Terra Devastada (resenha)

Terra Devastada é o RPG de apocalipse zumbi recentemente lançado pela RetroPunk Game Design. Criado por John Bogéa com co-autoria no cenário de Fabrício Caxias e mais outros colaboradores, o livro possui 128 páginas divididas em seis capítulos.

O livro é pequeno em formato (15 x 22 cm), mas com uma boa encadernação, o que torna o seu manuseio bem funcional e sua leitura bem prática. Mas quem é fã de livros grandes de RPG não vai gostar muito.

Terra-Devastada-CapaA imagem da capa do resumo de regras é melhor do que esta usada no livro básico impresso, mas esta transmite melhor a ideia de horror desse RPG. Porque Terra Devastada é mais do que um RPG de sobrevivência: ele é um RPG de horror pessoal. Muito mais do que todos os vampiros da White Wolf juntos.

Nele você joga como um sobrevivente, não porque o seu personagem seja especial ou algum tipo de escolhido, mas apenas porque teve sorte e essa sorte pode acabar de uma hora para outra.

O interior é em preto & branco, com uma diagramação excelente e uma arte que combina com a proposta do livro. Toda a arte, inclusive a imagem da capa, foi feita também pelo John Bogéa. Contudo, enquanto as ilustrações dos zumbis são realmente assustadoras, a dos humanos nem sempre são muito boas – por exemplo, a personagem pré-pronta da página 56, a Doutora Suzana, deveria ser muito bonita…

O ponto alto do livro é o texto. Fazia tempo que eu não lia um texto tão bem escrito, fluido e agradável de ler. O livro foi lido em pouco mais de uma semana, após ter lido o conto introdutório alguns dias antes, sem gastar muito tempo por dia com a leitura. E os poucos e eventuais erros de revisão passam quase despercebidos.

Além do conto introdutório, apresentando com uma diagramação como páginas soltas de um diário, cada um dos seis capítulos têm um pequeno conto de abertura, todos muito bons e alguns bem angustiantes, passando assim de modo perfeito o clima do cenário, que é descrito no primeiro capítulo, Devastação da Terra, com muitas caixas de texto e informações no formato de notícias de jornal ou anotações soltas.

O cenário em si é o que se espera de um RPG sobre apocalipse zumbi, mas traz um ou outro elemento novo, como a Febre Z, uma doença mental que faz um humano não-infectado agir de modo semelhante a um zumbi. Toda a propagação do Vírus Z através do mundo é contada de forma razoavelmente detalhada, mostrando como o mundo caminhou para a devastação.

O segundo capítulo, Sobreviventes e Refugiados, é sobre a construção de personagens e no final vem com alguns personagens pré-prontos, além de introduzir os primeiros elementos da mecânica de jogo.

O terceiro capítulo, Resolução de Conflitos, traz o sistema de jogo propriamente dito, o Acepção, criado por John Bogéa, que inclusive é de uso livre através da Licença Creative Commons.

Acepção é um sistema focado na narrativa, bem simples, mas muito interessante e funcional, que pode ser usado em outros cenários e temas. Ele usa montantes de dados comuns de seis faces, onde os resultados pares são sucessos e os resultados ímpares são falhas. Sempre que houver um resultado 6, além de se ter um sucesso, há o chamado “Surto de Sorte”, onde o dado é jogado novamente, como se fosse um dado extra, e assim por diante enquanto houver resultados 6. Normalmente basta um sucesso para ser bem sucedido em uma ação, mas há a reação do alvo de uma ação, e por isso é sempre bom poder jogar mais de um dado e ter mais do que um único sucesso. A boa notícia é: normalmente um zumbi não reage quando é alvo de um ataque.

Quando o montante de dados do jogador for igual a zero ou menos, ele joga apenas o Golpe de Sorte: ele escolhe um número par (2, 4 ou 6) e joga um único dado. Se for o número escolhido, ele consegue um sucesso, mas o dado do Golpe de Sorte não tem Surto de Sorte, ele não é jogado novamente num resultado 6.

Cada jogador tem um número determinado de Características (até 12 em Terra Devastada) para escolher para o seu personagem – além de Condições, um Trunfo e um Drama. Essas Características são definidas pelo jogador de acordo com a história do personagem e a concordância do Mestre, e representam aquilo que o personagem conhece, sabe fazer, possui aptidão ou simplesmente o caracteriza. Pode ser algo como “Carismático e atraente”, passando por “Sempre mantém sua palavra” ou “Machista ao extremo”, até “Uso de armas de fogo” e “Fala inglês fluentemente”, ou mesmo alguma coisa bem específica como “Magnum 44, minha arma favorita” ou “Fã de filmes de faroeste”.

Cada Característica – e Condição, Trunfo e Drama – pode somar ou subtrair um dado ao montante da ação a qual esteja relacionada. Claro que o jogador mais esperto e experiente será capaz de fazer combinações devastadoras (perdoem o trocadilho), com esse sistema de criação de personagens tão aberto. Mas se não for nenhuma combinação injustificável ou muito absurda, fará todo o sentido, afinal o personagem sobreviveu a um apocalipse zumbi.

Condições são estados que podem ser temporários ou não. Por exemplo, o personagem pode ter uma arma de fogo, um ferimento ou certa insanidade devido a todo horror que vivenciou. Tal como as Características, as Condições somam ou subtraem um dado ao montante da ação a qual possam estar relacionadas – armas somam dados em um ataque, ferimentos subtraem dados de ações como correr, etc.

Trunfos são feitos que o personagem realizou, conquistas importantes, a superação de situações impossíveis de forma épica e que o motiva a superar novos desafios. Cada personagem começa com apenas um Trunfo, mas pode adquirir outros no decorrer do jogo. Trunfos vão desde “Enfrentar sozinho vários zumbis” a “Salvar toda a família durante um desastre” ou simplesmente “Ganhar um prêmio da faculdade”. Somam e subtraem dados das ações que possam estar relacionados, assim como as Características e as Condições.

Assim como os Trunfos, cada personagem começa com um Drama, mas também pode adquirir outros no decorrer do jogo, conforme sua pontuação de Horror aumente. Dramas são experiências de horror que o personagem vivenciou e que o atormentam, representam a familiaridade dele com o horror.

Por fim, o capítulo traz as regras de Horror e Convicção. Convicção são os “pontos de ação” de Terra Devastada, e Horror é a mecânica de jogo mais importante desse RPG e o que o define com um jogo de horror pessoal, muito mais do que sobrevivência. Sim, puro The Walking Dead.

O quarto capítulo, Mestre dos Mortos, nome dado ao Mestre do Jogo/Narrador de Terra Devastada, traz dicas e orientações sobre como narrar no cenário, focando e lembrando sempre que este não é um jogo de matar zumbis, e sim um jogo de horror pessoal ambientado em um apocalipse zumbi. Além de trazer a estrutura de histórias para facilitar a vida de quem for desempenhar a função de Mestre dos Mortos.

O capítulo cinco, Sociedade dos Mortos, traz informações detalhadas sobre os principais antagonistas de Terra Devastada, sua anatomia, o Vírus Z, e a diferença entre os zumbis genéricos e os zumbis funcionais, trazendo a ficha de doze zumbis funcionais para aterrorizar os seus jogadores.

Por fim, o último capítulo, Estrada para o Inferno, traz uma aventura introdutória simples, que pode ser facilmente adaptada para qualquer cidade ou ambientação que o Mestre dos Mortos tiver em mente para sua campanha de Terra Devastada. Contudo, eu achei a aventura o ponto mais fraco do livro, talvez por centrar demais no pior da humanidade, e o apocalipse zumbi ficar em segundo plano.

Talvez esse seja, em minha opinião, o único defeito de Terra Devastada: ele parte do princípio de que, no final dos tempos, o pior da humanidade é o que mais vai sobreviver. As catástrofes ao redor do mundo e a História já mostraram mais de uma vez que o ser humano é solidário e, na maioria das vezes, bom. Apesar de haver sempre os aproveitadores, os inescrupulosos, os corruptos e os criminosos, são sempre aqueles que se unem por um bem maior que no final sobrevivem e vencem.

Notas (de 1 a 6)
Texto:
6 (Simplesmente excelente!)
Conteúdo: 5 (Será que o pior da raça humana é o que mais sobreviveria a um apocalipse zumbi?)
Arte/Layout: 4 (A diagramação é excelente. A arte não compromete, mas está longe de encher os olhos)
Nota Final: 5

 

Por Marcelo Telles
Coordenador do REDERPG

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6 Comments
  1. Fica a pergunta: O brazuca Terra Devastada consegue fazer frente com o gringo tb indie Shotgun Diaries?

  2. Eu acredito que aja espaço para os dois (eu mesmo comprei ambos e, assim que minha “lata” chegar, farei a resenha do Shotgun).

    Eles possuem abordagens e dinâmicas diferentes um do outro.

  3. O jogo é ótimo, só não vejo motivo para menosprezar os RPG’s da White Wolf.

  4. Não há menosprezo, Renato, apenas a constatação que o horror pessoal nos vampiros da White Wolf não chega nem perto do que um humano normal sofreria em um apocalipse zumbi.

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