indo para a casa da floresta, pensou. Ela conhecia bem o lugar, havia um pequeno casebre que lembrava a casa de um lenhador localizado bem no interior da floresta bem próximo a margem do rio Crosa, modesto por fora, mas luxuoso por dentro. Para chegar até o local era necessário parar a carruagem em um determinado ponto e seguir uma trilha a pé. Não era o lugar mais seguro, pois era comum que foras da lei se refugiassem em bosques e florestas para se esconderem aos olhos da justiça, mas seu mestre sempre enviava cães de guerra quando havia um encontro na cabana.

E a carruagem parou.

– Chegamos minha menina. É hora de descer – disse Barn enquanto colocava uma pequena escava para facilitar a descida.

Já havia anoitecido e o barulho do vento contra as árvores altas da floresta dava um ar tenebroso a aquela noite. Pontos, a grande lua, aparecia timidamente por entre as folhagens das copas iluminando as trevas com sua luz prateada apenas o suficiente para ver o rosto de uma pessoa que estivesse bem próxima. Barn acendeu um lampião que havia trazido consigo e entregou a Dária.

– Aqui está – disse Barn entregando um frasco – pó de Kiva. Um punhadinho disto é o suficiente para fazer alguém dormir por horas profundamente. Lembre-se de colocar não mais do que uma pitada, pois em grande quantidade pode fazer a pessoa dormir por tanto tempo que acaba morrendo.

– E os cães?

– Eu já os subornei. Vão dizer que viram algo suspeito na floresta, foram investigar e quando retornaram você não estava mais aqui. Amanhã cedo logo após o primeiro raio de sol um carroceiro passará neste mesmo local para lhe levar, o nome dele é Rodric. Venha até aqui e aguarde por ele.

– Ele é um homem de confiança?

– Ele vive levando escravos para além das fronteiras e tem uma reputação a zelar. Ele disse que não pode te levar até as Mil Cidades, mas que pode levá-la até Ugin o que já é metade do caminho.

Dária tirou o cordão e os brincos que estava usando e os entregou a Barn, assim como um anel que estava junto com as joias escondidas.

– Devem ser o suficiente.

– Sim, é o suficiente – disse enquanto tentava avaliar o valor das joias – Eu lhe acompanharia se pudesse, mas seu mestre me impede de ir além deste ponto – disse em tom afável – e não quero levantar suspeitas. Olhe para o chão e tome cuidado com as raízes das arvores para não tropeçar. Carregue a lampião acima dos olhos para poder enxergar mais longe. Espero que você seja feliz em sua nova vida.

Dária pegou a lanterna, deu um abraço de despedida em Barn e segurando seu vestido com uma das mãos começou a caminhar pela trilha que levava a cabana. A cada passo seu coração parecia bater com mais força, tanta força que ela sentia que podia escutá-lo em meio ao silêncio da noite. Pensou no iria dizer. Talvez ele aceite minha proposta e eu não precise fugir mais uma vez. Não tinha certeza se ele aceitaria, não tinha certeza nem sequer escutaria. Era provável que ele a ignorasse como sempre fez ou que contasse tudo para o seu mestre o que provavelmente significaria um castigo tão duro quanto o por ter fugido. Muitas incertezas pairavam em sua mente naquela noite, mas ela tinha a certeza de que não queria mais ser escrava, mesmo que o preço fosse a sua vida.

A estreita trilha foi se alargando e conforme Dária subia a pequena colina a cabana se revelou em meio a escuridão, primeiro o telhado em madeira aplainada e palha, depois as paredes feitas de tronco descascados entrelaçados. Havia uma luz vindo de dentro do casebre, o que significava que seu amante já havia chegado. Ela deu um profundo suspiro quando chegou a entrada e tentou colocar um pouco de ordem em seus pensamentos antes de entrar. Ela tinha um plano que precisava pôr em prática e pela primeira vez em muitos anos pediu as bênçãos dos Ancestrais para aquele momento. Sua educação dizia que era necessário bater na porta antes de entrar, mas aquele não era um encontro formal de modo que abriu a porta sem delongas. A porta estava pesada e foi necessário por um pouco de força para abri-la. Um som estranho acompanhou o ranger da dobradiça, como se algo estivesse preso entre assoalho e a porta fazendo-a arranhar enquanto abria. Com certa dificuldade empurrou-a porta apenas o suficiente para que pudesse passar.

Seu plano estava prestes a sofrer um inesperado golpe.

Havia pedaços de garrafas espalhados por todo o casebre e alguns jaziam próximos a porta. Sentado entre as almofadas estava seu amante segurando uma garrafa ainda fechada. Ele deve ter chegado cedo demais e aproveitou para beber, deduziu Dária. Ele estava quieto olhando para algum ponto perdido no chão e assim continuou, sem olhar para ela.

– Você chegou cedo – Disse Dária tentando parecer surpresa – se soubesse que você iria chegar tão cedo o mestre teria me enviado antes para lhe fazer companhia.

Ele nada disse, continuou sentado olhando para o vazio.

O silêncio era como uma faca em seu peito. Dária não sabia o que fazer diante da inexpressividade dele. Estaria ele tão bêbado que estava dormindo? Muitas coisas passaram pela sua cabeça naqueles breves segundos. Instintivamente ela deu um passo para trás e ele finalmente levantou sua cabeça.

Não era quem ela esperava.

Dária ficou paralisada, pois jamais havia visto aquele homem na sua vida antes. Ele estava bêbado e isto era óbvio diante dos seus olhos, mas ela sentia que havia algo mais. Ele se levantou com certa dificuldade e ela deu outro passo para trás. Pensou se valia a pena tentar fugir, calculou se conseguiria abrir a porta mais rápido do que ele conseguiria agarrá-la, mas enquanto olhava ele se levantar teve a certeza de que fugir não era a melhor opção. Se ele está aqui para me atacar correr para a porta deve ser a primeira coisa que ele quer e enfrentá-lo parece ser a única opção que tenho, concluiu. Ficar na defensiva jamais havia lhe colocado mais próximo da liberdade e se ela tivesse que confrontá-lo para ser livre mais uma vez, assim o faria.

Como um lobo circundando sua presa o homem caminhou até a porta trancando-a. Tirou a rolha da garrafa desajeitadamente e jogo-a violentamente contra Dária atingindo-a na testa. Bebeu um longo gole do vinho, deixando cair despreocupadamente um pouco sobre suas roupas e no assoalho. Respirou fundo e encarou-a de uma maneira que Dária sentia seu coração pulando na garganta

– Quem é você? – A voz de Dária saiu um pouco estranha. Ela queria parecer confiante e desafiadora, mas seu nervosismo vez a foz sair quase que como uma súplica.

Ele respirou e tomou outro gole da garrafa. Abriu a mão como um sinal para aguardar enquanto fazia descer o vinho pela garganta.

– Sabe? Eu não posso recriminá-lo por vir aqui encontrar com você. Normalmente eu não aprovava as escolhas deles, mas você é bem melhor do que as mulheres com quem ele se encontrava. Você tem algo… – o homem fez uma cara como a de que estivesse procurando a palavra certa – diferente. Você é destas terras?

– O que você quer comigo? – Retrucou Dária.

– SOU FAÇO AS PERGUNTAS AQUI! – Urrou o homem notavelmente irritado com a pergunta. Daria se assuntou com o rompante de raiva e apesar de não querer transparecer seu nervosismo seus olhos vidrados lhe condenavam – Eu te assustei? Você não tem ideia do quanto eu posso ser assustador com quem me irrita. Você é destas terras? ME RESPONDA!

– Sou de Sabúrdia – disse em voz baixa.

– Como é? Não escutei.

– Sou de Sabúrdia – reafirmou Dária.

– Ótimo! Viu como estamos nos entendendo? Agora me diga o que uma saburdiana está fazendo em Alzebaran?

– Eu fugi da guerra e fui feita escrava.

O comércio de escravos era um negócio lucrativo entre os barenses. Eles não tinham distinção quanto a cor, sexo ou credo, qualquer um poderia ser um escravo o que as vezes significava até os próprios barenses. Como as leis eram falhas e o sistema corrupto grupos de criminosos que sequestravam pessoas livres para vendê-las como escravos em outras partes do reino, pois uma vez marcado era impossível convencer alguém que você não era um escravo.

– E por que está aqui?

A pergunta pareceu tão estranha que Daria ficou sem saber o que dizer e isto aparentemente o irritou.

– Sua vadia! Eu te perguntei o por que você está aqui?

– Eu tinha um encontro aqui, meu mestre me enviou.

O homem ficou alguns segundos em silêncio aparentemente analisando se o que ela dizia era verdade. Dária por sua vez sentiu que estava jogando o jogo dele e se quisesse sair dali viva teria que virar a mesa a seu favor. Aproveitou o silêncio momentâneo e ousou perguntar.

– Afinal quem é você?

– Quem sou eu? Quem sou eu? – O homem repetiu a frase algumas vezes. Dária não sabia se era o efeito do vinho ou se o homem estava tão nervoso que não conseguia pensar em uma resposta até que ele explodiu em raiva – Eu sou o maldito homem que vocês destruíram a vida – urrou enquanto arremessava a garrafa que se estilhaçou na parede – eu devia saber o deixá-lo vir aqui era um erro. EU DEVIA SABER QUE ERA UMA ARMADILHA.

– Olhe aqui! Eu não sei quem é você! Não sei do que você está falando! Me deixe sair agora daqui! Ou…

– Ou o que? Eu sei que você não fará nada e também sei que não há ninguém lá fora. Todas as vezes que ele vinha para cá para fornicar com você eu ficava na floresta a noite inteira esperando e sabe porquê? Porque aquele desgraçado valia muito! Porque a vida daquele desgraçado, valia a minha própria vida! Eu vivia dizendo para ele parar de sair para encontrar vagabundas como você, mas ele me escutava? Claro que não! Você é preocupado Barad! Você não precisa se preocupar Barad! Porque pelas graças do Justicar eu fui deixá-lo fazer o que ele queria?

O homem se enfureceu e começou a arremessar os objetos que estavam na sua frente. Por um instante ele se distanciou da porta e Dária vendo a oportunidade tentou destrancar a porta. A mão dele veio pesada e acertou o rosto de Dária em cheio. O mundo pareceu girar enquanto ela cambaleava para trás.

– Você acha que vai escapar de mim? – Disse em tom sádico – Você vai morrer aqui sua maldita.

E antes que pudesse se recuperar do gole, Dária sentiu as mãos do homem agarrando seu pescoço.

– Me diga onde está o seu mestre? Onde está Edwin?

Dária não tinha ideia a menor ideia onde seu mestre estava, tampouco tinha ideia de quem era Edwin, mas mesmo que quisesse dizer algo o desgraçado estava apertando seu pescoço com tanta força que apenas consegui emitir ganidos de desespero. Ele estava possesso, parecia que algo muito ruim havia assumido seu corpo. Ele olhava em seus olhos de uma maneira aterradora, não parecia piscar, apenas olhava fixamente em seu surto de fúria. Dária lutava tentando afastar as mãos do seu agressor em vão. Ele era forte, não havia como negar.

– Eu acabar com todos vocês, começando por você sua vadiazinha.

Enquanto se debatia para fugir do abraço da morte, Dária conseguiu agarrar o homem pelo pescoço e em um rompante de força que ela própria desconhecia trouxe-o para si e o mordeu. O homem gritou de dor soltando-a, mas não sem retribuir sua ousadia com um soco. Dária cambaleou pela cabana. Havia um gosto terrível de sangue em sua boca, em parte seu devido ao soco que havia levado, em parte do pedaço da maçã do rosto que havia arrancado do desgraçado.

– Eu não sei quem você é! Eu não sei onde está, meu mestre! Eu nem sei quem é esse Edwin! Me deixe sair.

Mas ele não ouviu seu apelo. O homem investiu novamente agarrando-a pela garganta enquanto jogava-a sobre a mesa.

– Vou esmagar esse seu pescoço nojento!

Dária tentou mordê-lo novamente, mas seu inimigo já havia aprendido a artimanha. É o meu fim, pensou. Memórias da sua vida começaram a passar pela sua mente conforme o ar começava a faltar lhe aos pulmões e sua respiração se tornava impossível. Lembranças de sua infância, sua adolescência, sua família, sua mãe, seu pai e suas irmãs. A primeira vez que visitou a catedral de Sabúrdia e a última vez que pode olhar para ela. Tudo parecia se misturar em um estranho mosaico cuja a soma parecia formar a face do seu agressor. Se fosse para partir deste mundo para os braços de seus Ancestrais, queria que uma lembrança melhor do que o rosto do seu algoz fosse a última coisa que estivesse em seus pensamentos. Buscou por algo para se agarrar, uma lembrança dos seus avós, um momento com sua família, porém tudo parecia estar lhe sendo negado.

Se em meio as trevas, agarre-se a coragem.

Enquanto tateava o vazio, Dária encontrou algo e sem pensar golpeou a cabeça do homem. Atingiu-o pela primeira vez. Pela segunda-vez. Pela Terceira Vez. O laço da morte se afrouxou e o ar penetrou ferozmente em seus pulmões. Seu algoz se afastou cambaleante pelo casebre enquanto segurava sua cabeça. O instinto de sobrevivência fez com que Dária se levantassem, mesmo não conseguisse sentir suas pernas. Sua mente estava turva e seus ouvidos zumbiam como se milhares de abelhas estivessem dentro da sua cabeça. O homem gritou algo, mas ela mal podia escutar. Um insulto ou maldição, pensou. Ele pegou uma faca que encontrou sobre um móvel e se lançou ao ataque. E Dária gritou.

Sangue farto jorrou.

Dária descendia de uma linhagem de guerreiros. Seu pai fora capitão de Sabúrdia, assim como o pai de seu pai e o pai do pai de seu pai. Ela se lembrava de que seu pai frequentemente se gabava de a família descender dos míticos campeões que haviam lutado ao lado dos Ancestrais na batalha de Avimar e de que inclusive possuía um livro que segundo ele contava a história da família em mais de quarenta gerações. Dária nunca havia visto tal livro, tampouco tinha certeza se descendia de uma linhagem tão longa quanto seu pai dizia. Na verdade, nada daquilo lhe importava muito naquele momento, pois tudo que precisava era que houvesse pelo menos uma gota de sangue guerreiro correndo em suas veias. E pelo calor que sentiu em seu corpo, tinha certeza de que de onde havia vindo aquela força, havia muito mais.

O homem caiu no chão gorgolejando. Dária demorou alguns segundos para entender o que havia acontecido, ficou atônita até perceber que segurava em sua mão esquerda os restos de uma garrafa. Eu o acertei, pensou. Ela encarou-o por alguns instantes enquanto o homem se debatia tentando estacar o sangue que fluía da sua garganta em vão. O ferimento era profundo demais.

– Este mundo está podre! – Disse Dária enquanto observava o sangue desaparecer por entre as frestas do assoalho de madeira antiga – Este mundo está podre!

As palavras saíram estranhas, como se ela própria não as tivesse proferido. O homem tentou dizer alguma coisa, mas engasgou-se em seu sangue, ele em suas últimas forças levantou suas mãos como se buscasse agarrar a algo em meio ao vazio e com um último espasmo súbito a vida abandonou seu corpo como um brisa em um dia quente de verão. Dária nunca havia matado alguém, na verdade nunca pensou que faria algo deste tipo em vida, mas ao contrário do que imaginava não sentia remorso pelo que tinha feito.

– Que os Ancestrais tenham piedade de sua alma – disse em tom monótono enquanto abria a porta.

Apesar do frio, o vento da noite a fez se sentir mais viva do que nunca. Seu plano havia falhado e não havia como retornar a academia para procurar proteção. Imaginou se os cães de guerra haviam  escutado a briga e se iriam em sua busca. Será que se eu voltasse para academia e alegasse defesa acreditariam em mim? , pensou e concluiu, Não! Eu não posso voltar para a academia. Seu coração pesou, sentia como se alguém o apertasse de maneira feroz enquanto sua respiração parecia se tornar cada vez mais curta. Teve vontade de chorar, teve vontade de rir, teve vontade de enlouquecer, mas no fundo em seu turbilhão de emoções foi sua voz que tomou forma.

– EU NÃO PRECISO DE PROTEÇÃO! Eu sou a senhora do meu próprio destino! Ninguém jamais será meu mestre novamente! – Gritou Dária para as estrelas do céu – Escutaram isto Ancestrais? Eu juro em nome de meus pais e meus antepassados que ninguém jamais será meu mestre novamente! Eu caminharei com minhas próprias pernas e assim como me ergui hoje, com minhas forças me reerguerei.

Há muito tempo Dária esperava por aquilo. Rasgou a saia do seu vestido como pode. Um misto de fúria e euforia encheu seu coração e sua fadiga desapareceu como que por pura magia, sentiu que poderia atravessar o mundo inteiro correndo naquela noite e assim o fez. Correu apenas, completamente sem rumo, apenas seguindo o curso do rio Crosa para onde ele pudesse a levar. Enquanto corria em meio a escuridão sob a vigília das estrelas se sentiu livre, não porque estava fugindo dos grilhões da sua escravidão, mas porque sentia que algo dentro de si havia mudado. Algo parecia ter voltado ao lugar que lhe era de direito. Ela não deixaria mais que alguém fosse seu senhor, mesmo que isso viesse a custar lhe vida. Ela lutaria. Lutaria como havia lutado no casebre. Lutaria com unhas e dentes. Lutaria com sangue e carne. Lutaria como se não houvesse outra opção para si. Os tempos de medo sob o julgo dos outros ficariam para trás e assim como os ferreiros consertavam uma espada quebrada, ela estava disposta a forjar outra de si dali para a frente.

A empolgação com a liberdade fez Dária caminhar noite a dentro até o ponto onde as árvores ficaram esparsas e deram espaço a uma colina. Caminhou um pouco até encontrar uma macieira solitária onde procurou repouso entre as raízes sobre abrigo de seus galhos frondosos. Olhou para o horizonte. Vérber, o sol guia, foi o primeiro a despontar subindo por além das montanhas ao leste e trazendo consigo os primeiros raios de luz da manhã. Caum foi o segundo, seguindo de perto seu irmão como o escudeiro que acompanha seu cavaleiro. Úster foi o último a despontar em todo seu esplendor escarlate, aquecendo o mundo com seus braços envolventes de luz e expulsando as trevas para as terras muito além da visão.

Sobrevivi para sentir o calor dos sóis mais uma vez, pensou Dária, e sobreviverei para senti-los muitas outras vezes mais.

Deixe uma resposta

D&D 5ª Edição: Regras Básicas para o Mestre traduzidas e de graça!

REDERPG Vídeo-Resenha 4: Lenda dos Cinco Anéis RPG