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Vampiro 5ª Edição: The Anarch (resenha)

Após ter falado sobre o Camarilla, hora de falar sobre o suplemento The Anarch. Antes de tudo preciso dizer, minha resenha é uma espécie de “primeiras impressões”. Meu inglês entende bem textos descritivos e formais, mas sofre com diálogos e textos em primeira pessoa. The Anarch é todo desse modo.

Bem, quem espera que Anarch seja uma espécie de Guia dos Anarquistas, terá uma decepção, pois ele não é bem isso. O livro é uma coletânea de fragmentos textuais com 2-3 páginas de vampiros individuais, grupos menores, e nem todos eles anarquistas. Ele é um apanhado de histórias e relatos sobre a vida dos vampiros, seja dentro ou fora das fileiras da Camarilla.

Mas, para entender essa ótica, é preciso entender o que mudou. Lembre-se que antes dessa edição, fazer parte da Camarilla era o padrão do jogo. Ela falava ostensivamente por todos de sua raça e era aberta à novos membros. A coisa mudou, a Torre fechou suas portas. Logo, se você quiser fazer parte dela, se sua geração lhe permitir, terá que penar, ser digno, indicado e aceito. Do outro lado temos o Sabá e a Ashirra, com bases no Oriente Médio. Logo, tudo que não está nas fileiras destas três é tratado como anarquista.

Lendo o livro básico do V5, há a impressão da existência de uma organização anarquista fazendo frente a Camarilla. Mas o livro The Anarch não fortalece isso, deixando claro que cada cidade é uma cidade. Em um lugar as coisas funcionam sobre guerra, em outro não.

Não há um padrão. Apenas são vampiros que não fazem parte da Camarilla. Talvez porque não conseguiram fazer parte. Ou porque nunca quiseram fazer parte. Não importa. Eles não se enquadram nas seitas maiores e isso os rotula como anarquistas.

Há, como dito acima, diferentes realidades em diferentes locais do mundo. Por exemplo, Salvador Garcia, Barão de Los Angeles e dos Estados Livres Anarquistas, é um filósofo e fomenta a força anarquista. Há também no livro aqueles que odeiam a Camarilla e pregam uma luta armada contra ela.

Isso é ótimo. Essa distopia, sequências de incertezas, fortalece o novo clima misterioso do jogo, sem deixar tudo numa luta maniqueísta e dualista boba e sem sentido. Mas, ao mesmo tempo, juro que senti falta de mais embasamento. O livro da Camarilla é cheio de incertezas, quase como no livro do Anarchs, porém equilibra bem a balança entre “relatos” e informações mais “táteis”. E lendo fóruns americanos percebi que isso rolou com outros leitores também.

COISAS DIGNAS DE NOTA
A guerra de Cartago é importante para os Anarquistas, sendo ou não um Brujah. É como se fosse um evento mítico, com grande valor simbólico.

O livro fala sobre grandes revoluções humanas, como isso pode ensinar o movimento anarquista e como os vampiros estiveram envolvidos, passando da Revolução Francesa até a União Soviética.
Salvador Garcia, autor do Manifesto Anarquista, aparece repetidamente no livro.

Junto com os trechos do oriente presentes nos três livros já lançados, creio que a WW vai ignorar os Kuei-jins.

É legal que o livro deixa claro que se vestir de punk gótico usando a camiseta do Misfits ainda é clássico, mas há muitos mais modos de se mostrar como um anarquista. Inclusive, Theo Bell está numa roupagem muito mais tech urbano do que badboy com jaqueta e espingarda.

A Camarilla acerta, principalmente quando fala disso no livro dela, que os Anarquistas penam em fortalecer o sistema que favorece a Máscara. Por exemplo, há muito relatos de blogs, celulares e outros meios eletrônicos que os anarchs usam que os camarillistas repudiam.

Sobre as polêmicas alt-right de materiais da WW, há aqui muitas referências de vampiros associados à antifa. O material possui muita conexão com o mundo mortal, com a atualidade, envolvendo a cultura contemporânea, manifestações culturais, informações sobre fóruns e outros. Os Anarchs se envolvem com os humanos, não se afastam deles.

OS CLÃS
O livro faz uma releitura dos clãs, falando principalmente dos Brujah e dos Gangrel, como eles estão envolvidos com os anarchs e como eles viraram as costas para a Camarilla.

Adicionalmente, há mais informação sobre os Caitiffs e sobre os sangue fracos. Sendo que, sobre esses últimos, há coisas muito legais, como lendas sobre a cura do vampirismo, métodos possíveis de voltar a ser um humano. Por si só, uma campanha pronta.

Além desses, temos informações sobre os cinco clãs da Camarilla que não estão na Camarilla (antigamente chamados de antitribu). Cada um tem seu próprio nome, o que dá um certo charme (Malkaviano Desencadeado, Nosferatu Vermelho, Toreador Abstrato, Ipsissimus Tremere e Ventrue Livre). Lembrando que são apenas adjetivos abstratos, uma leitura diferente sobre o mesmo clã.

Aqui vamos que eles não são “traidores”, apenas informam sobre a ótica diferente do clã fora das fileiras originais.

O MINISTÉRIO
Mesmo com o livro dos Anarchs deixando muitas coisas em aberta sobre como o Movimento Anarquista funciona, a parte do Ministério é bem explicada. Assim como os Banu Haqim tiveram atenção especial no livro Camarilla, aqui temos várias e várias páginas para detalhar todo o clã. Resumindo, o Ministério tem apresso por tentar e corromper os que te cercam, ainda possuem cultos de sangue, alguns contam histórias sobre a origem de Set. Mas mesmo assim, ainda há muitas dúvidas sobre o que aconteceu com o clã entre as edições.

O que fica claro é: tanto o Ministério quando os Banu Haqim queriam se juntar à Camarilla, mas as Serpentes foram sabotados pelos Assassinos para eliminar a concorrência. O que deixou as Serpentes enraivecida. Mas que fique claro novamente: eles não estão envolvidos diretamente com o Movimento Anarquista, apenas não estão nas fileiras da Camarilla.

Mecanicamente, o Ministério possui Ofuscação, Presença e Metamorfose como suas disciplinas de clã. Serpentis está representada por Presença (uma espécie de fascínio da serpente) e Metamorfose (alterar o próprio corpo). Sua maldição permanece a mesma, uma aversão e sensibilidade às luzes fortes.

SOBRE O LAYOUT, DESIGN E OUTROS
A capa é bem inferior ao The Camarilla. O casal de sangue fracos na capa é bem legal, mostra simplicidade, mas fica bem abaixo dos outros dois livros.

O livro da Camarilla revisitou várias das fotos do livro básico. O Anarchs não. Há muitas artes não fotográficas, muito estilos diferentes, do conceitual ao pop. Eu gostei muito, há muitos desenhos bacanas. Poderia para mim ser ainda mais sujo, mais cru e cruel. Afinal, fora do Glam da Camarilla, o mundo deve ser muito mais sujo.

ALGORITMO DE RESPOSTA
Assim como o Camarilla apresentou uma regra para combate entre instituições, The Anarch apresenta um mini-conjunto de regras para algo muito específico.

Esse algoritmo visa fazer com que o Narrador tenha uma espécie de fluxograma que o ajude a adequar o jogo para um modelo de jogo anarquista em uma possível ataque contra a Camarilla, ou mesmo contra qualquer outra organização.

É uma espécie de trilha, onde você encontrará o ponto inicial, quais foram as primeiras ações e pertubações ao antigo status quo. Após esse primeiro passo, hora de pisar em calos maiores e comprar a briga de verdade. Com a briga comprada, nomes são trazidos à mesa, não há mas como retroceder, a porradaria começou. Conflito após conflito, eles chegam ao momento decisivo: o que farão com o seu grande rival? Um acordo? Vão dividir domínios? Ou vão matá-lo?

Enfim, é uma ótima ferramenta para guiar um jogo do zero e sem muita inspiração ou experiência. Uma arma muito útil para todo tipo de Narrador.

CONSIDERAÇÕES FINAIS
Como disse no começo, o livro não é sobre Anarquistas, mas sim sobre os vampiros que vivem fora das amarras das grandes seitas. Um aglomerado de relatos de vampiros espalhados. Sim, muitos deles são anarquistas, mas, nos textos, o fato de serem anarquistas não importa muito, pois o assunto é outro. Longe de ser ruim, o livro se desalinha com a executiva que se espera de um livro de Anarquistas. Menos um Mini-manual do Guerrilheiro Urbano e mais um “Guia do Vampiro solitário pelo mundo”.

Novamente, muito longe de ser ruim, ele executa bem o que se propõe. Mas eu gostaria que tivesse mais material que o fizesse rival à Camarilla. Eu esperava algo que lembrasse o antagonismo da edição revisada, detalhando a guerra entre Camarilla x Anarquistas pelo mundo. Algo que me informasse de maneira tátil como guiar e como conduzir um jogo anarquista. De qualquer forma, este é um livro muito bacana de ser lido, muitas ideias e apresentação muito atrativa para novos jogadores.

Por Rafão Araújo

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