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Dungeons & Dragons: Entrevista com a Kronos Games

A REDERPG entrevistou a Kronos Games, uma empresa brasileira de boardgames que está lançando em português o boardgame de Dungeons & Dragons, Tiranos de Umbreterna (Tyrants of the Underdark). Nas últimas semanas, os rumores sobre eles lançarem a 5ª Edição de D&D em português têm aumentado, principalmente com o anúncio da DnD Week, e assim resolvemos conferir:

1) Quem são as pessoas por trás da Kronos Game? Os donos, editores, CEO, etc? Qual é a história de cada um com jogos de tabuleiro e RPG?

KRONOS GAMES: Olá, pessoal da REDERPG! Primeiramente obrigado pelo interesse em levar as informações a todos os jogadores do nosso Brasil. Aqui quem vos escreve é a Angelica. Sou a responsável pela Kronos Games. Muito prazer! Normalmente estou envolvida no lado operacional e comercial e é comigo que muitas lojas do Brasil conversam no dia a dia.

Eu sei que não é tão comum, mas no caso da Kronos temos uma mulher no comando. Esta também é uma coisa interessante sob o ponto de vista de que temos cada vez mais mulheres entrando no mundo geek e dos jogos em geral. O RPG, particularmente, sempre teve este apelo de abrir o espaço para todos. Olhando para os dias atuais, este é um sinal de que as mesas de jogos estão ficando cada vez mais variadas. Igual aos personagens que representamos nas aventuras. Isto é muito bacana.

Antes de tudo eu gostaria de responder uma pergunta que não foi feita, mas que é extremamente importante: a Kronos Games tem uma relação muito próxima com “aquela empresa cujo nome não pode ser dito”. Explico: a relação do fogo e do bombeiro é muito íntima. O bombeiro não pode ter medo de se aproximar da chama se quiser de fato extingui-la. Ou seja: se alguém pôs fogo na mesa, o mais próximo que a gente pode chegar é atuando como bombeiros… E olha: o fogo tem esta característica: mesmo depois de extinta a chama, ainda restam as brasas… e elas queimam por um longo tempo!

Posto isso, a Kronos Games não teve/tem/terá qualquer relação com “aquela empresa cujo nome não pode ser dito”. Gosto de reforçar este ponto, pois existem pessoas (com toda a razão de desconfiar) que acreditam que somos (ou temos contato com) eles… kkkk. Nós repudiamos todo o incidente, escolhemos permanecer em silêncio e atuamos apagando todo o incêndio, portanto não temos relação com eles.

Agora de volta à pergunta: nossa estrutura é bem enxuta. Trazemos como base o padrão que utilizávamos em nossas equipes de Localização/Tradução e gerenciamento de MMORPGS e IPs’s na época da Disney Online Studios, empresa na qual a maior parte de nós já trabalhou (tanto aqui no Brasil quanto lá fora). Acredito que um dos membros da equipe que gera mais curiosidade é o Fabio Gullo, nosso guru da LT (localização e tradução) e principal editor. Como tal, você não o encontra facilmente proseando por aí, mas debruçado em projetos de todos os tipos e complexidades (inclusive trabalhando em RPGs de outras editoras). A gente não é ciumento e empresta o talento dele numa boa. É por uma causa maior. Outra figura curiosa é o Persio Sposito (meu marido). Ao contrário do que muita gente pensa, ele não faz parte da Kronos Games. Ele dá seus pitacos como um apoiador e presta suporte importante ao incentivar e aconselhar, mas ele tem a própria carreia. Lógico que ele sempre está nos eventos e participa, lê o material que a gente produz, critica… Afinal é um jogador e fã como todos nós (manja o Ranger Branco? Não faz parte do grupo, mas aparece em algumas aventuras e dá aquele suporte?). Fabio e Persio são amigos antigos e estão envolvidos com RPG desde o inicio dos anos 1990. Eles têm uma história muito engraçada sobre as primeiras tentativas “profissionais” com o RPG. Quando ambos tinham seus 16 anos, enviaram um RPG autoral totalmente pronto para a Devir. Esta, por sua vez, os chamou para uma reunião com o Douglas Quinta Reis e o Luiz Eduardo Rincon (Desafio dos Bandeirantes). Quando souberam que iriam se encontrar com duas crianças, pediram para levarem suas mães (pois ambos eram menores de idade)… vai vendo! Enfim, eles só queriam conhecer os moleques e dizer que não iriam publicar, mas que nunca haviam recebido um material tão completo (embora comercialmente não interessante para a época). Eles dizem que esse foi o balde de água fria mais carinhoso que receberam e que só de a Devir tê-los chamado, já os marcou. Tanto que a gente carrega um respeito muito bacana pela Devir. Tudo por conta desse contato lá no passado. Existem mais pessoas envolvidas (que apresentaremos futuramente). Também temos parceiros e profissionais que adicionamos de acordo com a necessidade de cada projeto.

2) E como resolveram criar e nasceu a Kronos?

KRONOS GAMES: Por incrível que pareça, o objetivo inicial da Kronos Games era justamente lançarmos material de nossa autoria (RPGs, especificamente). Percebeu que a molecada cresceu, mas não abandonou o ideal, certo? Mudamos o rumo logo no início. Voltamos nossa atenção para construir um portfólio de jogos o mais variado possível, com um pouco de cada coisa (não necessariamente títulos AAA). Seria um caminho mais seguro conseguirmos estabelecer uma base de operação com títulos já consolidados e, no futuro, partir para conteúdos próprios. Nessa época já estávamos flertando com diversas empresas e editoras internacionais.

3) Vocês já estão com um grande portfólio e trouxeram pesos-pesados como Spartacus – Um Jogo de Sangue e Traições e o Tiranos. Foi difícil para uma empresa nova conseguir essas licenças?

KRONOS GAMES: Não foi complicado. Nós já tínhamos um background com experiência internacional em licenciamento e gestão de IP’s em uma empresa que não há ninguém no planeta que não conheça. Não era difícil apresentarmos credenciais que chancelavam a nossa habilidade em lidar com este tipo de marcas e questões. Lógico, apesar de tudo éramos uma empresa nascente e com pouco tempo de atuação. Por isso tivemos que provar, por meio de estudos de caso e planos de negócio bem estruturados, que poderíamos suportar a vinda dos jogos para cá, potencialmente trazendo algum tipo de diferencial (que no nosso caso seria o modelo de integração e proximidade com a comunidade). Veja: nenhuma empresa faz negócios com outra cegamente, então foi muita reunião, conferências e até visitas internacionais para fecharmos os primeiros negócios. As duas primeiras empresas com quem fechamos parcerias estratégicas foram a TMG e a Gale Force Nine, ainda em 2015. Quando a gente fala de parceiro estratégico, significa que qualquer coisa dessas editoras que seja lançada em português passa por nós. Ou seja: mesmo que a gente não publique, a gente chancela ou passa a bola pra outros fazerem. Entre os primeiros títulos estavam os dois citados: Spartacus e Tiranos da Umbreterna (em outro momento explico o nome), que era basicamente o primeiro jogo de tabuleiro de D&D já com arte e referências da 5ª edição. Por sinal, logo ali ao lado, ao alcance da mão, estavam os livros de RPG 5th edition. Mas essa é outra história. Tão complexa que merece ser (e será) discutida em outra ocasião, mais já ficou claro que a gente tinha total informação sobre o RPG, certo?

4) E como está a situação do Tiranos? Vocês têm planos de lançar algum outro boardgame de D&D? E quais são os próximos lançamentos de boardgames da Kronos?

KRONOS GAMES: Na verdade, esta é uma enorme confusão e mal-entendido… outro fruto indigesto do Caso DnDgateBR. Nós já havíamos publicado a primeira versão do manual do Tiranos no final de 2016. Nesse mesmo período, estávamos com Spartacus na linha de produção e assim que ele chegasse aqui no Brasil, faríamos as entregas e iniciaríamos a produção do Tiranos. Com todos os investimentos feitos para iniciar a produção em massa do Tiranos, abrimos a pré-venda… Sucesso! Ele foi anunciado em março de 2017 com entrega para agosto do mesmo ano… tudo indo de vento em popa. Quando o Caso DnDgateBR explodiu, nós fomos a primeira empresa a se pronunciar, justamente para que ninguém ficasse preocupado com que a repercussão dos livros “espirrasse” pro lado dos boards. A princípio parecia que realmente não iria afetar em nada o Tiranos. Com o passar dos meses e sem respostas positivas quanto à produção, ficou claro que o Caso DnDgateBR teve uma repercussão tão negativa internacionalmente que a chance de qualquer editora publicar alguma coisa de D&D no Brasil tinha simplesmente acabado de vez. Mesmo a gente já tendo lançado com sucesso outros jogos e estando com Tiranos todo aprovado, já estávamos praticamente sem ele também. A desconfiança com as empresas brasileiras se generalizou e isso inclusive se alastrou para outras áreas dentro do segmento de tabletop games (RPG incluso). Depois de vários encontros e discussões, nós chegamos à conclusão de que seria inapropriado manter as pessoas que compraram o Tiranos na pré-venda amarradas, na esperança de que o jogo ainda fosse lançado. Nesse momento tivemos que tomar a decisão mais complicada, porém justa, que já havíamos tomado: comunicamos que faríamos a devolução integral e corrigida para todos os que compraram o Tiranos na pré-venda. Foi um balde d’água fria tremendo. Mesmo assim, um percentual considerável de clientes ainda insistiu em não aceitar a devolução e esperar. Apesar de termos ficado felizes com este pequeno token de confiança, nós não poderíamos mais nos comprometer com datas, pois tudo ficou muito nebuloso. Embora a gente tenha comunicado que talvez o jogo fosse lançado em 2018, ele na verdade estava paralisado por tempo indeterminado por conta do Caso DnDgateBR. A estimativa era de que em 2018 o caso seria resolvido, mas não havia mais como prever nada. Estávamos em um momento crítico: com uma quantia substancial investida em um jogo que não se sabia mais se um dia viria pra cá, desistir dele (enquanto a resolução do Caso DnDgateBR não vinha) seria abrir mão do último fio de esperança de vermos qualquer coisa relacionada a D&D chegar em nossas mãos. Foi complicado, confesso! Houve momentos em que a gente realmente cogitou desistir. Para uma empresa em seu segundo ano de vida, segurar uma bucha como essa por tanto tempo é quase como uma sentença de morte. Por trás das cortinas a gente engoliu, aguentou e não desistiu. Tiranos chegará ao Brasil em meados de setembro: exatos 1 ano 6 meses depois de termos feito todo o investimento e entregado todos os arquivos para produção. Todos terão oportunidade de ver o Tiranos aqui. Sabemos que esse pode parecer um passo pequeno e insignificante do ponto de vista de quem só se interessa pelo RPG, mas não se engane: diante de tudo o que aconteceu, certamente é um passo imenso e decisivo na direção de outras possibilidades pra todos nós. Existe coisa bacana no pipeline, mas os detalhes a gente deixa pra semana de 13 a 17 de agosto.

Link do posicionamento oficial de cancelamento: facebook.com/kronosgames.br

6) Como foi a reação do público em relação às mudanças dos termos e nomes de D&D em Tiranos?

KRONOS GAMES: Primeiro vou te responder de forma geral: quem já teve oportunidade de participar conosco, sabe que a gente utiliza um modelo de localização/tradução mais colaborativo e interativo, isto é: envolvendo parcialmente a comunidade em algumas decisões e ultimamente tendo o próprio público como decisor/influenciador nas traduções. Isto é um grande paradigma, pois se sabe que nunca se agradará a todos, mas isso já aconteceria mesmo que fizéssemos tudo sozinhos, sem envolver ninguém. Por que não fazer o público participar? Por que não construir junto? Os riscos já existem de qualquer forma. Pedras vão ser atiradas de qualquer jeito. Se é assim, a gente prefere envolver mais gente, afinal o coletivo é mais forte do que o indivíduo 😊

Agora no caso especifico do Tiranos: ele foi pra nós o primeiro grande laboratório. Foi com ele que pudemos calibrar o modelo de envolvimento da comunidade, coletar dados, analisar as tendências, verificar o que mudou e o que permanece. No final foi um grande aprendizado, além de um momento perfeito para refinarmos tudo.

De modo geral a gente tende a ficar o mais aderente possível às traduções anteriores, mas essa não é uma diretriz, e sim uma tendência nossa. A gente respeita muito o legado, mesmo porque só pode haver respeito por quem abraçou a tarefa épica de traduzir esse conteúdo antes. Entretanto, traduções anteriores funcionam mais como nossos balizadores internos… um farol. O caso mais pungente é o próprio nome do jogo: Tyrants of the Underdark que a princípio viria como Tiranos de Underdark, pois foi a principal escolha do povo (sim, nós abrimos para o público escolher na época). A gente faz este modelo de ataque e defesa das opções de tradução junto com o público, levantando os pontos fortes e fracos de cada escolha (com isso demonstrando que não existe um caminho 100% certo). No final recebemos a nova diretriz internacional de que o título deveria ser 100% traduzido no idioma local (assim como foi em todas as demais línguas), desse modo o título tornou-se Tiranos de Umbreterna (a opção mais votada entre as em português). Para o pessoal que não participou e quiser entender um pouco desse modelo colaborativo, dê uma olhada no link.

Felizmente o RPG tem essa magia de te permitir tratar problemas reais dentro do jogo. Basta usar a criatividade que você consegue emular quase qualquer situação. Uma solução interessante foi que, apesar de termos adotado Umbreterna para Underdark, vocês vão notar que em alguns trechos do livro nos referimos a essa região como: “Umbreterna (conhecida popularmente na língua comum como O Subterrâneo)”. Essa é a verdadeira graça do RPG. Você poderia usar na sua sessão de jogo qualquer nome que preferisse. Umbreterna poderia ser utilizado por um personagem mais erudito, clássico, estudado, enquanto O Subterrâneo é o jeito que o povão conhece essa região. Fica bacana, flexível, respeita o passado e está superintegrado ao cenário. Pense nas possibilidades: para um jogador iniciante, tanto faz, pois ele não tem nenhuma referência, mas ficaria interessante ele saber que um lugar é conhecido por mais de um nome (Tolkien foi um mestre em utilizar isso na sua obra). Para o veterano, o roleplay fica mais rico, agora que ele pode emular melhor a representação de conhecimento cultural do mundo por meio das próprias opções de tradução descritas no livro.

Link dos posts interativos de escolha de nomes: facebook.com/kronosgames.br

7) Agora a pergunta que todos esperam: vocês vão lançar em português o Dungeons & Dragons 5ª Edição? Qual é a posição da Wizards e da Gale Force Nine depois D&DBrgate?

KRONOS GAMES: Certamente a pergunta mais importante e complicada. No dia da explosão do caso dndgatebr, nós nos pronunciamos horas depois e já havíamos dito na época que estávamos por dentro de toda a situação, mas por motivos éticos não iriamos nos pronunciar com detalhes naquele momento. Hoje, passado mais de 1 ano, ainda não podemos responder todos os detalhes, mas por ora podemos reafirmar aquele conceito de “parceiros estratégicos” lá da questão 2, lembra? Teremos mais sobre isso na semana de 13 a 17. Nós não podemos nos pronunciar em nome das empresas lá fora, mas é óbvio que ficou uma percepção muito ruim (e a princípio generalizada) do cenário brasileiro. Uma percepção chata, mas que felizmente, passados todos estes meses, estamos tendo o enorme prazer de mudar 😊

Link do posicionamento oficial: facebook.com/kronosgames.br/posts/1468118379885124

8) Muito obrigado a vocês da Kronos por esta entrevista e deixem um recado final para a galera que acompanha a REDERPG.

KRONOS GAMES: A gente é que agradece! Como costumamos dizer internamente: D&D não é uma marca que permite o trabalho “solo”, tem que ser em grupo! Isso significa que todos que colaboram, difundem, fazem seu trabalho independente e voluntário de tradução, tentam trazer conteúdo… todos, de alguma forma, acabam colaborando com o hobby. Sabemos que existem iniciativas, digamos, que visam mais o oportunismo e ganho individual em cima de uma brecha. Infelizmente tais práticas existem no Brasil e são um pouco acima da média. Por outro lado, a comunidade é forte e este tipo de iniciativas só conseguiu espaço por conta da ausência de materiais oficiais de D&D disponíveis aqui. Ao pessoal da REDERPG, saibam que a gente sempre esteve junto com vocês (e em diversos outros canais e lugares) em silêncio, observando, analisando tudo durante muito tempo. Parabéns pela comunidade, iniciativas e pelo trabalho de fazer o hobby crescer da maneira mais correta possível. Sabemos que é difícil. Pedimos desculpas por ficarmos em silêncio por quase 1 ano. Estávamos fazendo a lição de casa e limpando o leite derramado da melhor forma possível. Não esquecemos, não desistimos, não recuamos. Certamente isso gerou alguns frutos positivos que finalmente poderemos compartilhar com todos vocês.

Queria aproveitar para convidá-los a participem conosco da D&D Week que acontecerá basicamente no meio virtual. Como manda a boa regra da etiqueta, a primeira coisa que se faz é chegar e se apresentar. A ideia é justamente esta. Vamos nos reunir e trocar com vocês algumas coisas bacanas (outras nem tanto) ao redor do tema de D&D. Obviamente que não poderemos responder à todas as perguntas (e sabemos que são muitas), mas já vamos nos apresentar, mostrar um pouco do que fizemos, estamos fazendo e faremos no futuro. Revelar algumas coisas, comentar sobre os eventos sobre uma perspectiva diferente e trazer a comunidade para o debate. O caminho se trilha junto. Então, topam?

Vejo vocês semana que vem! Abração a todos!

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Um pouco sobre a História do RPG – Parte 1: Origens