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Um mergulho no mundo das miniaturas incríveis

Exército de Warhammer 40k pela White Metal Games, existem milhares desses em casas de gente comum mundo afora

Figure 1 – Druida que você achou muito bem feita (autor desconhecido, 3 cm)

Você até que leva um certo jeito pra pintura e comprou umas miniaturas baratinhas num site chinês. Você pesquisa umas tintas e pincéis na internet e uma semana depois você decide pintar sua primeira miniatura. Você acha o resultado até bacana e mostra para seus amigos que o encorajam a comprar modelos melhores para pintá-los também. Suas novas miniaturas estão ótimas, e então você por acaso resolve postar ela num fórum gringo ou alguma comunidade de Warhammer (jogo de miniaturas). Você é massacrado. E um novo universo se abre para você.

Sabe aquela Tiamat em exposição num aquário naquela livraria do shopping custando um rim?

Maga que usuário banal lhe dá como exemplo (feita por Sven Jonsson, 3 cm)

Vira coisa medíocre.

Sim, igual aquela galera que faz modelismo, aquele negócio de montar e pintar veículos e aviões da Segunda Guerra com muito realismo, tem também gente pintando elfos, demônios, dragões ou até mesmo orcs futuristas. Mas não ache que a galera que desdenhou da sua pintura é toda profissional não, a imensa maioria é composta de amadores que só curtem o hobby mesmo.

Não que eles não sejam bons, pelo contrário, a régua de qualidade mínima, isso mesmo, mínima, dessas comunidades de jogos que focam em miniaturas é bem acima do que costumamos pagar caro por aí no Brasil. “A primeira vez que tive contato com um colecionador de Warhammer durante um intercâmbio na faculdade na Inglaterra, eu fiquei pasmo com a qualidade daqueles “brinquedos”. Jurava que o cara era um profissional e ele alegou que não, que seguia uns vídeos no youtube e trabalhava com paciência. Tem muito disso, paciência, não adianta achar que numa tarde você termina uma miniatura, são anos até você ficar rápido”- ddmkr, um usuário no Reddit (site de fóruns diversos) que hoje também é pintor amador.

Isso não é um vira-latismo, não é que os brasileiros sejam inábeis, definitivamente não são, mas diversos fatores parecem impedir que o hobby de pintura de miniaturas alce voos mais altos em terras tupiniquins.

Warhammer e seu séquito
Para quem não sabe Warhammer é um wargame famosíssimo. Wargames parecem com seu jogo de D&D no aspecto de combate, com a diferença que você controla um mini-exército inteiro de unidades e seu objetivo é vencer o dono do outro exército. Tem turnos, movimentos, ações e rolagens de dano, enfim, lembra muitos aspectos. E Warhammer é o mais famoso, o powerhouse, tal qual o D&D é para os RPGs.

Exército de Warhammer 40k pela White Metal Games, existem milhares desses em casas de gente comum mundo afora

O Warhammer tem dois grandes cenários, o Fantasy, que é a fantasia medieval que estamos acostumados, e o 40.000 (40K), que é um futuro apocalíptico em que só há guerra e destruição.

O jogo possui uma estética bem única que influenciou a arte dos próprios Warcraft e Starcraft da Blizzard. Tudo bem exagerado, armas enormes, armaduras imensas e veículos que parecem fortalezas. E sim, os modelos são muito bem feitos e dá gosto pintá-los.

O negócio é que muita gente que consome Warhammer sequer joga, as pessoas até entendem as regras, discutem equilíbrio, enfim, se preocupam com aspectos mecânicos, mas o que mais impulsiona o hobby é pintar e modelar as miniaturas. Coleções absurdas podem ser vistas nas mãos de amadores, caras como você ou seu vizinho que comprou umas tintas, pesquisou umas técnicas e pacientemente pintou seus batalhões de soldadinhos futuristas.

Uma particularidade de Warhammer, principalmente o 40k, é que as divisões dos exércitos humanos são chamadas capítulos e você pode optar por pintar um capítulo existente no cenário ou nos romances (Warhammer possui uma infinidade de romances, é impressionante), ou você pode criar seu próprio capítulo, escolher as cores, o estilo de combate e criar uma história para ele (igual ao background do seu personagem de RPG). Você pode jogar esse seu capítulo num fórum e a comunidade dá o maior apoio. No fim, cada exército de Warhammer é único, ele é o seu exército. Isso certamente impulsiona o motor criativo dessa comunidade tão assídua com suas miniaturas.

Modelos de Ouro e Tintas de Prata
Sim, modelos bons são caros. Felizmente, com os financiamentos coletivos, a cena de miniaturas tem achado um novo lugar ao sol, muita coisa legal tem aparecido por aí e com certeza sai mais em conta que importar (e sem perder nada em qualidade).

Miniaturas de Warhammer são caras até lá fora, e concorrentes tem surgido e dividido o mercado que era outrora hegemônico. Além disso, nem todo mundo quer uma miniatura do universo de Warhammer para seu personagem de RPG, então há uma vastidão de sites e fabricantes de modelos para você optar (inclusive as “oficiais” do D&D). Mas raramente vai sair menos que R$ 20,00 um modelo bem feito.

Dois modelos iguais de 3cm, um com pintura direta e outro com pintura diluída, dilua suas pinturas!

Em geral, os entusiastas de miniaturas não curtem modelos pré-pintados e, de fato, você acha modelos da Wizards repintados por amadores que fazem os originais parecerem uma massa disforme de tinta.

Agora o bicho pega mesmo é nos demais materiais: se as miniaturas já são um problema, achar os pincéis, tintas e sprays ideais para as minis é bem complicado por aqui. Literalmente, todos os pintores de miniaturas brasileiros questionados afirmaram que improvisam nos materiais. Claro, o material não faz mágica, mas quando se trabalha com traços menores que pintura em grão de arroz, algumas tintas simplesmente são inaplicáveis. Não é fácil.

Ainda assim o que mais pega é a falta de know-how mesmo. Muita gente não dilui a tinta, o que gerou o famoso meme “THIN YOUR PAINTS”, que é um procedimento comum aos pintores iniciantes de não diluir a tinta em água antes de aplicar no modelo. Quase toda miniatura que se vê no Brasil tem pintura grossa. Não que seja essencialmente errado, mas é uma lástima que uma camada grossa de tinta esconda todos os pequenos detalhes das miniaturas que você pagou tão caro.

Porém, assim como existe o desleixo, também existe o esmero.

O Demônio Dourado
Você poderia estampar galerias com suas telas a óleo. Ou ser um tatuador renomadíssimo. Você tem talento de um Rafael e você pinta miniaturas.

Essa é a elite. Sim, arte em geral é subjetiva, mas não há como não se impressionar com os modelos que sobem no pódio do chamado Golden Demon. Mesmo fora do pódio, os próprios candidatos parecem, na verdade, versões encolhidas de criaturas vivas. Se uma coleção amadora já nos faz querer vender a tv para comprar uns bonequinhos, um Golden Demon é estonteante. Fica até um pouco intangível, parecendo aqueles modelos que ficam expostos em convenções de RPG que só servem para olhar. De fato, não acho que os compradores arrisquem danificá-los em jogos. A arte vai além da pintura, esses artistas cortam os modelos e recolam algumas partes para dar mais movimento, lixam alguns cantos e colocam mais elementos para compor o modelo. É escultura também, mas do tamanho de grão de arroz, muitas vezes.

Medalha de Bronze no Golden Demon de miniatura singular por Andy Wardle, tantos detalhes no tamanho de uma moeda.

Como toda premiação, o Golden Demon é questionado, igual ao Oscar e coisas afins. Rola um viés lá e cá, há quem diga que acontece umas “peixadas”, mas não deixa de ser uma excelente amostra do quão excelente uma pintura de miniatura pode ser. É absurdo que alguém consiga colocar tanta vida e tantos detalhes em pecinhas do tamanho de uma moeda de R$ 1,00. Vale a pena conferir.

Como Consigo Miniaturas Assim?
Por mais inacreditável que pareça, fazer modelos decentes é mais um trabalho de paciência e cuidado do que “talento”. Esse monte de estrangeiros que pinta miniaturas super bem desenha só bonecos de palitinho.

Dá para ser amador, nunca ter pintado na vida, e ter um resultado incrível e relativamente rápido.

O Medalha de Ouro de Marc Masclans na categoria de modelos grandes, detalhe nos pequenos fuzileiros aos pés da obra.

Claro, você tem que gostar e realmente querer, vai dar trabalho e as coisas não vão cair do céu. O primeiro passo é aceitar que você não precisa reinventar a roda, tem centenas de canais no youtube com gente ensinando do básico ao mais complexo. Logo de início você verá que coisas bestas como cobrir o modelo com primer (produto que aumenta a aderência de pigmentos) e passar uma tinta diluída em água (lembre-se de NUNCA aplicar a tinta grossa) já mudam as minis da água para o vinho. E partir disso o céu é o limite. Quem sabe você não é capaz de ter uma estatueta de um capetinha dourado na sua estante? Quem nunca pensou “posso ser o melhor esgrimista do mundo e não sei por que nunca tentei”?

E, claro, há a barreira dos materiais, mas dá para se virar até. Com uma comunidade mais forte é possível até que eles se tornem mais acessíveis.

Por último, você pode abrir a carteira e encomendar de algum artista. Lá fora há um número maior de artistas habilitados, mas há bons pintores brasileiros também.

Claro, sempre poderemos nos divertir com tampinhas de garrafa, peças de xadrez, tokens impressos e bonequinhos de kinder ovo, mas isso não invalida que é sempre bom expandirmos nosso universo, subirmos nossa régua e saber que tudo, simplesmente tudo, pode ser melhorado.

Por Eduardo Vieira
Equipe REDE
RPG

Ouro no Golden Demon por David Soper, parece grande, mas é menor que um isqueiro.

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