Um conto de Réia: O Ritual da Fogueira

A fogueira crepitava alto, iluminando os rostos jovens ao redor dela e o vulto do grande acampamento ao fundo. Embora muito jovens, todos aqueles rostos transpiravam ferocidade e determinação: amanhã seria a primeira batalha deles e eles estavam prontos para morrer, se assim tivesse que ser.

Orcs. Todos eram orcs.

Sentados às dezenas ao redor da fogueira, olhando para um lugar vazio no círculo formado em torno dela, que finalmente foi preenchido com a chegada de Gorrak, o Grande Khan da Horda Orc.

Ele sentou no lugar vazio destinado a ele e passou os olhos em todos. Ele então falou firme, mas de forma pausada:

– “Amanhã vocês se tornarão guerreiros e deixarão para sempre as tendas de seus pais em suas tribos de origem. Os que sobreviverem irão morar na Grande Tenda de suas respectivas tribos, até que cada um seja escolhido como esposo por uma companheira, ganhando assim o direito à sua própria tenda, onde então irá viver com a companheira que o escolheu e gerar sua prole.”

Gorrak fez uma pausa e continuou:

– “Antes que possa provar o seu valor, todo Orc na véspera de sua primeira batalha deve completar a sua preparação passando pelo Ritual da Fogueira. O nosso Alto Sacerdote mais uma vez me concedeu essa honra, e aqui estou para ser o guia de vocês no ritual.”

Gorrak fez outra pausa. Apesar do enorme respeito que todos tinham pelo Alto Sacerdote, ter Gorrak como seu guia era uma honra ainda maior.

– “O Ritual da Fogueira é simples. Um momento de descanso após todo tempo que um jovem Orc passou se preparando. É a calmaria antes da tempestade da batalha no dia seguinte. É o fogo que arde e no entanto é impassível. É o momento em que entendemos como chegamos até aqui, porquê estamos aqui e para onde devemos ir. É a história do primeiro, mas também é a história de todos nós.”

Após uma pausa mais longa, Gorrak começou a narrativa:

– “Há muito tempo atrás, num tempo tão antigo que até as pedras esqueceram, nós, Orcs, éramos diferentes do que somos hoje. Éramos fracos.”

– “Nossas tribos, naquele tempo, viviam tranqüilas nas estepes, e o mundo parecia ser todo nosso…”

– “Mas um dia os Humanos chegaram. Inicialmente nos trataram com amizade e havia até trocas entre as tribos orcs e as tribos humanas.”

– “Então os Humanos começaram a guerrear entre si, e os Orcs foram pegos no meio da loucura dos Humanos…”

– “Muitas tribos nossas foram traiçoeiramente atacadas, massacradas, e os Humanos começaram a nos odiar apenas porque éramos diferentes deles.”

– “Certa vez, então, uma tribo orc foi dizimada como tantas outras, mas um jovem caçador chamado Vedrak conseguiu sobreviver…”

– “Ele olhou para o que restou de sua tribo. Olhou para as tendas que ardiam e encontrou todos a quem amava e convivia chacinados. Em desespero, Vedrak caiu de joelhos no chão e perguntou “Por quê? Por quê? Por quê tudo isso?”. E ele desejou ser forte e nunca mais permitir que um Orc fosse morto por um Humano ou por quem quer que fosse.”

– “Foi nesse momento que uma luz forte surgiu e do meio dela Arlok se manifestou. Arlok ouviu as súplicas de Vedrak e ofereceu a ele “A Trilha de Sangue”, o modo de vida que todo o povo Orc hoje segue. Em troca nos tornamos o povo escolhido de Arlok e ele nos tornou fortes…”

– “A Trilha de Sangue é simples. São apenas três leis que todos nós devemos seguir. A primeira: Um Orc deve venerar Arlok acima de tudo e seguir o seu caminho, A Trilha de Sangue. Porque somos o povo escolhido por ele e Arlok nos tornou fortes.

– “A segunda: Um Orc só pode matar outro Orc por um bom motivo e em um combate justo. Os Orcs devem se unir e conquistar seus inimigos, e não ficar lutando entre si.

– “E a terceira: Um Orc deve tomar tudo de seus inimigos para si e para a Horda. Dos Humanos devemos possuir até suas mulheres, para nelas colocar a nossa semente, e assim termos a nossa vingança por tudo que os Humanos nos fizeram no passado, e para eles se lembrarem sempre da superioridade dos Orcs. Porque Arlok nos mostrou que um Meio-Orc também é um Orc.

– “E assim ensinamos a todos os Orcs que aqui estão e a todos que ainda vão nascer…”

Gorrak terminou sua narrativa e os jovens explodiram em urros e gritos de guerra. Gorrak sorriu e fez um sinal para que todos silenciassem.

– “Vão descansar. Amanhã vocês lutarão ao meu lado. Pela glória de Arlok e pelo triunfo da Horda.” – E em seguida bradou – “Nós somos a Horda!”

Todos repetiram o brado em resposta e aos poucos foram se dispersando pelo grande acampamento.

Gorrak, enfim, se retirou para sua tenda, ansiando pela chegada do amanhecer.

Réia é um cenário de fantasia medieval épica
criado por Marcelo Telles para o sistema D20.
Não percam o próximo conto de Réia, escrito por Diego Dubard,
e no primeiro domingo de cada mês,
a coluna mensal Réia: Notas de Criação do Cenário.
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