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A Guarda Negra de Dol Mordhar: Capítulo 2: Os Aventureiros

Exceto pelos orcs e pelos gnolls – embora estes últimos nunca sejam levados em consideração – todas as raças inteligentes e civilizações de Isaldar não são da Sétima Lua: elas vieram de Elária, chamada desde então de Mundo Primordial. Dois séculos e meio atrás, uma entidade de poder incomensurável, chamada de “A Aniquilação”, veio ao plano material com o único propósito de consumir toda a criação, começando por Elária.

Os deuses desceram ao Mundo Primordial com suas hostes para lutar contra a entidade e seus servos, e logo constataram seu imenso poder. Percebendo que não poderiam derrotá-la, mesmo combinando todos os seus poderes e esforços, eles decidiram aprisioná-la, usando para isso o próprio mundo de Elária e um poderoso ritual que usaria seis das sete luas do Mundo Primordial para criar um selo místico, “O Selo das Seis Luas”. A Sétima Lua, Isaldar, foi deixada de fora e escolhida como novo lar para as raças e civilizações de Elária, e para lá elas foram levadas pela magia dos deuses ou por meios mais sombrios.

Após levarem a última e mais numerosa de todas as raças, os humanos, os deuses realizaram o ritual e foram bem sucedidos em aprisionar a poderosa entidade. Contudo, alguma coisa aconteceu e os deuses tiveram suas almas consumidas ao final do ritual, sendo todo o panteão morto e os seus corpos caíram com a maior parte de suas hostes num cataclismo na Sétima Lua. Tal evento ficou conhecido como “A Queda dos Deuses” e arrasou o coração do continente de Aldar, criando o deserto sobrenatural chamado depois de “A Ferida”, destruindo onde antes florescia a civilização dos orcs e os reduzindo à barbárie.

Muitos passaram a culpar os humanos pela tragédia divina, por terem sido a última raça a ser trazida para Isaldar, e eles receberam a deselegante alcunha de “assassinos dos deuses”. Apesar de tudo, não se chegou a se consolidar algum preconceito ou estigma sobre os humanos por conta disso, mas a alcunha tornou-se notória e recorrente, e um meio comum de se provocar um humano.

Os anos passaram e as raças de Elária foram se adaptando ao Novo Mundo. Dois momentos foram especificamente traumáticos pára os recém chegados depois da vinda do Mundo Primordial e a Queda dos Deuses: a primeira “Escuridão” e o primeiro “Alinhamento”.

Com uma regularidade de uns poucos anos, Isaldar entra na sombra de Elária – que os orcs dizem que se tornou sombria desde que a Aniquilação foi aprisionada, mesmo quando está cheia nos céus – impedindo por completo a Sétima Lua de receber a luz dos sóis gêmeos. Este período que felizmente dura apenas uns poucos dias, é chamado pelos orcs de “A Escuridão”.

Durante a Escuridão, as criaturas do subterrâneo de Isaldar vêm à superfície em busca de novas presas. Com a vinda das raças e civilizações de Elária, seu campo de caça se tornou mais abundante. Não apenas criaturas bestiais e aberrações emergem durante a Escuridão: predadores inteligentes e raças malignas do submundo também emergem durante esses períodos para se banquetear com o sangue e o medo dos que vivem na superfície. A primeira Escuridão enfrentada pelos povos vindos do Mundo Primordial foi especialmente danosa, uma vez que havia ainda pouco contato com os orcs naquela época – e na maioria das vezes não muito amistoso – e evidentemente os orcs não se preocuparam muito em contar aos recém chegados o que acontecia durante a Escuridão.

Quando os novos habitantes do Novo Mundo pareciam já mais adaptados, uma nova ameaça ainda maior se abateu sobre a Sétima Lua, nova inclusive para os orcs (e gnolls). De tempos em tempos, as seis luas se alinham com Elária e Isaldar. Quando isso acontece, o Selo das Seis Luas enfraquece, e a Aniquilação consegue tocar Isaldar com o seu poder. Durante ao que foi chamado simplesmente de “O Alinhamento”, ela envia alguns de seus servos mais poderosos para assolar o Novo Mundo, trazendo caos e destruição desenfreada indiscriminadamente. Cidades inteiras são varridas do mapa e muitos heróis deram suas vidas para derrotar tais ameaças.

Mas a Ferida não foi a única consequência da Queda dos Deuses. A morte do panteão fez surgir por toda Sétima Lua, especialmente na Ferida, jazidas de um novo metal com propriedades místicas, o “Metal Divino”. Além de ser um material de qualidade superior, excelente para armas e armaduras, o Metal Divino possibilitou o surgimento de uma nova arte arcana, a “Tecnomagia”. Essa mistura de tecnologia mundana com a magia arcana nasceu no Império Melkhar, mas hoje está se espalhando por todo continente de Aldar. Itens tecnomágicos são mais mundanos e acessíveis que os itens mágicos normais e possibilitam maravilhas, como os fabulosos navios aéreos melkharianos.

Além do Metal Divino, a morte dos deuses fez surgir os “Luminares”. Um Luminar é um indivíduo que possui uma pequena parte da essência divina dos deuses mortos, a “Centelha Divina”. Com os poderes que ela proporciona, um Luminar é capaz de feitos assombrosos, mesmo para os mais poderosos magos. E o mais importante: os Luminares são os únicos que podem ascender e se tornar novos deuses. Naturalmente há aqueles que caçam e há aqueles que veneram os Luminares por isso.

Assim, a Sétima Lua é um mundo novo, repleto de perigos e mistérios, como as inúmeras ruínas do Império Aldariano, um império que existiu há séculos em Isaldar, muito antes da civilização dos orcs ascender, e que desapareceu misteriosamente, deixando abandonadas suas cidades e edificações.

Passados dois séculos e meio desde a vinda dos povos de Elária, Isaldar ainda é literalmente um novo mundo a se explorar, e os inúmeros grupos e companhias de aventureiros são os que cumprem fundamentalmente essa tarefa, como a companhia de Viggo Logmar, um Luminar meio-elfo, que comanda um grupo de veteranos da Guerra dos Estandartes Sombrios.

*     *     *

– Então vamos bancar os guardas de cidade? – ironizou Gerolt antes de dar uma grande dentada no pernil que devorava com satisfação. Todos já haviam terminado suas refeições, mas o anão havia pedido mais um grande pedaço de carne.

– Eu fico imaginando o que vou dizer aos meus parentes: séculos de tradição arcana eladrin rebaixados à guarda de cidade, e uma cidade humana ainda por cima… – suspirou Valeran. Seus olhos sem pupilas, característicos de sua raça, davam a ele um ar ainda mais distante.

Logmar deu uma leve risada diante dos comentários do anão e do eladrin. Ele e seu grupo de aventureiros estavam terminando de almoçar no salão principal da bela estalagem onde estavam hospedados. Na maioria das grandes cidades, esta seria uma das melhores ou a melhor, mas em Dol Mordhar ela é apenas “acima da média”. Além de ser a maior, a mais rica e mais antiga cidade mercante dos Principados Brilhantes, e de fazer a conexão entre o comércio do oeste e do leste de Aldar, o Condado de Dol Mordhar é o maior “centro de prazer” do ocidente, sem rival a oeste da Ferida. Claro que não chega aos pés da Ilha de Zhao Khan ou das cidades de Shinmarash, mas o nível de devassidão é bem acima de qualquer outra cidade do ocidente.

Embora o grupo de Logmar tenha condições de pagar pelo melhor, eles não queriam a ostentação e os “excessos” que as melhores estalagens de Dol Mordhar podem oferecer. Aqui onde estavam hospedados, na “Pérola do Condado”, eles tinham uma comida excelente, sem o excesso de sutilezas dos temperos de Aryavarta, mas com um leve toque deles, belas garçonetes sem estarem seminuas, e um conforto capaz de satisfazer o eladrin Valeran, mas sem almofadas em excesso e prazeres carnais inclusos na diária.

O ambiente é fino, iluminado e harmonioso, mas sem ser exuberante. O leque de iguarias e bebidas é amplo, capaz de agradar do delicado paladar dos eladrin ao gosto rústico e acre de anões e meio-orcs. E o aroma do lugar se divide entre os belos arranjos florais e as deliciosas comidas sendo preparadas na cozinha. O grupo estava sentado no fundo do salão principal, mais afastado das demais mesas.

– Em princípio parecerá isso mesmo, pelo menos enquanto estivermos “limpando” e mapeando as masmorras sob a cidade. Depois será questão de tempo até começarmos a incomodar quem comando o crime em Dol Mordhar, e aí seremos qualquer coisa para todo mundo, menos meros “guardas de cidade”.

– O pagamento é muito pouco. Mercenários com nossa experiência e reputação ganham muito mais do que isso – ponderou Tarisha de forma veemente.

– Eu conversei com Brunhild sobre isso. Teremos moradia e alimentação por conta da Igreja de Gotheintor, e ela irá fornecer todo equipamento adequado a “mercenários com nossa experiência e reputação”, e estou falando de itens mágicos – respondeu sorrindo para a halfling.

Os olhos de Tarisha brilharam ao ouvir “itens mágicos”. Embora halflings normalmente não tivessem tal cobiça por tesouros desse tipo, Tarisha tinha essa predileção pessoal. Viggo sabia que tinha acabado de convencer sua pequena amiga.

Quieta e prestando atenção em toda conversa, a tiefling Drusina apenas balançava a cabeça afirmativamente sempre que Viggo falava. O meio-elfo sabia que ela iria até o fim do mundo por ele.

– Acho que vou gostar de caçar criaturas no subterrâneo desta cidade. Ouvi dizer que boa parte é construção aldariana, o que significa que podemos achar qualquer coisa lá embaixo – o comentário de Garr significava que ele concordava. Esse era o jeito dele de se posicionar sobre tudo.

– Se uma pessoa tão sublime como Brunhild se dispõe a uma tarefa tão mundana, a luz de Ashkar-Mithrael também deve estar ao lado dela nessa empreitada – e esse era o jeito de todo yaksha de se manifestar, e Kalyan, clérigo de Ashkar-Mithrael, não era exceção.

Logmar olhou para Gerolt levantando a sobrancelha esquerda. Conhecendo bem aquele olhar, o anão interrompeu o seu “trabalho” com o pernil.

– Com mil gigantes! Não precisa ficar me dando esse seu olhar maldito, você sabe que eu estou sempre com você, Viggo!

Então todos olharam para Valeran.

– Oh! Deuses mortos! Está bem, mas quero alguém para lavar os meus uniformes negros e banhos aromáticos quentes. O cheiro do esgoto vai impregnar meus robes… E a mim.

Gerolt e Garr balançaram a cabeça em repreensão, enquanto Logmar e os demais gargalhavam. Viggo pegou sua taça e se levantou.

– Será providenciado, mestre da magia! Um brinde à Guarda da Magistratura!

Com certa rapidez, Gerolt pegou sua grande caneca de legítima cerveja anã e, subindo em sua cadeira, corrigiu Logmar:

– Não, não. Um brinde à Guarda Negra de Dol Mordhar!

E sete taças e canecas bateram ruidosamente no ar.

*     *     *

Prólogohttps://www.rederpg.com.br/wp/2009/07/a-guarda-negra-de-dol-mordhar-prologo/

Capítulo 1: A Magistradahttps://www.rederpg.com.br/wp/2010/12/a-guarda-negra-de-dol-mordhar-%e2%80%93-capitulo-1-a-magistrada/

 

Marcelo Telles
Equipe C7L
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